- Retomando para concluir.
Como dizíamos, é a própria inteligência humana que sinaliza para o fato de que nenhum bem criado é capaz de preencher o vazio do nosso coração. Temos sede de infinito, de amor infinito, de conhecimento e verdade infinitas, de tal modo que mesmo o ser humano mais famoso, mais rico ou poderoso não ficaria satisfeito em suas ambições, mesmo que controlasse todo o universo. Somente um bem infinito, somente a verdade infinita nos faria aquietar o coração.
Vimos tudo isto no último texto. Agora vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, para verificar as respostas de Tomás a cada um deles.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra a velha noção de “hierarquia no ser”, pela qual os seres mais complexos de um degrau inferior encontram sua perfeição ems erem os mais próximos daqueles do degrau superior a eles. Assim, seres inanimados muito complexos exibem características quase de seres vivos, vegetais muito complexos exibem certos comportamentos quase de animais e assim por diante. Logo, diz o argumento, o ser humano deve buscar sua felicidade em se aproximar dos anjos, em ser parecido com eles, em entrar em relação com eles, em atingi-los de algum modo, diz o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato,as características mais elevadas dos seres humanos aproximam-se muito das características próprias dos anjos, como a capacidade de inteligir, de refletir e de querer por uma vontade racional. Mas nem por isso o objetivo final dos seres humanos, que os plenifica, consiste em entrar em relação com os anjos e se aproximar deles. Há mesmo, como sabemos, uma certa tendência, em algumas correntes filosóficas e religiosas, a colocar os anjos como objeto de adoração e culto – é o caso das religiões de natureza gnóstica. Nosso objetivo último, porém, é a busca do bem infinito e perfeito, que ultrapassa o bem dos anjos – que são criaturas elevadíssimas, mas ainda assim são criaturas.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que a perfeição da criação está em seu todo, do qual somos apenas uma pequena parte. Assim, para sermos completos, sugere o argumento, devemos nos diluir no todo universal, de tal modo que nosso “mundo menor”, que é nosso ego, seja dissolvido e absorvido pelo “mundo maior” do universo. Assim, o bem completo do ser humano seria dissolver-se no todo da criação, diz imprudentemente o argumento.
A resposta de Tomás.
Esse argumento antecipa certas tendências new age de nosso tempo, que pregam um panteísmo imanente – dissolver o ego na totalidade do universo criado, tornar-se um com as “forças cósmicas”, isto seria, para essa “espiritualidade”, o grande objetivo do ser humano. Ocorre que, embora de fato o ser humano seja apenas uma parte do todo que é a criação, esta só tem sentido porque aponta para Deus, e encontra Nele seu bem completo. De fato, a criação, mesmo considerando a grandeza majestosa do universo inteiro, é ainda imperfeita, ainda a caminho, de tal modo que o fim de todo o universo, como o fim de cada ser humano, é encaminhar-se para a perfeição que está em Deus.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que o desejo de felicidade, que é o desejo de aperfeiçoamento, de saciedade da vontade no bem, é um desejo natural no ser humano. Não é algo infundido nele sobrenaturalmente, nem algum dom extraordinário de Deus. Logo, aquilo que satisfaz esse desejo deve estar no campo das coisas naturais, e não das coisas sobrenaturais. Logo, é no plano da imanência, das coisas criadas, que devemos buscar nossa felicidade, conclui impensadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Por um lado, é verdade que a nossa capacidade natural não excede alcançar os bens naturais, isto é, não somos capazes de, por nossas próprias forças, alcançar bens sobrenaturais, de tal modo que, por nossa própria conta, apenas podemos alcançar os bens naturais que desejamos. Mas isto não significa que nosso desejo se limite a querer os bens naturais; somos capazes de intuir que há bens que ultrapassam os limites do imanente, e somos capazes de desejar esses bens – o amor pleno, o conhecimento da verdade completa, a vida eterna e realizada, tudo isso integra aquilo que todos os seres humanos desejam naturalmente. Mas estes são bens que ultrapassam o campo das coisas naturais. Por outro lado, mesmo o conjunto do universo criado, ou seja, todo o cosmos, e mesmo os anjos mais elevados, não ultrapassam o campo daquilo que é, por natureza, finito, limitado e incapaz de satisfazer nossos desejos mais profundos.
- Concluindo.
Em outras palavras, desejamos o infinito, mas, por nossas próprias forças, somos capazes de alcançar apenas bens finitos. Se não houvesse, pois, Deus e seu infinito amor por nós, e a graça que nos é concedida por ele, seríamos os mais infelizes dos seres.
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