1. Retomando.

A razão prática nos habilita a fazer duas coisas – transformar o mundo à nossa volta, naquele trabalho que os antigos chamavam de poiesis, e transformar a nós mesmos, aperfeiçoando-nos, naquela atividade que os antigos chamavam de praxis. Assim, quando estudo, quando desenvolvo minhas virtudes, quando adoto uma disciplina para aprender, em tudo isso existe praxis,, ou seja, existe a minha inteligência prática trabalhando no meu próprio aperfeiçoamento. Este aperfeiçoamento, que é possível enquanto vivemos uma vida no tempo e no espaço – antes da morte biológica, portanto, é uma das principais maneiras pelas quais podemos alcançar alguma felicidade nesta vida, ao lado daquela maneira principal – o aperfeiçoamento do intelecto contemplativo pela fé. Após a nossa morte, se entrarmos na glória, já não há mais a possibilidade de desenvolvimento, nem como poiesis nem como praxis. Nem haverá mais a fé – 1 Coríntios 13, 13. Mas teremos a felicidade eterna, inesgotável e completa da contemplação de Deus. Felicidade que sacia toda a vontade. E que se dá em nosso intelecto contemplativo. Mas isso é assunto para textos posteriores.

Vimos um pouco dessas coisas no texto anterior. Agora devemos estudar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, a partir dos elementos que ele nos deu em sua resposta sintetizadora. 

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor nos lembra que a felicidade consiste em parecer o máximo possível com Deus, que é feliz por essência. Mas em Deus, em sua relação conosco, a inteligência é essencialmente prática, porque ele é o criador de tudo. Logo, a felicidade humana está em desenvolver o intelecto prático, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

De certa forma, o intelecto prático em nós é, por analogia, o que nos relaciona com aquilo que nós criamos de uma maneira análoga àquela com a qual Deus se relaciona com sua criação. Mas quando nós nos relacionamos com Deus, o que está em jogo, em nós, é o nosso intelecto contemplativo, já que nem Deus, nem a felicidade divina, são criados por nosso intelecto, mas apenas oferecidos à nossa contemplação. De fato, o próprio Deus contempla a si mesmo, e essa é a sua maior felicidade. Logo, a nossa felicidade está muito mais propriamente no intelecto especulativo do que no prático.

O segundo argumento objetor.

A felicidade, como sabemos, é o bem perfeito, é aquilo que plenifica o ser humano.  Mas o bem, como objetivo, não é algo a ser simplesmente contemplado, mas algo a ser realizado. ora, quando a nossa mente contempla aquilo que é verdadeiro, ela é chamada de “intelecto contemplativo”, ou “intelecto especulativo”, que tem por objeto conhecer a verdade daquilo que contempla. Mas quando a nossa mente planeja fazer coisas boas, ela é chamada de “intelecto prático”, e é justamente pelo intelecto prático que um ser humano é considerado bom: um bom artesão, um bom poeta, um bom cidadão, uma boa pessoa. Assim, para atingir o bem perfeito, que é a felicidade, precisamos do intelecto prático, e não do intelecto especulativo, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que o intelecto prático pode nos tornar pessoas melhores, e assim nos aproximar da felicidade. Mas a felicidade é própria de Deus, de quem podemos nos aproximar pela contemplação amorosa da Verdade que é Ele mesmo. E isso, a contemplação da verdade que nos excede e nos transcende, é própria do intelecto contemplativo. Conhecendo Deus, estabelecemos com Ele uma relação que se dá em nosso coração e nos aperfeiçoa, de um modo muito mais completo do que qualquer plano ou projeto que possamos fazer. Pela contemplação de Deus, caminhamos para nos deixar moldar pelo Bem absoluto, que é a única maneira de realmente ser feliz.  

O terceiro argumento objetor.

A felicidade é algo em nós, não externo a nós. Ora, a nossa mente, quando se ocupa de construir algo em nós, é chamada de “intelecto prático”, porque se empenha em nos tornar melhores. O intelecto especulativo ou contemplativo, no entanto, se ocupa apenas em conhecer o que nos transcende ou está fora de nós. Logo, a felicidade é muito mais algo do intelecto prático do que do especulativo, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Se nós nos bastássemos, se os humanos fossem autossuficientes, se o individualismo fosse verdadeiro, então o intelecto prático bastaria para que fôssemos plenamente felizes. Bastaria estabelecer um plano de desenvolvimento pessoal, um plano de poupança ou de negócios, um plano de estudos ou de trabalho e caminharíamos inevitavelmente para a felicidade. Mas não somos seres autossuficientes… então precisamos contemplar e conhecer aquilo que está fora de nós, mas que se abre às nossas relações. Precisamos dos outros, e principalmente precisamos de Deus para sermos felizes. Deste modo, a felicidade se completa no intelecto especulativo, que se abre ao conhecimento do que está fora de nós e, principalmente, nos abre à relação com Deus. 

  1. Concluindo.

Enquanto caminhamos nesta vida, somos seres que podem se aperfeiçoar, e para isso precisamos do intelecto prático. A felicidade pressupõe, e até exige, que nos tornemos pessoas melhores, e isso é uma tarefa do intelecto prático. Mas a felicidade está fora de nós, no sentido de que precisamos nos abrir para o conhecimento do outro, para o conhecimento de Deus, mas não simplesmente o conhecimento informativo, senão o conhecimento propriamente relacional. Conhecer o outro, conhecer o Senhor, para poder amá-los. Eis o caminho da felicidade.