- Introdução.
Se a felicidade não está essencialmente no intelecto prático, que calcula e planeja – embora ele se relacione com a felicidade na medida que permite construir-nos como pessoas melhores – ele deve ter relação direta com aquela função da mente que aprende, que contempla, que especula sobre o que está fora de nós; é o chamado “intelecto especulativo”. Ele é responsável, entre outras coisas, pelas chamadas “ciências naturais”, incluídas aí aquilo que hoje chamamos de “ciências sociais”. A questão, então, é a de saber se adquirir muita ciência, ser um pesquisador científico, ser um grande professor de assuntos científicos, é aquilo em que, essencialmente, consiste a felicidade. Em outras palavras: o saber científico acumuloado em nós leva-nos à felicidade?
Vamos ao debate.
- A hipótese polêmica inicial.
A hipótese polêmica inicial é a de que a felicidade é algo próprio do intelecto científico, no sentido de alguém que desenvolveu muitos conhecimentos científicos. Neste sentido, o caminho da felicidade passaria, essencial e substancialmente, por uma bela carreira acadêmica, com licenciaturas, bacharelados, especializações, mestrados e doutorados. Um “pós-doc” seria, segundo esta hipótese, uma marca de que a pessoa se tornou feliz, ou pelo menos muito próximo da felicidade. Em outras palavras, a hipótese é a de que a felicidade consiste no acúmulo de conhecimentos científicos em nossa mente. Existem três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos iniciais em favor da hipótese polêmica.
O primeiro argumento.
Segundo Aristóteles, “a felicidade é algo próprio da virtude perfeita”, que é a operação própria do ser humano. Ora, a mente especulativa é uma característica própria dos seres humanos, uma vez que os animais não-humanos não costumam contemplar, especular ou produzir ciência propriamente dita. E o argumento prossegue, lembrando que Aristóteles aponta, em nossa mente, três graus de perfeição quanto ao domínio das ciências – que ele chama de “virtudes intelectuais”. Esses três graus, que crescem em profundidade, são: o conhecimento (aquele saber certo, mas ainda pragmático, sem grande grau de reflexão e elaboração), a sabedoria, que é um conhecimento mais profundo, elaborado e refletido da realidade (aquilo que chamamos, hoje, de conhecimento propriamente científico ou metodológico) e finalmente a compreensão, que poderíamos, hoje, chamar de “conhecimento filosófico”. Todos estes níveis dizem respeito, como podemos imaginar, ao conhecimento sobre a criação, sobre as coisas que se dão a conhecer diretamente ao nosso intelecto. O conhecimento metódico, refletido, sujeito a verificação e à crítica, e portanto confiável. este é o tipo de conhecimento que é próprio do ser humano e apenas dele; assim, podemos dizer que este tipo de conhecimento realiza a essência própria do ser humano e, portanto, representa a felicidade humana no sentido próprio. Assim, o desenvolvimento do conhecimento científico em seus três degraus de profundidade representa o modo próprio para um ser humano ser feliz, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer; é assim que Aristóteles inicia sua obra “Metafísica”. Ora, o conhecimento mais perfeito, mais adequado ao ser humano, é o conhecimento dito “científico”, seja no nível das ciências naturais, das ciências humanas, ou mesmo das ciências mais elevadas como a filosofia. O próprio Aristóteles, na mesma obra, nos diz que as ciências especulativas, aquelas que visam a contemplação e o desvendamento do mundo, são atrativas independentemente de sua utilidade prática, isto é, o saber profundo é algo que se justifica por si mesmo, tem valor de bem último, portanto. ora, se a felicidade é exatamente o desfrute do bem último, como vimos nos textos anteriores, então podemos dizer que a aquisição e o desenvolvimento das ciências especulativas, na mente intelectual, é o lugar próprio da felicidade humana, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade consiste, como já vimos, na plenitude do desenvolvimento humano. Ora a plenitude de tal desenvolvimento se dá quando todas as nossas potencialidades são transformadas em atualidades, isto é, são levadas à completude. Mas nosso intelecto especulativo é levado à atualização, à completude, pelo processo de aprendizagem das ciências especulativas, em seus diversos graus de profundidade. Portanto, é nesse processo de aperfeiçoar o nosso intelecto com o conhecimento científico profundo que a felicidade deve existir de modo próprio, conclui o argumento.
- O argumento contrário à hipótese inicial.
O argumento contrário nos lembra que até mesmo a Bíblia nos ensina que não é o acúmulo de conhecimentos intelectuais que nos torna pessoas perfeitas. De fato, “Eis o que diz o Senhor: “Não se envaideça o sábio do saber”, ensina o Profeta Jeremias (9, 22a). Logo, o acúmulo de conhecimento científico não conduz necessariamente à felicidade, conclui o argumento.
- Encerrando por enquanto.
A hipótese inicial, com seus argumentos objetores, querem nos convencer de que a intelectualidade científica, o desenvolvimento de um saber, digamos, universitário, seria a plenitude da nossa felicidade. Muita gente pensa assim, ainda em nossos dias; busca títulos, graus universitários, cursos no exterior e coisas assim, acreditando que encontrará a felicidade nisto. estarão certos? É o que veremos no próximo texto.
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