- Introdução.
Estamos estudando exatamente em que consiste a felicidade em nós. Já vimos que ela não é um “estado”, no sentido de um repouso em que nos coloquemos, mas uma dinâmica, quer dizer, uma atividade. Aqueles que buscam a felicidade, portanto, no isolamento e na quietude total não a encontrarão: a felicidade não é ligar a placa do “tô nem aí” e se isolar dos problemas da vida e do mundo, ou imaginar que se vai ficar num estado de não ação total. Há, pois, quem esteja muito enganado em imaginar que as dinâmicas da vida e da fé retiram alguém da felicidade.
Além disso, vimos que ela não consiste numa atividade dos sentidos. A felicidade não consiste em sentir sabores maravilhosos, ou perfumes caríssimos, ou ainda receber estímulos tácteis de intenso prazer. A felicidade não é um “dia no SPA” eterno, com massagens, comidas e prazeres – embora, obviamente, essas coisas sejam boas de modo bem limitado, se recebidas de modo ordenado. Por fim, nos últimos textos, vimos também que a felicidade não está numa vontade poderosa e ilimitada, capaz de fazer tudo o que lhe der na telha. Há quem acredite nisso, que é necessário ser rico e poderoso, ter tudo o que se quer, para ser feliz. Vimos que não é isso.
Agora vamos examinar uma outra possibilidade: será que a felicidade está propriamente no intelecto prático, isto é, a felicidade é algo que construímos, como o arquiteto constrói seus prédios ou o artista constrói sua arte? Será que a felicidade é algo que nós manufaturamos?
Sabemos que a inteligência prática é aquela que nos habilita a fazer, a construir, a modificar o mundo, a colocar novas realidades a partir de nossas habilidades. A hipótese, aqui, portanto, é a de que a felicidade é um construto de nossas próprias habilidades, digamos, artesanais. Vamos examinar esta hipótese.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial propõe justamente que a felicidade consiste numa atividade do intelecto prático, isto é, não é algo que nos é dado para sentir, querer ou contemplar, mas é algo que brota da nossa capacidade de fazer, de construir, de arquitetar. A felicidade não pode, então, simplesmente ser encontrada: ela tem que ser construída por nós mesmos, propõe esta hipótese. Há três argumentos iniciais que tentam comprová-la.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que o maior objetivo do ser humano deve ser fazer-se mais semelhante a Deus. Mas Deus é aquele que cria e mantém todas as coisas. Em nós, humanos, o intelecto que é capaz de criatividade é chamado de “intelecto prático”, em oposição ao intelecto contemplativo, que apenas é capaz de contemplar e aprender com aquilo que já existe. Mas em Deus não existe a possibilidade de contemplar e aprender com aquilo que está aí sem que ele próprio tenha feito, porque ele mesmo é o criador de todas as coisas. Portanto, em nós, ficamos mais parecidos com Deus quando desenvolvemos nosso intelecto prático do que quando usamos nosso intelecto contemplativo. Logo, a felicidade está mais propriamente no intelecto prático, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
A felicidade é a perfeição, é o bem perfeito para o ser humano. Mas o nosso intelecto tem uma dimensão especulativa, que busca conhecer a verdade, e uma dimensão prática, que busca fazer coisas, e fazê-las bem. Logo, é o intelecto prático que está envolvido com a dimensão do bem em nós. Ora, nós atingimos o bem não simplesmente pelo conhecimento especulativo e contemplativo que acumulamos em nosso intelecto contemplativo, mas por termos um intelecto prático capaz de fazer as coisas de modo bom. É por isso que, muitas vezes, o bom profissional não é aquele que tem mais informações, mas o que é capaz de fazer as coisas de um modo melhor. Portanto, a felicidade não está relacionada com o intelecto especulativo, mas com o intelecto prático, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade consiste num bem que é vivido pelo ser humano. É algo em mim, e não fora de mim. Mas o intelecto especulativo é adequado para a contemplação daquilo que está fora de nós, não para construir o bem em nós mesmos, ou seja, desenvolver adequadamente nossas habilidades, virtudes e emoções. Para isto, o intelecto prático é mais adequado. Logo, a felicidade se relaciona com o intelecto prático, não com o intelecto especulativo, conclui o argumento.
- O argumento contrário.
Em sentido contrário, o argumento que se opõe à hipótese inicial nos mostra que há um testemunho contra ela. De fato, é o próprio Santo Agostinho que nos ensina que a felicidade não consiste em algo do intelecto prático, mas do intelecto especulativo. A felicidade não consiste em desenvolver nossa habilidade de fazer as coisas bem, que é própria do intelecto prático, mas consiste no desenvolvimento da capacidade de contemplar, isto é, de ser capaz de descobrir intelectualmente e se encantar completamente com a beleza e a perfeição daquilo que nos ultrapassa, mas que precisamos conhecer para alcançar a felicidade. Logo, a felicidade é algo que se relaciona com o intelecto que contempla, não com o intelecto que faz coisas, conclui o argumento.
- Encerrando.
Será que a felicidade é algo que construímos em nós, ou é algo que assimilamos em nós a partir daquilo que descobrimos fora de nós? É o que veremos no próximo texto.
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