- Retomando.
Qual a parte das sensações corporais na situação da felicidade? Eis uma questão tormentosa. Se, por um lado, parece ser uma ideia muito difundida aquela de que a felicidade se confunde com o prazer, e este se manifesta como sensações físicas de deleite, por outro lado a ideia de uma felicidade eterna – que decorre da esperança como virtude teologal – não pode deixar de considerar que, no período após a morte e antes do juízo final os santos devem gozar sua felicidade de modo incorpóreo, estritamente espiritual. Assim, o problema da corporeidade não é um problema pequeno, quando se debate a felicidade.
É esta a questão que se debate agora. Vimos, no texto anterior, a hipótese de que a felicidade, no fundo, se manifesta necessariamente como deleite corpóreo, que se pode desfrutar pelos órgãos dos sentidos. Vimos os três argumentos que tentavam comprovar esta hipótese: o primeiro argumento lembra que até mesmo a nossa inteligência só pode aprender e se enriquecer por meio dos órgãos dos sentidos e suas operações, o segundo argumento lembra que a felicidade não pode excluir os deleites vinculados à sensibilidade material, e o terceiro argumento lembra que a felicidade, sendo plena, não pode excluir a saciedade dos anseios sensoriais do ser humano.
O argumento contrário à hipótese inicial nos diz que as capacidades sensoriais, como o tato, a visão, o olfato e assim por diante, são compartilhadas por nós e pelos animais não-humanos. Mas a nossa felicidade, a nossa plenitude, a nossa saciedade, não é partilhada com os animais, que não possuem potencial para entrar em relação reflexiva com Deus. Logo, diz o argumento, aquilo que partilhamos com os animais – a sensibilidade corporal biológica – não pode participar da felicidade humana.
Colocados assim os elementos do debate, passaremos a examinar a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás diz, logo no início de sua resposta, que existem três maneiras pelas quais algum elemento pode se relacionar com a felicidade: ou 1) ela faz parte da própria felicidade, de modo a manter com ela uma relação essencial, ou 2) ela é algo que antecede a felicidade, ou é 3) uma consequência dela.
Ora, os sentidos do ser humano são capacidades corpóreas que nos habilitam a estabelecer relações com o mundo criado, com o mundo material à nossa volta. Mas nós já sabemos, porque estudamos nos debates da questão 2 desta parte I-II, que a felicidade, como plenitude final do ser humano, não pode estar no mundo material, porque consiste numa relação de amizade e união com Deus. Unir-se a Deus, entrar em relação íntima com ele, é o fim último do ser humano, e a única coisa que pode trazer a felicidade no sentido próprio. Mas Deus não é material nem pode ser alcançado pelas capacidades dos nossos sentidos. Então nossos sentidos não fazem propriamente parte daquilo que nos deixa felizes em sentido pleno. Eles não participam essencialmente de nossa felicidade.
Mas os nossos sentidos podem se relacionar com a felicidade como pressupostos dela (ou seja, de modo antecedente à felicidade), ou como consequência dela.
A relação antecedente dos sentidos corpóreos com a felicidade humana
Como antecedente da felicidade, nossos sentidos permitem que a nossa inteligência conheça o mundo e, a partir das coisas criadas, por analogia (Livro da Sabedoria 13, 1-5; Carta aos Romanos, 1, 19-20), podemos intuir a existência de Deus e podemos nos abrir à graça para iniciar uma relação com o Senhor. É este, inclusive, a razão da nossa vida sacramental: uma vez que nós podemos entrar em relação intelectualmente com alguma realidade espiritual apenas por meio das realidades materiais, Deus nos deu o regime sacramental para que alguma realidade material seja sinal visível e eficaz da graça de Deus para nós, nesta vida biológica que levamos. Precisamos, pois, do nosso corpo, dos seus sentidos, para receber a graça e entrar em relação com Deus, de maneira, no entanto, ainda incompleta e imperfeita nesta vida. É deste modo que os sentidos são pressupostos da felicidade.
A relação intrínseca ou essencial dos sentidos corpóreos com a felicidade humana
Por outro lado, quando entramos na glória – ao morrermos em estado de graça – podemos alcançar a plenitude da felicidade, mesmo desprovidos temporariamente do nosso corpo. Isto porque a nossa alma espiritual, quando morremos em amizade com Deus, pode unir-se a Ele e gozar da bem-aventurança completa e eterna decorrente desta união. É neste sentido que Jesus diz ao bom ladrão na cruz: “ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Esta bem-aventurança, na condição de santidade, e antecedente ao Juízo Final, não necessita do corpo nem o envolve, porque a situação dos santos é, ainda, a de espera do Juízo Final universal e da ressurreição dos corpos. É neste sentido que Tomás diz que a felicidade não é algo intrinsecamente dependente dos sentidos corpóreos.
A relação consequente dos sentidos corpóreos com a felicidade humana
Ocorre que nosso destino, após o juízo final, é a ressurreição dos corpos, como rezamos no Credo Niceno-Constantinopolitano. Portanto os santos, que estão em perfeita união com Deus e já gozam da felicidade plena e eterna decorrente desta união, também terão, por consequência, a saciedade dos prazeres sensoriais, decorrentes do desfrute da bem-aventurança. Estamos, aqui, no campo dos mistérios, já que não sabemos, senão muito indiretamente, como será a realidade da ressurreição dos corpos (1Cor 2, 9). Certamente, a vida plena implicará também a plenitude das alegrias corporais.
- Concluindo.
Somos seres corporais. Nosso corpo participa da nossa felicidade completa, quer como meio para que cheguemos à amizade com Deus, quer, depois da ressurreição, como templos da bem-aventurança eterna. Mas não podemos deixar de acrescentar que, já neste mundo, a felicidade corporal pode acompanhar uma vida de busca da santidade em comunhão sacramental com Deus. Ninguém pode esquecer do preço que o pecado cobra, também em destruição corporal. E não é à toa que as palavras “santidade” e “sanidade”, ou “saúde”, têm a mesma raiz. Mas, como comprovam os mártires e os santos que foram pessoas com deficiência, ou mesmo foram mutildos por aqueles que odeiam o Evangelho, as dores ou limitações corporais não impedem nem limitam a busca da felicidade.
Deixe um comentário