- Retomando.
Vimos, no texto anterior, a hipótese de que a felicidade seria algo exclusivamente da esfera do divino, e portanto fora do alcance dos mortais como nós. Esta hipótese foi sustentada por três argumentos iniciais: o primeiro argumento lembra que Boécio ensinou que “Deus é a própria felicidade”. O segundo argumento lembra que “felicidade” é sinônimo do “bem completo”, e apenas Deus é o bem completo. E, por fim, o terceiro argumento lembra que a felicidade é o anseio fundamental do coração humano; ora, segundo Agostinho, nosso anseio maior é o próprio Deus, de quem ele diz: “fizeste-nos para vós, Senhor, e nosso coração não tem repouso se não descansa em vós”.
O argumento contrário à hipótese inicial lembra que há um processo pelo qual vamos nos tornando felizes; ora, nada do que é processual, gradual, construído, pode ser divino, porque em Deus não há processos, mas plenitude. Logo, a felicidade não pode ser um atributo exclusivamente divino, conclui este argumento.
Colocados os termos do debate, vamos estudar a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta de Tomás.
Tomás, mais uma vez, nos lembra que essa noção de “fim” ou “meta” tem dois significados:
!) Pode significar aquela coisa mesmo que buscamos – como a meta do pescador é o peixe, ou a meta do avarento é o dinheiro.
2) Pode significar também o gozo, desfrute ou uso da coisa almejada. Neste último caso, o pescador pode querer o peixe para, por exemplo, alimentar-se, ou para vendê-lo e obter renda para a sua família.
Ora, já vimos na questão 02, nos textos em que debatemos onde está a felicidade humana, que a nossa felicidade não pode estar em outro lugar senão em Deus – que é o único capaz de nos conceder o bem completo e o conhecimento pleno. Essas duas coisas são o objeto mesmo de nossa busca. Nada nos satisfaria se não consistisse em todo o bem e toda a verdade. Nossa inteligência busca o conhecimento pleno, e portanto não pode se aquietar enquanto não o obtiver. Nossa vontade busca o bem completo, e não repousará enquanto não o obtiver. Ambos, a verdade plena e o bem completo, estão apenas em Deus.Logo, no primeiro sentido de “fim” (ou seja, no sentido de “coisa buscada”), nossa felicidade, nosso fim último, está em Deus e apenas em Deus. Neste primeiro sentido, podemos dizer que a felicidade está, de fato, na esfera das coisas divinas.
Mas existe um segundo sentido para a noção de meta final, ou fim último. É aquela noção que diz respeito ao modo como nos relacionamos com aquela coisa que desejamos obter. Neste sentido, a felicidade é algo que se faz em nós, quando entramos em relação com Deus. Ao entrar em relação com Deus, ao desfrutar de seu amor infinito, ao gozar de seus dons maravilhosos, tornamo-nos, já nesta vida e mais plenamente na vida eterna, pessoas felizes. Essa felicidade nasce em nós, cresce em nós, cria-se em nós. É, verdadeiramente, portanto, algo da esfera criatural, algo realmente deste mundo, no sentido de que é algo que nasce em nós, cresce em nós e é vivida por nós.
- Encerrando por enquanto.
Portanto, como objeto de nosso desejo, a felicidade está em Deus, é de Deus e não pode ser encontrada em nenhum outro lugar.
Mas, quando se trata daquela felicidade que atingimos, que podemos realmente alcançar e desfrutar, trata-se de algo que é criado em nós quando entramos em relação com Deus.
Veremos mais sobre isto nos próximos textos.
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