- Introdução.
A felicidade é a razão fundamental pela qual nos movemos, pela qual fazemos o que devemos fazer. A questão é que utilitaristas e hedonistas não compreendem bem essa verdade fundamental, e creem – e defendem – que, no fundo, todos buscam o prazer e fogem da dor. O que não é verdade. De fato, a felicidade não é – nem pode ser – algo diretamente buscado em nosso agir. Quem age buscando a felicidade como prazer que resulta diretamente do agir certamente jamais vai encontrá-la. A felicidade é o resultado necessário de buscar – e fazer – o bem. Devemos reconhecer o bem como algo que nos precede e excede, que está fora de nós mesmos, mas com o qual devemos nos relacionar para atingir nossos objetivos. Mas esse bem não é algo que construímos com nossa inteligência prática, ou pelo menos não é só isso.
No texto anterior vimos, no entanto, justamente a hipótese de que a felicidade é algo que construímos com nossa inteligência prática, e vimos três argumentos iniciais que tentavam contemplar essa hipótese. Vimos o argumento contrário, que afirma que a felicidade não é um construto da nossa própria habilidade, mas algo que devemos conhecer e contemplar com nosso intelecto especulativo. Vejamos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
De fato, a felicidade, quer dizer, nosso repouso na plenitude que sacia completamente a nossa vontade, não é algo que simplesmente podemos construir com nossos cálculos e projetos, isto é, não é propriamente um fruto de nossa inteligência prática. Ela é, principalmente, algo que podemos reconhecer e aprender, contemplando. A inteligência prática é aquela dimensão da nossa inteligência que sempre quer dominar, que sempre quer submeter a natureza para construir utilidade a partir dela, em suma, a inteligência prática é a inteligência que faz de nós artesãos, engenheiros, arquitetos da vida – ou, como diriam os mais jovens, é a mente do coach que sempre é capaz de construir uma saída para cada dificuldade da vida.
Reconhecer que o mundo à nossa volta nasce de uma inteligência que nos supera e admirar-se dessa inteligência; querer conhecer mais sobre ela e buscar entrar em relação com ela. Tudo isto está no campo da inteligência especulativa, ou inteligência contemplativa – e não no campo da inteligência prática, que é derivada daquela última. E é na inteligência contemplativa que a felicidade está, de maneira própria. E Tomás nos dará três razões pelas quais as coisas são assim:
- Seja o que for a felicidade humana, ela é uma atividade, um dinamismo. Mas ela deve ser, necessariamente, a atividade mais elevada de que somos capazes. Nenhum ser humano seria feliz realizando a atividade própria, digamos, de um cão ou um porco. O próprio Stuart Mills, que defendeu tão inteligentemente o utilitarismo, afirmou que “é melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito“. De fato, a felicidade consiste em desenvolver aquela atividade própria do ser humano e apenas dele. Ora, muitos outros animais são capazes de atividades dotadas de articulação prática, como os castores que constroem barragens nos rios, ou os grandes predadores e suas estratégias de caça. Mas somente o ser humano é capaz de contemplar e refletir sobre o mundo que o cerca e sobre quem o criou – somente o ser humano reflete sobre Deus e sua relação consigo. Esta, pois, é a atividade mais elevada que um ser humano pode realizar – e deve realizar. Porque a felicidade, como testemunha o próprio Aristóteles, é algo próprio dos deuses, e portanto o ser humano pode reconhecê-la e aprendê-la, buscá-la e até vivê-la, mas sempre como algo de que participa, mas não é própria dele, senão de Deus. E com Deus apenas a inteligência especulativa pode se relacionar, porque ninguém pode dominar Deus ou fazê-lo objeto de nossos próprios cálculos e técnicas.
