1. Retomando para concluir.

Deus é nosso fim último; só Nele podemos ser felizes, porque, no fim das contas, só Ele é feliz, e a felicidade que almejamos é a participação na felicidade que é propriamente Dele. Mas o que significa que Deus é nosso último fim?

Vimos a resposta de Tomás: dizer que Deus é fim último tem duas acepções fundamentais: significa que ele é o objeto do nosso desejo mais fundamental, e significa que precisamos, antes de tudo, estabelecer algum tipo de relação com ele. Esta relação é algo que de fato nos modifica, que cria algo em nós: cria a felicidade, ainda de modo precário nesta vida, e de modo pleno na vida de santidade da eternidade. Eis o que Tomás nos ensinou na sua resposta sintetizadora.

De posse desses princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, para acompanhar as respostas que Tomás nos apresenta sobre eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita a “Consolação da Filosofia”, obra de Boécio, para afirmar que Deus é a própria felicidade”. Logo, a felicidade é algo exclusivamente da esfera divina, conclui este argumento. 

A resposta de Tomás.

É verdade que Deus é, de modo próprio, substancial e essencial, a própria felicidade. Não é que simplesmente ele seja feliz, como algo que se acrescenta ao que ele é. Ele é, essencialmente, felicidade plena, completude total, perfeição maravilhosa e perfeito contentamento consigo mesmo. Mas os seres humanos podem chegar a ser felizes, quando entram em relação com Deus e participam da felicidade divina. É o que nos ensina o mesmo Boécio, nessa mesma obra, um pouco adiante. Aquilo que, em Deus, é essência, em nós é participação, é relação com Deus; é nesse sentido que a Segunda Carta de São Pedro, 1, 4, diz que nos tornamos participantes da natureza divina: essa participação não é algo que temos por natureza, mas é algo que se cria em nós, quando entramos em relação com Deus. Portanto, a felicidade humana é algo do reino criatural – é algo criado

O segundo argumento objetor.

A felicidade é o próprio bem, em seu sentido de completude, de plenitude, de totalidade. Só a plenitude do bem pode ser o fim último que traz a felicidade. Mas o bem pleno, total, só pode ser uno, e portanto só pode ser o próprio Deus. Logo, a felicidade é estritamente divina, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A felicidade é a nossa meta plena, nosso objetivo final, que não exclui nenhum dos objetivos parciais que enriquecem a nossa vida, mas dão sentido a eles, unificando nossa caminhada na busca da felicidade. Uma vez que Deus mesmo é a felicidade, nossa meta final é entrar em relação com ele, para poder participar daquilo que originalmente é Dele, mas que podemos desfrutar ao entrar em relação com ele.  

O terceiro argumento objetor.

A felicidade é o fim último, insiste o argumento; ou, como diz Santo Agostinho, “fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti”. Portanto, nossa vontade, compreendida como o direcionamento integral do nosso ser pleno (coração), não deve se inclinar a nada senão a Deus, porque a felicidade é dele e de ninguém mais. Logo, a felicidade é algo estritamente de Deus, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Já vimos, na resposta sintetizadora, estudada no texto anterior a este, que a felicidade é chamada de meta final, fim supremo, no sentido de que o objeto dessa busca é o próprio Deus. Mas o objetivo não é simplesmente buscar Deus para saber que Ele existe, para saber alguma coisa sobre Ele, mas para usufruir de uma relação existencial com Ele, participando, então, da felicidade. 

  1. Concluindo.

Neste artigo, Tomás introduz o tema da divinização, que é referido na Bíblia em 2 Pd 1, 4: ao entrar, pela graça, em relação com Deus, participamos, por dom Dele, da Sua natureza – e portanto da sua felicidade. Aquilo que, em Deus, é próprio e essencial, é completo e pleno, em nós é um efeito emergente de uma relação com Ele. Isto é, devemos buscar que toda a nossa vida seja uma busca de amizade e resposta ativa ao chamado que Deus nos faz, de entrar em relação conosco. Nossa relação com Deus é, portanto, o único caminho para ser feliz.