- Introdução.
Vimos, nos textos anteriores, que a felicidade é algo que se cria em nós quando entramos em relação com Deus, que é a própria felicidade. Mas que coisa seria essa? A felicidade é um estado, ou seria uma qualidade? Seria um modo de ser ou seria uma inatividade? Muitos parecem pensar que a felicidade é não ter mais compromissos, não ter que fazer nada e passar o dia todo na indolência ou na indiferença; outros, ainda, acham que ela está relacionada à situação permanente de ter prazer, de encher-se de dopamina (para usar a linguagem atual), de receber estímulos positivos o tempo todo. Ou será que a felicidade é uma atividade, uma dinâmica na qual nos envolvemos? Vamos ao debate.
- A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, que quer provocar o debate, propõe que a felicidade humana não é um tipo de atividade. A felicidade, para esta proposta, não é dinâmica, não é uma operação nossa de algum tipo. Este artigo, que fará uma discussão profunda, tem seis argumentos iniciais que tentam se opor às opiniões contrárias a esta hipótese, para tentar comprová-la.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento diz que, de acordo com a Carta aos Romanos, 6,22, entrar em relação com Deus “traz como fruto a santificação, e por fim a vida eterna”. Ora, se o fim é a vida eterna, então a felicidade se manifesta em nós como vida. Mas a vida mesma não é uma atividade: ela é um modo de ser, é o próprio modo de existir daquilo que é vivo – tanto é assim que muitos seres vivos nem sequer são ativos, ou não o são o tempo todo, sem que, por isso, deixem de estar vivos. Então a felicidade, como fim último do ser humano, não é uma atividade, mas um modo de existir.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que Boécio ensinava: a felicidade é o estado perfeito no qual se fazem presentes todos os bens. Ora, a palavra “estado”, utilizada aí, significa uma situação, não uma atividade. Logo, a felicidade não é uma atividade, mas um certo estado de ser.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade é a consumação do aperfeiçoamento do ser humano. Nosso desenvolvimento pessoal deve atingir seu ápice com o atingimento da felicidade. Logo, a felicidade deve ser algo que passa a existir no próprio ser humano que se desenvolve plenamente, de modo que podemos dizer: eis ali uma pessoa feliz. Mas o dinamismo dessa pessoa, sua atividade, é alguma coisa que procede dela, mas não fica nela: dirige-se ao exterior. Logo, a felicidade deve ser descrita como um estado dessa pessoa, não como uma atividade sua, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
A felicidade é algo interno na pessoa que é feliz. Ela é imanente a ele, no sentido de que é algo que se encontra nele mesmo, um estado de ser em seu coração, no seu interior. Mas a atividade é sempre alguma coisa que se dirige para fora dele, que transita dele para alguma outra coisa. É neste sentido que os antigos chamavam a operação dos seres de “transeunte”, quer dizer, de movimento que começa nele mas transita para fora dele. Logo, a felicidade não pode ser uma operação da pessoa, conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
A felicidade é algo indiviso. Ela é una, completa, no sentido de que nos atinge por inteiro. Mas as nossas atividades são sempre múltiplas, concretas, parciais. Logo, a felicidade não pode ser uma atividade, conclui o argumento.
O sexto argumento objetor.
A felicidade é gozada por quem é feliz; e só é feliz de verdade quem desfruta de uma felicidade ininterrupta. Ora, nenhum ser humano está em permanente atividade: temos momentos de repouso, de sono e até de doenças incapacitantes e traumas que tiram a consciência. Logo, a felicidade não pode ser uma atividade, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento contrário à hipótese inicial vai citar ninguém menos do que Aristóteles, que, na sua Ética a Nicômaco, nos ensina que a definição de felicidade é aquela atividade da alma que se adequa à virtude completa (Ética a Nicômaco, I, 12, 1102a 5-6). Portanto, a felicidade, segundo ninguém menos do que O Filósofo, é uma atividade, mais do que um estado ou uma condição.
- Encerrando por enquanto.
Segundo o filósofo Byung Chul-Han, vivemos hoje a sociedade do cansaço, caracterizada justamente pela atividade frenética e pela incapacidade de parar e contemplar. Pode parecer, pois, inconveniente dizer que a felicidade é algum tipo de operação ou atividade. Seria mais simpático dizer que ela é justamente o contrário: a cessação da atividade, o repouso, um estado de suspensão da agitação. E talvez isso seja verdade – e talvez o que os antigos (Tomás inclusive) entendem por atividade ou operação seja um tanto diferente daquilo que entendemos hoje. Veremos mais sobre isto nos próximos textos.
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