1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, a hipótese de que a vontade é aquela capacidade humana em que a felicidade reside de modo próprio, ou seja, a vontade seria o verdadeiro sujeito da felicidade. Vimos cinco argumentos iniciais que tentavam comprovar esta hipótese: o primeiro lembra que a felicidade, segundo Santo Agostinho, consiste na paz, e a paz é a reta ordenação da vontade; assim, a felicidade seria algo da vontade. O segundo argumento lembra que a felicidade é o sumo bem – mas o bem, como sabemos, é objeto da vontade; logo, a felicidade é algo próprio da vontade humana. O terceiro argumento lembra que aquilo que dá o primeiro impulso (a vontade de ganhar o campeonato, de vencer a guerra) também define o objetivo final. Mas esse primeiro pontapé para nosso movimento é sempre algo da vontade, portanto o nosso objetivo final, que é a felicidade, também seria objeto da vontade. O quarto argumento lembra que, segundo 1Coríntios 13, 13, aquilo que subsiste no final é o amor; mas o amor é algo da vontade, então a felicidade é objeto da vontade. Por fim, o quinto argumento lembra que, para Santo Agostinho, a felicidade é própria de quem tem tudo o que deseja, e não deseja nada de mau. Mas desejar é próprio da vontade, então a felicidade, conclui o argumento, é objeto próprio da vontade. 

Para encerrar os termos do debate, o argumento contrário lembra que, em João 17, 3, o próprio Jesus afirma que a vida eterna, que é a vida plenamente feliz, consiste em conhecer o único Deus verdadeiro. Ora, conhecer é algo próprio do intelecto, não da vontade. Assim, diz o argumento, a felicidade deve ser algo do intelecto. 

Vamos examinar, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Somos felizes por inteiro, mas precisamos saber como.

Tomás nos dará uma resposta muito interessante, na qual ele consegue sintetizar a participação do intelecto e da vontade na nossa felicidade. De fato, se somos felizes, é o nosso ser que é feliz, não nossas faculdades apenas – não podemos conceber que alguém fosse intelectualmente feliz, mas tivesse uma vontade inquieta, desordenada, ou os sentidos desorientados e insatisfeitos. Mas é  importantíssimo saber qual capacidade se relaciona diretamente com a felicidade, e quais capacidades colhem apenas seus efeitos

A felicidade não pode ser ato próprio da vontade.

A felicidade, diz Tomás, não pode estar diretamente relacionada com a vontade; a vontade não pode ser o sujeito, o lugar próprio da felicidade em nós, embora, é claro, esteja diretamente relacionada com ela. 

De fato, diz Tomás, existem dois modos pelos quais alguma capacidade nossa, seja a inteligência, seja a vontade, sejam os sentidos do corpo, pode participar da felicidade: de modo direto, próprio, essencial, como o lugar em nós em que a felicidade é atingida, ou de modo consequente, derivado, resultante do fato de que a felicidade foi atingida. 

Ora, prossegue Tomás, a felicidade não pode ser um ato próprio da vontade. De fato, como já vimos em vários textos anteriores, a felicidade consiste em atingir o nosso fim último, nossa meta final. E esse fim último não é um ato da vontade, nem pode sê-lo.

De fato, é próprio da vontade nos inclinar a buscar objetivos, e nos fazer descansar quando atingimos o objetivo, desfrutando dele. 

Portanto, é próprio da vontade nos mover a buscar um objetivo que, no momento mesmo em que a vontade nos move, está ausente em nós. Quando atingimos o objetivo para o qual a vontade nos impulsiona, ela nos leva a desfrutá-lo. O desejo do fim, quer dizer, a vontade, portanto, não é o próprio fim, mas um impulso para buscá-lo. 

De fato, o desfrute do fim só ocorre quando o objetivo da vontade é conquistado. Não é, pois, a vontade do fim, mas a presença do fim, que leva ao desfrute. Portanto, a vontade não se confunde com o seu objetivo final. E o objetivo final não pode ser simplesmente o fato de que a vontade tenha, por objeto, alcançá-lo

Isso parece muito óbvio quando tomamos algum exemplo concreto. Vamos imaginar alguém muito ambicioso por dinheiro. O fato de que a vontade do ambicioso o impulsiona a lutar para ganhar dinheiro não se confunde com o dinheiro. Por mais ambicioso que alguém seja, por mais empenhado que esteja em ganhar dinheiro, o dinheiro mesmo é algo para além de sua vontade, e ele não se faz presente simplesmente por querê-lo. Querer ter um milhão de dólares é diferente de efetivamente ter um milhão de dólares. Se alguém deseja ardentemente, por exemplo, um carro muito luxuoso, primeiro ele precisa adquirir o automóvel, e só depois poderá usufruir dele, digamos, fazendo um belo passeio pela cidade em seu carro novo. O objeto do desejo e seu desfrute depende de obter efetivamente a coisa, que não é, como vemos nestes exemplos, simplesmente objeto da vontade, mas alguma coisa real, efetiva, da vida. 

A posse de Deus se dá quando entramos em relação com ele, conhecendo-o e amando-o espiritualmente.

Assim, diz Tomás, o conhecimento de Deus (compreendido aqui não como um conhecimento teórico, filosófico ou abstrato), quando se dá como relação efetiva com Ele, se dá, em primeiro lugar, em nossa inteligência: é preciso conhecer Deus de algum modo para amá-lo, pois ninguém ama aquilo que não conhece

Deste modo, a felicidade é objeto próprio do nosso intelecto, em primeiro lugar, porque é ali que podemos descobrir Deus, conhecê-lo, estabelecer relação com Ele, para poder participar de Sua felicidade completa. Deste modo, a felicidade é, antes de mais nada, um ato intelectual, de conhecimento de Deus, que leva ao amor de relação com Ele e, assim, à felicidade. 

A inteligência, pela graça, conhece Deus na fé, e a vontade nos une a ele e desfruta da alegria.

Mas é a vontade, movida pela graça da fé (que aperfeiçoa nosso intelecto) que nos move a essa relação, nos faz assentir com esse amor e nos leva a reconhecer sua presença e desfrutar dele. Deste modo, embora a felicidade tenha como sujeito, propriamente, a inteligência (que nos faz, pela graça, reconhecer e assentir ao Deus verdadeiro, único portador da felicidade), é a vontade que nos move a ele e nos faz repousar nele e desfrutar de seu amor – e assim podemos dizer, com Santo Agostinho, que é a vontade que desfruta da alegria plena da felicidade, porque a alegria é o desfrute da verdade reconhecida, conhecida e amada. 

  1. Encerrando por enquanto.

Não adianta querer intensamente encontrar a felicidade se não se sabe onde procurá-la. Falsos deuses, falsas religiões, falsas promessas de plenitude sempre abundam no mundo. Mas Deus se dá a conhecer pela fé e, pela graça, nos permite amá-lo. Eis a felicidade. No próximo texto começaremos a examinar as respostas de Tomás, a partir destes princípios, aos argumentos objetores iniciais.