- A segunda razão é que a felicidade nunca é um meio para outros objetivos, mas na verdade é o fim para o qual todos os meios convergem. As coisas que fazemos por causa de outras coisas não podem ser o objetivo final, nem podem conter a própria felicidade. A felicidade, quando atingida, é aquele dinamismo, aquela atividade, que se justifica por si mesma e não leva à necessidade de outra atividade para complementar-se. A felicidade, podemos dizer, é suprafuncional, no sentido de que ela é, mas não serve para outros fins. Pensemos, por exemplo, num almoço de domingo com a família – ele se justifica por si mesmo, pelo prazer de conviver e estar junto, ou não é algo que traz a felicidade. Se estamos no almoço, por exemplo, buscando nos aproximar, por interesse, de algum parente rico, então acreditamos que a felicidade não está no almoço, mas no dinheiro e na influência daquele parente – e este seria nosso objetivo final, que, segundo cremos (erroneamente) nos faria verdadeiramente felizes. Em todo caso, a felicidade não pode constituir-se no intelecto que faz, que busca domínio e utilidade, mas naquela atividade que se justifica por si mesma.
- A terceira razão é que a felicidade, como já vimos, é a participação num modo de vida superior. Ora, é pela contemplação que o ser humano pode abrir-se àquilo que não controla nem pode controlar, ao perceber que aquilo que o rodeia não foi feito por ele mesmo nem por outros seres humanos. Abrindo-se ao conhecimento e à relação com quem reconhece como mais perfeito e mais feliz do que ele mesmo, o ser humano pode alcançar a felicidade. Todas as outras atividades humanas são, de algum modo, compartilhadas com seres desprovidos de atividade espiritual, e, portanto, desprovidos de felicidade no sentido próprio. Assim, pela contemplação, entramos em relação com Deus e com seus Santos Anjos, ao tempo que, pela atividade do intelecto prático, desprovida da dimensão contemplativa, apenas entramos em comunhão com o universo material e seus recursos. Logo, a contemplação, atividade própria do intelecto especulativo, é muito mais o lugar próprio da felicidade do que o intelecto prático.
Deste modo, diz Tomás, a felicidade, em sentido próprio e pleno, tal como a viveremos na eternidade, é basicamente contemplativa, no sentido de que é uma participação na felicidade divina, por meio da comunhão com Deus. Não decorrerá de algo que construiremos ou levaremos para a eternidade, porque nada levaremos senão a nós mesmos.
E a inteligência prática? A eternidade se dá fora da história, sem lugar, portanto, para a nossa criatividade. MAs a ressurreição dos corpos é algo de que sabemos muito pouco, e portanto tampouco sabemos muito sobre o lugar para o nosso intelecto prático ali.
Nesta vida mortal, ela é, certamente, importantíssima, no sentido de que podemos utilizá-la para aumentar nossa felicidade imperfeita, tal como a podemos gozar aqui. E o fazemos usando esta capacidade para desenvolver nossas próprias virtudes e fazer a vida dos outros mais fácil, mais justa, mais rica. Para que haja alguma felicidade em nossa vida terrena, certamente o grande meio é que nos tornemos pessoas melhores. Inclusive melhores “fazedores de coisas” e melhores construtores de nós mesmos.
- Encerrando por enquanto.
De fato, num mundo vazio de Deus, sem significado em si mesmo, de coisas neutras ao valor intrínseco, só nos restaria usar o intelecto prático: toda a ciência moderna é uma ciência prática, no sentido de que deve sempre impor significado a um mundo vazio de significado intrínseco. O ser humano da modernidade – e da pós-modernidade – é um desencantado e um fazedor – alguém, de certo modo, incapaz de contemplação, simplesmente porque a contemplação pressupõe o reconhecimento da maravilha que está aí e não nasce de mim. E, a julgar pelo que nos ensina Tomás, aqueles que não são capazes de contemplar o mundo que Deus criou, ou mesmo contemplar o próprio Deus em sua beleza infinita – jamais vão poder gozar da felicidade verdadeira. Que está, segundo ele nos ensinou, no intelecto que contempla, não no intelecto que faz. Embora este último, naquelas pessoas que são capazes de contemplar, passe a fazer coisas maravilhosas, que só podem brotar de um coração feliz.
Por outro lado, como Tomás nos lembra, sempre podemos usar a inteligência prática para construir em nós pessoas melhores. Eis o sentido da ética das virtudes, que estudaremos ao longo desta seção da Suma.
Deixe um comentário