1. Retomando.

A felicidade é o resultado de uma participação humana naquilo que é próprio de Deus. Podemos dizer que, em nós, a felicidade decorre de uma relação – a relação de conhecimento e amor a Deus. Mas nem tudo aquilo que se apresenta para nós como Deus, como divino ou como “espiritual” ou “transcendente” é capaz de nos dar felicidade. É por isso que a fé aperfeiçoa o intelecto, de tal modo que possamos discernir o verdadeiro Deus, a Trindade Santa, única capaz de ser fonte de felicidade para nós. Não se pode ser feliz senão conhecendo o Deus verdadeiro e amando-o. E é por isso que a felicidade tem por lugar natural o intelecto, antes que a vontade. 

Munidos destes princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles. 

  1. Os três primeiros argumentos objetores e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Segundo Agostinho, a felicidade plena consiste, em primeiro lugar, na paz para o ser humano. Isso é confirmado pelo Salmo 146-147, 14, que ensina que Deus estabelece a paz para o justo. Mas a paz, diz o argumento, é a vontade sem conflitos. Logo, a felicidade ocorre principalmente na vontade humana, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que a paz tem relação com a meta final do ser humano; ela própria não é, no entanto, a própria meta final. Existem muitas formas de paz que não são boas, que não se relacionam com a felicidade, mas com o medo e a opressão. Se a paz fosse, ela própria, o objetivo final do ser humano, seu preço poderia ser alto demais.

Assim, a verdadeira paz é pressuposto e consequência da felicidade; a paz é pressuposto no sentido de que o atingimento da felicidade envolve a resolução dos conflitos do coração, e sem resolvê-los não se é feliz. E é consequência no sentido de que, ao alcançar essa felicidade que decorre da santidade, da relação íntima e indestrutível com Deus, o coração curado e satisfeito repousa livre de transtornos e conflitos. 

O segundo argumento objetor.

A felicidade, como já vimos, é a meta plena, a perfeita conquista, o sumo bem do ser humano. Mas nós sabemos que a capacidade humana que se relaciona com o bem é a vontade. Assim, a felicidade é própria dessa capacidade humana chamada vontade, cujo objeto é o bem, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás é curta e muito profunda, e certamente muito difícil de entender para quem não conhece os pressupostos de sua filosofia.

Qual é o objeto da vontade? O objeto da vontade não é o próprio querer, mas aquilo que se quer. O objeto, aqui, é o conteúdo da vontade, e não a própria inclinação ao conteúdo.

Se, por exemplo, o estudante deseja a formatura, o objeto da vontade não pode ser o desejo da formatura, mas a própria conclusão do curso, que se consuma ao formar-se. Se o objeto da vontade do estudante fosse a vontade de se formar, e não a própria conclusão do curso, então ele estaria eternamente condenado a ser estudante, a desejar se formar, sem nunca se formar, porque, ao se formar e concluir o curso, sua vontade já não pode se dirigir à formatura já consumada. 

De modo análogo, diz Tomás, o objeto da visão não é ver, mas ver alguma coisa. Quando vejo uma árvore, o objeto da minha visão é a árvore e não o fato de que eu a estou vendo.

Assim, a vontade de ser feliz, de buscar a felicidade como bem último, é, de fato, a inclinação mais forte da vontade, mas não é o objeto da vontade. O objeto da vontade de ser feliz é a própria felicidade, à qual a vontade nos inclina. Ela não pode, porém, consistir no desejo de ser feliz, na vontade de ser pleno, mas tem que consistir na própria felicidade, conteúdo dessa vontade. Como a árvore é conteúdo do ver, mas não é a visão, a felicidade é conteúdo do querer, mas não é a vontade, senão a participação consciente e deliberada, pela graça, na felicidade divina, pela relação estabelecida com Ele na fé, que aperfeiçoa nosso intelecto, conclui Tomás.

O terceiro argumento objetor.

O objetivo, o fim, pertence àquilo que nos move em primeiro lugar a ele. Assim, por exemplo, o exército se move em busca da vitória na guerra; mas quem organiza, dirige e mobiliza o exército à guerra em primeiro lugar, diz o argumento, é o general, ao qual, portanto, cabe ser louvado e desfrutar dos louros da vitória. 

Com relação ao nosso ser, sabemos que a vontade é o nosso “general”, é aquilo que nos move em primeiro lugar ao nosso fim último, que é ser feliz. Se não temos vontade de felicidade, nem sequer nos moveríamos do lugar – aquela situação patológica que, hoje em dia, chamamos de “depressão”. 

Ora, se a vontade é o que primeiro nos move à felicidade, então ela é aquela que deve ser louvada e desfrutar da felicidade, quando esta é alcançada. Logo, a felicidade pertence propriamente à vontade, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

A vontade só pode nos mover para aquilo que a inteligência identificou, antes, como bom.  Então é preciso que a inteligência aprenda e possa discernir o que é bom, de tal modo que a vontade possa eleger e mover-nos em busca daquilo que a inteligência apreendeu. Assim, de fato, o que nos move em primeiro lugar é a vontade, mas ela nos move para aquilo que, antes, está na inteligência. Eis porque a inteligência é o lugar próprio da felicidade, mas a vontade é o lugar próprio da decisão, da busca, da eleição e, finalmente, do gozo da felicidade em Deus. 

  1. Encerrando por enquanto.

É preciso saber viver, diz a velha canção. É preciso saber onde está a felicidade para poder querê-la, buscá-la e gozá-la. A fé nos revela a felicidade, enriquecendo nosso intelecto; a esperança anima nossa vontade de buscá-la. 

No próximo texto estudaremos as duas últimas respostas aos argumentos iniciais.