1. Retomando para concluir.

A vontade desvinculada da inteligência leva ao voluntarismo absoluto e à ilusão de que a liberdade está em poder fazer tudo e qualquer coisa; a vontade de poder seria o movimento do ser humano para a liberdade, como creem os niilistas, na esteira de nomes como Schopenhauer e Nietzsche. Assim, qualquer inteligibilidade, qualquer racionalização, qualquer apelo à tradição ou normas seria algo que se opõe à liberdade: quanto menos inteligibilidade, quanto menos o ser humano for movido por aquilo que pode aprender e conhecer, quanto mais basear suas escolhas na razão, menos livre ele será, pensam estes. Uma vontade realmente livre é aquela que não precisa justificar racionalmente o que escolhe, e pode escolher o que quiser. Nada mais ilusório. As grandes ideologias niilistas, como o nazismo, já mostraram qual o resultado de pensar assim: destruição, escravidão, infelicidade. 

Por outro lado, um intelectualismo frio, ascético, distante da sensibilidade e da prática leva a um mundo menos humano. É preciso conhecer para ser feliz; mas conhecer, aqui, tem um sentido muito mais profundo do que o saber acadêmico dos professores ou a erudição estéril dos intelectuais. Trata-se de conhecer o Deus que é amor. Isto é, trata-se de estabelecer uma relação consciente e reflexiva com Deus, vivendo com ele e para ele. Não há outro caminho para a felicidade.

Conscientes destes princípios, estudemos agora os últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás a eles. 

  1. Os dois últimos argumentos objetores e suas respostas.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento visa justamente ressaltar o amor como operação humana mais nobre. De fato, está na Bíblia, e é inegável que o amor é superior à própria fé e à própria esperança, não por torná-las inúteis (não o são), mas porque sobrevive a elas. De fato, segundo 1 Coríntios 13, 13, agora coexistem a fé, a esperança e o amor, mas o amor é o maior dos três. Portanto, se o amor é a operação mais nobre, é nele que deve consistir a felicidade. Ocorre que o amor não é uma operação do intelecto, mas da vontade. Logo, a felicidade reside, propriamente, antes na vontade do que no intelecto, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Na verdade, é o amor que deve nos mover. E, de fato, ao nos mover, o amor é mais forte do que qualquer outra capacidade. Mas ocorre que, para amar, devemos primeiro conhecer o que amamos, para que possamos nos mover até o objeto do nosso amor. Nãopodemos amar aquilo que não conhecemos, como ensina o próprio Santo Agostinho no Livro X da obra “Da Trindade”: só podemos amar aquilo que conhecemos. Assim, a graça nos atinge para que abramos nosso intelecto à fé, a fim de que a nossa vontade possa mover-se por amor. Eis o caminho da felicidade, no qual o intelecto tem precedência sobre a vontade

O quinto argumento objetor.

Segundo Santo Agostinho, feliz é aquela pessoa que tem tudo o que quer e não quer nada de mau. E acrescenta: “o caminho para a felicidade passa por querer bem tudo aquilo que se quer, porque as coisas boas levam à felicidade, e quem as possui já tem algo da felicidade: a própria boa vontade”. Assim, a felicidade consiste propriamente num ato de vontade, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

aquele que tem tudo o que quer, de fato, é feliz; mas não o é por causa do próprio ato da vontade, mas por outra coisa: porque não quer aquilo que é impróprio, indevido, que afasta de Deus. é neste sentido que Santo Agostinho dá a regra que é tantas vezes mal entendida: ama a faz o que quiseres. De fato, aquele que tem uma vontade boa é livre para ser feliz quando atinge o que quer, porque não quer nada que seja mau, que o afaste de Deus. É neste sentido que a vontade boa, que inclina para aquilo que a inteligência aponta como bom, adequado e justo, é caminho para a felicidade. Mas ela o é por ter como termo a verdade do bem que busca, e é essa verdade, discernida por uma inteligência prudente, que faz a vontade nos encaminhar pelo caminho da felicidade. 

  1. Concluindo.

Para o ser humano de boa vontade, seguir a própria inteligência decorre da virtude da prudência, e leva à conclusão de que a ética não é nenhum voluntarismo, nem nenhuma submissão a alguma lei que a fé impõe, ou que o Estado promulgue, ou mesmo que eu dê a mim mesmo. A felicidade é decorrência natural de querer e fazer o bem que a inteligência aponta como verdadeiro, e o verdadeiro bem está sempre em Deus. Neste sentido, a inteligência é pressuposto, e não obstáculo, à liberdade e à sua consequência natural, a felicidade.