1. Introdução.

Cada tempo tem seus próprios desvios. No nosso tempo, certamente tendemos a um voluntarismo: felicidade não seria um conhecer, mas um querer, uma vontade que pode desejar tudo, abranger tudo, dominar tudo. Uma vontade em expansão, poderosa, ilimitada. Esta seria a visão do ser humano livre e, portanto, feliz. Mas está equivocada, como Tomás nos demonstrará.

Pode, de fato, a felicidade consistir numa vontade ilimitada, que pode tudo, que domina tudo? É o que debateremos neste artigo. 

  1. A hipótese provocadora inicial.

A hipótese inicial, que é proposta para iniciar e provocar o debate, propõe que a felicidade consiste num ato da vontade humana, que se expande para abranger tudo e finalmente alcança a totalidade do que deseja. Em suma, a felicidade é o sujeito da felicidade, é aquela faculdade humana que alcançará e gozará da plenitude, segundo esta hipótese. Há cinco argumentos iniciais, que tentarão comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Segundo a Cidade de Deus, de Santo Agostinho, a felicidade consiste na paz. De fato, a Bíblia ensina que o Senhor é quem nos estabelece a paz (Salmo 146-147, 14). Ora, a paz é um estado de ordenação das vontades, diz o argumento.  Logo, a felicidade é algo, acima de tudo, a ser estabelecido na vontade humana, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Já sabemos, porque já vimos em outros textos, que a felicidade é definida como o sumo bem. Ora, o bem é objeto da vontade, como a verdade é objeto da inteligência. Assim, a felicidade, sendo o bem por excelência, está relacionada essencialmente com a vontade, e é pela vontade que somos felizes, conclui apressadamente este argumento. 

O terceiro argumento.

Aquilo que dá o primeiro impulso para qualquer atividade é aquilo que corresponde ao objetivo final do movimento dessa atividade. Por exemplo, quando um exército entra numa guerra, o primeiro impulso é sempre o impulso de vencer a guerra, porque, se não houvesse esse objetivo, a guerra seria apenas um suicídio. Outro exemplo: quando alguém inicia uma viagem, o primeiro impulso é chegar ao destino final. 

Ora, continua o argumento, a primeira faculdade humana a nos mover, em qualquer atividade que entramos, é sempre a vontade, da qual surgem os atos propriamente humanos. Assim, se o nosso objetivo final é a felicidade, e nosso movimento inicial é dado pela vontade, então devemos concluir que a felicidade se relaciona essencialmente com a vontade humana, conclui, sem maiores reflexões, este argumento. 

O quarto argumento objetor.

Já vimos que a felicidade é dinâmica; ela é uma operação, e não um repouso ou um estado estático. Mas, se a felicidade é o que há de mais elevado no ser humano, ela tem que ser o amor de Deus em nós – já que nada é mais elevado do que o amor de Deus, já nos ensina São Paulo no seu belo Hino ao Amor de 1 Coríntios 13, 13 – a maior coisa que subsiste é o amor de Deus. Mas o amor é uma operação da vontade, que se inclina ao bem do outro. Logo, a felicidade é relacionada essencialmente com a vontade, conclui, sem maiores reflexões, este argumento. 

O quinto argumento objetor.

Ainda segundo Santo Agostinho, no Tratado sobre a Trindade, feliz de verdade é aquele que tem tudo o que deseja, e não deseja nada de mal. E o santo prossegue a sua lição, ensinando que caminha para ser feliz aquele que quer adequadamente tudo aquilo que deseja, porque são as coisas boas que fazem alguém feliz, e aquele que deseja adequadamente já tem algo da felicidade, ou seja, a própria vontade reta. Ora, a julgar por este ensinamento, a felicidade é essencialmente algo da vontade, conclui o argumento, apressadamente.

  1. O argumento que se opõe à hipótese inicial.

O argumento contrário à hipótese inicial (chamado tecnicamente de argumento sed contra) lembra que é Jesus mesmo que, nas Escrituras, nos ensina: “a vida eterna consiste em que conheçam a ti, Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste”. Logo, a felicidade consiste num conhecer, não simplesmente num querer. E conhecer é algo que se relaciona à inteligência, e não à vontade. Assim, a felicidade, segundo o argumento sed contra, é essencialmente uma atividade do intelecto, e não da vontade.

  1. Encerrando por enquanto.

Se é verdade que a felicidade se dá em nós por uma relação com Deus – que é a própria felicidade, da qual somos chamados a participar – então parece evidente que ela deve nos envolver completamente – inteligência, vontade, corpo, alma, sensibilidade, tudo. Não é de pouca importância, porém, saber qual das nossas faculdades está mais profundamente envolvida, de modo fundamental, no atingimento da felicidade. É o que veremos em nosso próximo texto.