- Retomando mais uma vez.
O que é a felicidade em nós? Há uma grande tentação de dizer que ela é algum tipo de “estado” em que entramos quando contemplamos o Senhor, uma espécie de “nirvana” imóvel e inabalável, ou mesmo algum tipo de “arrebatamento” que nos tira do mundo. Mas, como vimos no texto anterior, a felicidade em nós pode ser muito melhor descrita como uma dinâmica, um movimento, uma atividade que decorre da plenitude alcançada. Ela é aquilo que Aristóteles chamava de “ato segundo”; o primeiro ato é existir, alcançar a plenitude da existência (que ocorre quando alcançamos a maturidade das nossas capacidades), e o segundo ato ocorre quando colocamos essas capacidades em uso. Assim, por exemplo, um leão adulto atinge a plenitude da sua capacidade de caça – ato primeiro – mas somente se realiza plenamente quando usa essa capacidade para buscar a presa, abatê-la e alimentar seu bando (ato segundo).
Deste modo, a felicidade é o ato segundo que decorre da efetividade da participação na felicidade divina, quando o ser humano entra em relação com Deus.
Colocados estes princípios básicos, vamos revisitar os argumentos objetores iniciais – que tentavam justamente negar que a felicidade fosse algum tipo de dinamismo, uma operação – e estudar as respostas que Tomás apresenta para elas. Estudaremos as três primeiras objeções (e suas respostas) neste texto. As três seguintes ficarão para o próximo texto.
- Os três primeiros argumentos objetores e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que as Escrituras ensinam (Rom 6, 22) que temos o nosso fruto na santificação, e por fim a vida eterna. Ora, a vida, não é uma operação, mas um modo de ser, o modo de existir daquilo que é vivo. Portanto, diz o argumento, a felicidade, como efeito emergente de uma relação de amizade com Deus, manifesta-se como um modo de existir, e não como uma operação ou atividade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Podemos falar de “vida” de duas maneiras. Num primeiro sentido, que é o sentido biológico, de fato a vida é o modo de existir dos seres vivos. Um animal que dorme, um ser humano que está em coma profundo, um urso hibernando, todos estes são exemplos de seres vivos, embora em estado de baixíssima atividade. Nesta acepção, a felicidade não é sinônimo de vida: muita gente está viva, no sentido biológico, mas leva uma existência vazia, patética, cheia de infelicidade e frustração. Somente em Deus é que a vida coincide com a felicidade: Deus é feliz em plenitude, e nele há perfeita coincidência entre ser, viver e ser feliz.
Mas há um outro sentido para vida: neste sentido, chamamos de vida justamente a operação do ser vivo – de tal modo que declaramos algum animal como morto justamente porque já não detectamos nenhuma atividade, nenhuma operação nele. É neste sentido que dizemos, por exemplo, que um médico ou um político levam uma vida ativa, enquanto um filósofo ou um pesquisador tendem mais a uma vida contemplativa. Neste último sentido, de vida como dinamismo, podemos seguramente afirmar que a busca da relação com Deus, para participar se Sua felicidade plena, é o fim último do ser humano, e essa atividade que decorre da amizade com Ele é exatamente o que chamamos de felicidade.
O segundo argumento objetor.
o segundo argumento cita Boécio, que declara que a felicidade é o estado perfeito no qual há a reunião de todos os bens. ora, prossegue o argumento, um estado é algo estático, e portanto não pode ser descrito como uma dinâmica ou operação. Disso o argumento conclui que a felicidade não é uma operação.
A resposta de Tomás.
Essa definição que Boécio dá, quando trata da felicidade, deve ser compreendida muito mais como uma descrição do que propriamente como uma definição. De fato, Boécio quer nos explicar que a felicidade é caracterizada pela saciedade, que é aquela situação em que a vontade, tendo se deparado com aquilo que é o bem perfeito, já não precisa desejar mais nada. Entrega-se inteiramente a desfrutar da perfeição do bem que alcançou, porque percebe que ele é o bem perfeito, que reúne em si tudo o que se pode chamar de bem. Neste sentido é que ele diz que a felicidade é aquele estado em que se repousa naquilo que é o bem pleno.
Mas a essência do bem, aquilo em que ele consiste, é justamente o efeito emergente desse encontro: de um lado, o ser humano que busca seu fim último (o próprio sentido que dá a razão, que unifica e orienta sua existência), e por outro o próprio Deus, bem pleno, que se abre ao ser humano e permite a este entrar em relação consigo, participar da felicidade que é própria de Deus. Neste último sentido, que não é simplesmente descritivo, mas propriamente essencial, Aristóteles ressalta o caráter dinâmico dessa relação – o que nos faz declarar que a felicidade não é simplesmente um estado, mas propriamente a dinâmica que resulta de uma relação.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento afirma que, uma vez que a felicidade é algo que efetivamente existe naquele que é feliz, não pode ser uma operação nem uma atividade. As atividades, diz o argumento, não são algo que existe naquele que atua, mas são algo que, embora se iniciando nele, direcionam-se ao seu exterior. Assim, por exemplo, a atividade do construtor se inicia nele, mas termina no prédio que construiu, ou a atividade do médico se inicia nele, mas termina no paciente atendido. Portanto, a felicidade não pode ser uma atividade, porque, neste caso, não teria seu termo no ser humano feliz, mas fora dele – o que teria, como consequência, ter que afirmar que a felicidade não é algo interno a quem é feliz, conclui o argumento
A resposta de Tomás.
Mais uma vez Tomás recorre às lições de Aristóteles. Para Aristóteles, existem dois tipos de movimento, ou seja, dois tipos de operação; aquele movimento que procede do agente mas tem seu termo fora dele. Por exemplo, quando um escultor entalha uma estátua. Este é o chamado movimento ou atividade transeunte. Ora, neste caso, a perfeição ocorre naquilo que é objeto da ação do outro – no caso do escultor, a perfeição se dá no mármore que é entalhado, não no próprio escultor. Este tipo de operação, portanto, não pode ser a tipo de operação a que nos referimos quando dizemos que a felicidade é uma operação.
Mas há um tipo de movimento ou atividade que é estritamente imanente. Os exemplos, aqui, seriam o movimento de aprender, de sentir, de contemplar, de amar. Neste caso, o movimento se inicia e termina no próprio agente: sou em que busco o conhecimento e o assimilo em mim, e no final do movimento de aprendizagem sou em quem passa a ser o conhecedor. O mesmo se pode dizer dos demais movimentos imanentes: sou eu quem ama, quem sente, quem contempla, quem reza. Todas estas atividades têm como termo a minha própria atualização, o meu próprio aperfeiçoamento, e portanto a felicidade pode constituir-se num movimento deste tipo.
- Encerrando por enquanto.
O estudo das respostas de Tomás aos argumentos iniciais é necessário para completar o debate e aprender sobre o tema debatido. Neste artigo, as respostas são primorosas, longas e bastante esclarecedoras. No próximo texto estudaremos as respostas às objeções de números 4, 5 e 6.
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