- Retomando.
O debate, aqui, diz respeito à própria vivência da felicidade em nós. Sendo a felicidade algo de que participamos, que tipo de realidade será ela em nós? A hipótese inicial é a de que ela não é uma dinâmica, alguma atividade, uma operação em nós; vimos seis argumentos que tentam mostrar que ela é algum outro tipo de realidade em nós, como um estado ou um modo de existir, mas não uma dinâmica, uma operação ou atividade nossa. O primeiro argumento diz que, uma vez que a Carta aos Romanos diz que a bem-aventurança é a vida eterna, então ela é um modo de ser, como a vida é o modo de ser dos seres animados em contraposição aos inanimados. O segundo argumento defende que ela é um “estado”, aquele estado perfeito no qual se fazem presentes todos os bens. Ou seja, traz uma concepção estática, e não dinâmica, do gozo da felicidade. Também nessa linha vão o terceiro e quarto argumento: a atividade, o dinamismo, é sempre algo voltado para o exterior, e a felicidade é algo interior, dizem esses argumentos. O quinto argumento diz que todas as nossas operações são parciais e fragmentadas, mas a felicidade deve ser a expressão de algo uno e inteiro. Por fim, o sexto argumento diz que nossas atividades são interrompidas por intervalos como o sono, o repouso e a doença, e a felicidade deve ser ininterrupta; logo, esses argumentos concluem que a felicidade não pode ser movimento, dinâmica, atividade, operação.
O argumento contrário traz Aristóteles, que logo no primeiro livro da Ética a Nicômaco descreve a felicidade como a operação da virtude plena. Logo, conclui este argumento, ela não é estática, mas dinâmica.
Colocados assim os termos do debate, passamos a examinar a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta de Tomás.
Como vimos nos textos que debateram o assunto do artigo anterior, a felicidade não está restrita a ser algo propriamente divino: ela pode ser criada em nós, por participação, quando Deus constrói uma relação conosco. Ora, esta relação é o nosso fim último, como dizia Santo Agostinho bem no início de suas Confissões: “Fizeste-nos para vós, senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em vós”. Ao entrar em relação com Deus, com o Deus verdadeiro, pai de Nosso Senhor, o ser humano descobre a única coisa que sacia todos os seus anseios por conhecimento e pelo bem. De fato, o coração do ser humano é insaciável, deseja sempre saber mais e ter mais, quer sempre maiores conhecimentos e maiores bens, porque não foi feito para se saciar com o conhecimento e o bem criado (embora deva também amá-los, respeitando sua natureza limitada), porque Deus é o bem infinito e a verdade plena.
Estabelecer uma relação com Deus leva-nos, pois, à plenitude de nosso potencial humano.
O que é a plenitude – ato primeiro e ato segundo.
Como nos ensina Aristóteles, a plenitude de algum ser consiste justamente em desenvolver seus potenciais, ou, como ele próprio dizia, atualizá-los, isto é, transformar em ato aquilo que é simples potência. Alguém que tem capacidade para aprender, por exemplo, possui inteligência em potencial. Está aberto ao conhecimento, mas ainda não o possui. Quando aprende, quando passa a conhecer, atualiza seu potencial, e sua inteligência, que antes estava em potência (digamos, para a matemática), passa a estar em ato. Já não ignora a matemática, mas está atualizado nesse conhecimento. Este é, como nos ensina o Filósofo, o “primeiro ato” – aquele que resulta de sair da mera potência à atualização da capacidade.
Mas essa primeira atualização ainda não é a plenitude da capacidade. Quando alguém, digamos, não sabe dirigir, aprender a dirigir leva-o da mera potência para ser um motorista ao ato de efetivamente dirigir. Mas somente quando ele efetivamente utiliza essa capacidade agora atualizada é que ele atinge a perfeição como motorista. Quando ele passa a se locomover com o automóvel, seja para prestar algum serviço de transporte, seja para chegar mais rápido e de modo mais eficiente em seu destino, é que ele alcança a plenitude do ato de dirigir. Essa é o chamado ato segundo: a atividade que decorre de possuir aquela capacidade já desenvolvida. Um atleta que aprende a nadar atinge sua plenitude quando efetivamente participa de competições e se faz competitivo. Um matemático só atinge sua perfeição quando passa a utilizar suas capacidades de cálculo para resolver problemas efetivos. Ter um talento e guardá-lo não basta. É preciso sempre efetivamente desenvolver aquela atividade, aquelas dinâmicas que efetivamente façam utilizar o talento adquirido. Um leão que desenvolveu enormes capacidades de caça (ato primeiro) certamente morrerá de fome se não sair para caçar (ato segundo). É neste sentido que Tomás nos diz que somente o “ato segundo” nos torna verdadeiramente plenos.
E na nossa relação com Deus?
Aplicando essa linha de raciocínio à nossa relação com Deus, podemos dizer que não basta eventualmente vir a conhecê-lo, a reconhecê-lo e até a amá-lo, permanecendo, no entanto, passivos perante ele. Conhecê-lo e amá-lo é um ato primeiro, e nos leva da potencialidade de ser filhos de Deus ao ato de efetivamente sê-lo. Mas somente a dinâmica que se instala efetivamente, quando passamos a entrar em relação com Ele, é que constitui a nossa felicidade. Neste sentido, a felicidade não é um simples estado, não é um simples modo de ser, mas é verdadeiramente uma dinâmica: a operação que consiste em viver com Deus, a atividade que consiste em se deixar transformar por ele, a aventura de deixá-lo preencher completamente o vazio infinito de nosso coração – um vazio que é infinito justamente porque foi predeterminado a ser preenchido pela “infinitude dinâmica” que é o próprio Deus.
- Encerrando por enquanto.
A felicidade é uma dinâmica: a dinâmica de viver uma relação com Deus. Não é à toa que os estudiosos nos apontam o fato de que a palavra grega dynamis, ou dunamis, se apresenta mais de uma centena de vezes no Novo Testamento, sempre relacionada à atividade de Deus – notadamente no Espírito Santo. A felicidade não pode ser estática. Mas também, como veremos no próximo texto, não é uma frenética agitação que se projeta para fora de nós mesmos. Mais uma vez, lembramos de Santo Agostinho; em suas Confissões (Livro III, cap. 6) e na sua oração após a conversão,ele expressa o seu lamento tardio porque tentou sempre encontrar Deus nas coisas exteriores, e somente num momento tardio da vida descobriu que Deus se deixa encontrar apenas no interior de seu próprio coração, no mais íntimo de nós mesmos.
No próximo texto começaremos a ver as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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