- Retomando para concluir.
A felicidade plena, aquela de que gozam os santos, envolve os sentidos, tanto antecedentemente (os sentidos são o meio de contato com o mundo, que nos permite conhecê-lo, aprender, e, em última instância, nos conduz a Deus), e consequentemente (há um prazer também físico na felicidade, que se manifesta de maneira plena no corpo espiritual da ressurreição). Mas a felicidade não é algum tipo de hedonismo, que envolva prazeres corporais – disso nos dão testemunho os mártires, os santos e o próprio Jesus, que sofreu no corpo as dores da injustiça para entrar na sua glória – que também será a nossa – sem deixar de ser feliz nem por um momento.
Mas somos seres espirituais e corporais, e o seremos até a eternidade. Eis porque nossa felicidade é diferente daquela dos anjos – que é estritamente espiritual. Nossa felicidade tem uma dimensão corporal inafastável. Ainda que a morte, que é verdadeiramente algo mau, não possa impedir que continuemos em relação com Deus – e portanto felizes. Os malvados, aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma, não podem alterar a felicidade dos santos (Mt 10, 28).
Com esses princípios em mente, vamos voltar aos argumentos iniciais para estudar a resposta que Tomás nos apresenta.
- Os argumentos iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor inicial.
O primeiro argumento nos lembra que a nossa sensibilidade, a operação dos órgãos dos sentidos e mesmo dos sentidos internos, é a operação mais elevada que temos em nossa vida biológica, porque mesmo a atividade intelectual (que é mais elevada do que a sensorial) precisa dela para se desenvolver – ninguém pode aprender sem algum tipo de contato sensorial com o mundo externo. Assim, diz o argumento, a felicidade tem que envolver também os nossos sentidos, conclui.
A resposta de Tomás.
De fato, a operação dos nossos sentidos é algo pressuposto para o nosso desenvolvimento espiritual. E por isso podemos dizer que não há felicidade sem que haja algum tipo de operação de nossos sentidos. Por isso, a felicidade que adquirimos nesta vida, sempre limitada e imperfeita, pressupõe os sentidos e sua operação. Mas isso não significa que a felicidade seja algum tipo de hedonismo, de busca dos prazeres sensoriais. Na verdade, muitas vezes a vida dos santos é repleta de desprazeres físicos que elevam sua alma espiritual à verdadeira felicidade, que é a relação íntima com Deus. Por isso precisamos entender bem a ideia de que a felicidade, como realidade espiritual, depende dos nossos sentidos para entrar em relação com Deus.
Acrescentando um pensamento à resposta de Tomás, podemos dizer que a própria noção de “sacramento”, como realidade sensível, concreta, material, que significa e realiza a graça eficaz, mostra como a sensibilidade corporal está envolvida na construção de uma relação com Deus. Eis a importância dos sacramentos em nossa vida, como caminho de felicidade.
O segundo argumento objetor.
Segundo Boécio, a felicidade é o estado perfeito pela reunião de todos os bens. Ora, existem muitos bens materiais, que são obtidos pela nossa operação corporal e pelos nossos sentidos. Logo, nossos sentidos são necessários e estão inteiramente relacionados com a nossa felicidade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A felicidade perfeita dos anjos reúne todos os bens, porque eles estão em perfeita união espiritual com Deus, que é a fonte de todos os bens, espirituais e materiais. Por isso, os anjos não precisam dos bens criados para que a sua felicidade seja perfeita, instantânea, completa e imutável. Mas nós, seres humanos, principalmente nesta vida, precisamos realmente entrar em relação com o mundo, por nossos sentidos, para que possamos atingir a relação com Deus que nos dá felicidade. Portanto, a felicidade humana não dispensa a relação corporal com os bens singulares criados do universo, nem nesta vida, nem depois da ressurreição final. Mas não consiste neles.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade é o bem perfeito, o objetivo final do ser humano. Mas isto nunca seria atingido se incluíssemos o desenvolvimento do ser humano integral, por todas as suas dimensões. E algumas dessas dimensões são corporais, biológicas, sensoriais. Assim, a felicidade deve necessariamente envolver o corpo e sua sensibilidade biológica, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Na felicidade perfeita, com a ressurreição dos corpos, o ser humano atinge a sua plenitude: naquele estado, é a perfeição da alma, no gozo da santidade em Deus, que determina a perfeição do corpo ressuscitado, capaz de gozar plenamente da sua dimensão material. quer dizer: a felicidade dos sentidos, da sensibilidade, é consequência da felicidade espiritual, na ressurreição.
Mas nesta vida a felicidade imperfeita, transitória, passageira, que vivemos, pressupõe algum nível de sensibilidade corporal, já que não nos é possível, nesta vida, estabelecer nenhuma relação, nem mesmo com Deus, sem usar o corpo e suas capacidades sensoriais para estabelecer relações daí a visibilidade dos sacramentos, da própria Igreja e de Jesus, realmente encarnado para nossa salvação. Assim, aqui nesta vida, as capacidades sensoriais do nosso corpo são pressuposto da nossa felicidade.
- Concluindo.
A Igreja visível, a encarnação de Jesus, os Sacramentos da Igreja, tudo isso ocorre justamente porque a nossa dimensão corporal é necessária como pressuposto, nesta vida, para aquele que é o único caminho de felicidade: a relação com Deus, em Jesus. Na vida eterna, com a ressurreição, é a alma santa que determinará a alegria também material que viveremos em eterna e plena comunhão com a Trindade santa.
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