1. Introdução.

Se, na questão anterior, fomos confrontados com o debate a respeito de onde, em que bem, está a felicidade, agora debateremos em que ela consiste exatamente. Digamos que, na questão anterior, estávamos debatendo valores – qual o valor supremo, qual o sentido último da vida do ser humano, aquele fim que, uma vez atingido, deixaria nossa vontade satisfeita a ponto de já não precisar desejar mais nada, porque já possui o bem absoluto e a verdade completa. Vimos que este bem deve ter alguma coisa a ver com Deus, no sentido de que não existe nada, no ser humano ou ao redor dele, capaz de preencher a vontade desse modo e nos satisfazer completamente. 

O enfoque, agora, é mais, diríamos, interior, psicológico mesmo. Não se trata mais de saber onde está a felicidade, mas trata-se de saber o que ela é. Será algum estado de espírito, alguma emoção especial, alguma sensação de intenso prazer, ou será aquela postura estoica de indiferença frente a todas as paixões, estímulos e emoções? Será que a felicidade é um gozo personalíssimo ou, ao invés, é uma dissolução do ego no todo de Deus? Como podemos ver, a discussão é profunda e interessante. Vamos a ela.

  1. A hipótese controvertida inicial. 

A hipótese inicial, que visa provocar o debate, propõe que a felicidade não é uma dimensão do mundo criado, do qual nós fazemos parte. Na verdade, o que essa hipótese propõe é um pessimismo criatural: se existe uma condição de felicidade, ela não pertence a este nosso vale de lágrimas do universo das criaturas, mas pertence apenas a Deus. assim, a hipótese inicial, que será profundamente debatida, é a de que a felicidade é uma dimensão do divino, e não alguma dimensão existente no plano das criaturas. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor. 

O primeiro argumento objetor, para comprovar a hipótese de que a felicidade é algo próprio de Deus e não das criaturas, cita Boécio, o grande filósofo dos primeiros séculos do cristianismo, que afirma, em sua obra “Consolação da Filosofia”: “é preciso reafirmar que Deus é a própria felicidade”. Logo, a felicidade pertence a Deus apenas, e não se encontra em nenhuma parte do reino das criaturas, conclui apressadamente o argumento.  

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra com firmeza que a felicidade é o próprio bem, isto é, felicidade e bem completo são sinônimos. Mas ser o bem completo, ser o sumo bem sem qualquer falha, é próprio somente de Deus. Logo, uma vez que não existem vários sumos bens, mas apenas um, que é o próprio Deus, então a felicidade é, na verdade, o próprio Deus, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Vimos, na questão anterior, que a felicidade é aquilo pelo qual anseia naturalmente o coração humano. Ora, nosso coração não deve ter nenhum anseio maior do que o anseio por Deus, diz o argumento, lembrando que Santo Agostinho nos ensina que nosso coração foi feito para Deus e não encontra repouso senão Nele. Assim, a felicidade não é outra coisa senão o próprio Deus, conclui o argumento. 

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

O argumento contrário à hipótese inicial, chamado de argumento sed contra, afirma que a felicidade é algo que se faz, já que o próprio Agostinho nos ensina, em uma de suas obras, que devemos desfrutar daquilo que nos faz felizes. Portanto, a felicidade não é simplesmente algo da esfera do divino, mas deve ser algo do mundo das criaturas, conclui o argumento. 

  1. Encerrando por enquanto.

A ideia de que os deuses são felizes existe em muitas culturas e desde a mais remota antiguidade. Mas a ideia de que, de algum modo, nós podemos desfrutar, em algum grau e aqui mesmo neste mundo, dessa felicidade, é também algo comum a muitas culturas. A perda desta ideia pode nos levar a uma era de tristeza, pessimismo e, no fim, à generalização da depressão. Recuperar a felicidade como algo da dimensão humana é, portanto, essencial! Veremos mais sobre isto no próximo texto.