- Retomando para encerrar.
A felicidade poderia ser descrita como um dinamismo, em nós, que resulta de uma relação vital com Deus. Essa relação não exclui as outras, mas é o sentido, a orientação, a finalidade pela qual todas as outras existem. orientar, portanto, todas as nossas relações para Deus, eis a felicidade do ser humano.
Munidos desses princípios, vamos aprofundar nos três últimos argumentos objetores, estudando as respostas de Tomás a eles.
- Os últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás.
O quarto argumento objetor.
O quarto objetor lembra que a felicidade é algo que envolve estabilidade, permanência. Mas todas as nossas operações, todo o nosso dinamismo, é caracterizado pela transitoriedade, isto é, nosso coração não permanece num estado só, mas alterna atividades e repouso, tristezas e alegrias. Ora, as ações do ser humano não são estáveis, mas passageiras e transitórias. E não podemos dizer que breves estados de alegria, alternados com tristeza e inação, podem representar a felicidade. Logo, a felicidade não pode ser atividade em nós.
A resposta de Tomás.
Tomás dá uma resposta longa e profunda a este argumento, que merece ser acompanhada com atenção.
Ele começa nos lembrando que a felicidade é fim último, e por isso ela só pode ser atingida quando se alcança a perfeição, isto é, o pleno desenvolvimento de todas as potencialidades. Como a ave só pode voar depois que desenvolve seus músculos e suas plumas, só podemos ser felizes quando desenvolvemos nossas capacidades e virtudes. Mas o que é a felicidade, então? É algum tipo de desfrute de uma perfeição física e moral inatingível? Para que não cometamos o erro de pensar assim, Tomás vai examinar a felicidade tal como se encontra em Deus – que é feliz por natureza – e nos Santos Anjos, que gozam da máxima proximidade com Deus.
Em primeiro lugar, Deus é todo perfeição, plena capacidade, plena virtude, plena atividade. Nele, não há nada a ser completado, nada a ser atingido, nada a ser buscado fora de si mesmo, porque Deus se basta. Assim, a felicidade, em Deus, tem a mesma extensão do seu existir e do seu amor – ou seja, ele é feliz por si mesmo, de maneira completa e inesgotável. E, uma vez que, nele, seu amor tem a mesma extensão de seu ser e de seu poder, ele é a fonte única e perene de felicidade transbordante para a suas criaturas.
Quanto aos anjos, lembramos que a felicidade, neles, decorre de que seu ser, que é pura inteligência e vontade, tem a capacidade de se unir de modo imediato com Deus. A perfeição de sua inteligência e de sua vontade é alcançada quando tomam consciência de si mesmos e de Deus, e escolhem livremente entrar em relação com o Senhor. Com suas poderosas inteligências espirituais e sua vontade não limitada pela matéria, eles entram numa relação plena e definitiva com Deus, uma relação de amor com a fonte da felicidade mesma. É uma relação estável, perene e imutável, que decorre de uma decisão imutável e plena, que resulta numa relação única e permanente, interminável e inesgotável, com Deus. Neste sentido, os Santos Anjos atingem a felicidade plena imediatamente, quando optam, pela graça, por uma relação final e irrevogável com Deus – que os leva à perfeição.
No caso dos seres humanos, lembramos daquela afirmação famosa de Santo Agostinho: nosso coração tem um vazio infinito, que só pode ser preenchido pelo próprio Deus infinito. Mas, em nós, nesta vida, essa união é precária, instável, devido ao nosso estado decaído e à própria fragilidade de nossa inteligência e nossa vontade – sempre necessitadas de aperfeiçoamento. Aliás, o próprio Aristóteles (que não conheceu a redenção em Jesus, porque viveu alguns séculos antes dele) dizia, na Ética a Nicômaco, que a felicidade própria do ser humano é sempre imperfeita, incompleta, instável. Ao menos nesta vida, diz Tomás, já que o Apóstolo Mateus (22, 30) nos ensina que, na vida eterna, seremos como os anjos no céu, isto é, gozaremos da felicidade permanente.
Deste modo, na vida eterna essa caracterização da atividade humana como instabilidade e transitoriedade não se aplica. Ali, os santos se unem a Deus numa relação estável, perpétua e imutável, mas não por isso menos ativa e dinâmica. A perfeição consiste, pois, em nunca se desviar do bem, e essa condição é própria da vida eterna.
Na nossa condição humana atual, porém, podemos caminhar buscando a união mais perfeita com Deus – que é exatamente o projeto da vida sacramental. No entanto, são muitas as distrações que nos afastam Dele aqui. Neste sentido, a vida contemplativa, que tem seu centro na permanência diante de Deus, pode nos proporcionar mais estabilidade na felicidade do que a vida ativa, sempre sujeita a desvios e distrações. Mas, numa como na outra, teremos a alternância dessa união ativa com Deus e momentos de afastamento, como o pecado, o sono, a inconsciência ou as diversas distrações que nos ocorrem cotidianamente.
A quinta e a sexta objeções.
As objeções seguintes, a quinta e a sexta objeções, ficaram respondidas pela resposta anterior, diz Tomás. Lembramos que a quinta objeção dizia que a felicidade é uma só, mas as atividades humanas são muitas. Vimos, na resposta acima, que a nossa felicidade nesta vida está marcada por essa dispersão, e por isso é limitada, mas na vida eterna não será assim.
A sexta objeção diz que a felicidade tem que ser algo permanente, mas nenhuma atividade humana é permanente, porque nossas atividades são sempre fragmentárias e entremeadas por repouso, sono, doença e outras interrupções. Logo, a felicidade, diz a sexta objeção, não poderia ser uma atividade. Mas a resposta acima também enfrenta esta questão, com essa distinção entre a felicidade limitada e transitória desta vida e a felicidade completa da santidade na vida eterna.
- Concluindo.
Sim, a felicidade é uma atividade. Uma atividade imanente que decorre da união completa e definitiva com Deus – limitada nesta vida, permanente na vida eterna. É por isso que felicidade e santidade são, no fim das contas, sinônimos: felicidade é sanidade, isto é, santidade.
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