- Introdução.
Não somos anjos. Somos seres humanos. Isto significa que somos seres essencialmente biológicos, corporais, sensíveis. Dotados de órgãos dos sentidos, capazes de interação biológica com o ambiente. E os estímulos sensoriais, como sabemos, podem ser prazerosos ou desprazerosos.
A questão, aqui, é saber: será que a felicidade consiste também em estímulos prazerosos, ou seja, será que ela envolve a sensibilidade material, os prazeres sensoriais?
Vamos ao debate.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial, que visa provocar o debate, propõe, de maneira um tanto exagerada, que a felicidade consiste justamente no gozo permanente e eterno de prazeres sensoriais, destinados a agradar os sentidos corporais. Em suma, a felicidade consistiria em prazeres corporais, sensuais, físicos, a serem desfrutados pelos sentidos do corpo. Há três argumentos que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento quer comprovar a hipótese inicial lembrando que a capacidade sensorial biológica é a capacidade mais elevada do ser humano, abaixo apenas da própria capacidade intelectual; mas a própria capacidade intelectual não pode ser exercida sem o uso das potências sensoriais, quer dizer, sem os órgãos dos sentidos. Para aprender intelectualmente, precisamos usar os órgãos dos sentidos, porque não pode existir alguma coisa em nosso intelecto que não tenha passado por nossos sentidos em primeiro lugar. A aprendizagem, a intelecção, depende da obtenção de dados sensíveis por nossos sentidos, de modo a formar aquilo que a filosofia chama de “fantasma”, isto é, conjunto mental organizado dos dados sensoriais. Portanto, não haveria possibilidade de que a felicidade fosse gozada pelo nosso intelecto sem que os sentidos estivessem envolvidos. Portanto, a felicidade humana é algo que diz respeito aos sentidos do corpo humano, conclui este argumento.
O segundo argumento objetor.
Este argumento nos lembra que Boécio define a felicidade como “o estado perfeito, alcançado pela reunião de todos os bens”. Mas, como sabemos, muitos bens são bens que somente podemos gozar por meios sensoriais: ninguém pode negar quanto prazer existe em saborear uma bela refeição quando se está com fome, ou contemplar um belo pôr-do-sol, ou ainda receber ou fazer um carinho numa pessoa amada. Ora, se a felicidade envolve todos os bens, e, desses, muitos são bens sensoriais, então a felicidade envolve sempre e necessariamente as sensações corpóreas, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Se a felicidade é, como diz Aristóteles, a plenitude, então não pode existir felicidade sem que o ser humano a desfrute plenamente. Mas a plenitude humana envolve também o corpo. Logo, não pode haver felicidade que não envolva também o corpo humano, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra nos lembra que esse estado de plenitude de posse do bem e da verdade, que é a felicidade humana, pressupõe a existência de uma dimensão de inteligência e de vontade na criatura, que os animais não-humanos não têm. Mas as capacidades sensoriais que temos são compartilhadas por eles, inclusive de modo ainda mais intenso – se levarmos em conta que alguns animais têm sentidos mais apurados que os nossos. Ora, se a felicidade envolvesse sempre e necessariamente a dimensão sensorial, então os animais poderiam, de algum modo, compartilhar da felicidade propriamente humana, o que não é verdade. Logo, a felicidade humana nunca inclui nada da nossa dimensão sensorial, corporal, conclui este argumento, em contraposição à hipótese inicial.
Mas, em contrário. — A atividade sensitiva nos é comum com os animais. Ora, comum não é a beatitude. Logo, esta não consiste na operação sensitiva.
5. Encerrando por enquanto.
Não podemos esquecer de que somos seres compostos de alma espiritual e corpo material. E esta não é uma condição provisória: de fato, na ressurreição, voltamos a ser corporais – embora não de um corpo biológico, mas sim de um corpo espiritual. O que nos devolve a questão de saber se este corpo, na felicidade eterna, também gozará de prazeres físicos.
Por outro lado, se a felicidade é algo que sempre e necessariamente envolve o corpo e seus deleites, teríamos que admitir que os santos que já morreram não serão felizes até que ocorra o juízo final e a ressurreição.
Agora o nosso debate está devidamente colocado – vimos a hipótese inicial e os argumentos a favor e contra ela. Prosseguiremos o debate nos próximos textos.
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