1. Retomando.

O que seria aquilo, aquele bem, aquela coisa buscada, que nos satisfaria plenamente, que nos preencheria por completo, que nos aperfeiçoaria a existência até a plenitude? 

A hipótese debatida aqui é que este bem, que nos satisfaria por completo e nos deixaria plenamente felizes, é algo ainda da vida imanente, ou seja, algo que se encontra no universo criado, e que se apresenta para nós como um bem a ser perseguido e conquistado. Três argumentos tentam comprovar essa hipótese: 

  1. o primeiro diz que a perfeição máxima de um ser está sempre no degrau imediatamente superior da hierarquia. Assim, um ser inanimado muito complexo quase toca o degrau dos seres vivos – é o caso de algumas proteínas que se comportam com reações quase animadas. Um vegetal muito complexo pode se assemelhar em muitos sentidos a um animal; um animal muito complexo quase parece ter a inteligência própria dos seres espirituais. Assim, no caso dos seres humanos, as criaturas que estão imediatamente acima de nós na cadeia dos seres são os anjos; logo, a nossa felicidade consiste simplesmente em nos assemelhamos e entrarmos em relação com os anjos, conclui irrefletidamente este argumento. 
  2. O segundo argumento diz que cada indivíduo está para a totalidade do universo como a parte está para o todo. Nossa felicidade consistiria, então, em nos diluirmos no todo do universo, para que o nosso “mundo menor” pessoal se integre no “mundo maior” da totalidade da criação, alega o argumento, um tanto panteisticamente.
  3. O terceiro argumento diz que o anseio pela felicidade é algo natural em todos os seres humanos, e por isso não pode ter por objeto alguma coisa sobrenatural. Logo, nossa felicidade deve ser algum bem imanente ao nosso universo criatural, conclui este argumento.

Lembramos que o argumento contrário à hipótese inicial traz uma citação de Santo Agostinho, que ensina que nossa felicidade está em Deus.

Colocados assim os termos do debate, vamos examinar a síntese de Tomás, para descobrir como ele responde a esta grave questão.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Não podemos alcançar a felicidade apenas com os bens imanentes, pertencentes ao universo das coisas criadas, diz Tomás. A felicidade somente seria alcançada se obtivéssemos algum bem que nos saciasse em todos os aspectos, que fosse capaz de satisfazer simultaneamente todas as nossas inclinações, vontade, aspirações, de tal modo que nossa inteligência não pudesse conceber nenhum outro bem a ser desejado, e nossa vontade não precisasse almejar mais nada. Se, mesmo depois de alcançar determinado bem, ainda formos capazes de conceber um outro bem mais desejável, ou nossa vontade se inclinasse a outra coisa, esse bem alcançado já não seria o bem último, o fim perfeito para nossa vida.

Ocorre que nossa vontade está aberta ao bem infinito, a almejar aquilo que é bem de modo absoluto, e não apenas aos bens particulares e limitados. Assim como nossa inteligência não se detém no concreto e limitado, mas se abre à relação com aquilo que não tem condicionamentos – nossa mente se abre ao conhecimento sem limites, ou, como diziam os mais velhos, “conhecimento não ocupa espaço”, de tal modo que nossa mente está aberta à verdade sem barreiras ou condições. em outras palavras, nossa inteligência busca a verdade absoluta, como nossa vontade busca o bem absoluto. 

Por isso, mesmo que conseguíssemos aprender todas as coisas que estão no universo imanente, ainda assim estaríamos insatisfeitos e gostaríamos de saber mais. Mesmo que alcançássemos todos os bens criados, ainda assim não repousaríamos na satisfação. Sabemos que mesmo pessoas riquíssimas, poderosíssimas ou estudadíssimas experimentaram a tristeza, a depressão, a frustração e até o desespero, porque não conseguiram satisfazer seus anseios. 

Portanto, apenas se alcançássemos a verdade universal e o bem universal é que poderíamos aquietar nossa mente e nosso coração. 

Mas a verdade universal e o bem universal não são características de nenhum bem criado, mas apenas do próprio Deus. Todas as coisas criadas, mesmo o universo em seu conjunto, são limitados em sua inteligibilidade e em sua bondade. Apenas Deus é pleno, neste sentido. É por isso que o Salmo 103(102), 5, nos diz: “É o Senhor que sacia de bens a tua vida”.

Portanto, somente Deus pode nos saciar plenamente, somente nele está a felicidade do ser humano, ensina Tomás.

3. Encerrando.

Buscamos a felicidade em muitos lugares. Mas temos a intuição de que, mesmo se possuíssemos todo o universo criado, mesmo se entrássemos em relação com os anjos, mesmo se nos tornássemos pessoas cheias de ciência e sabedoria humana, ainda assim não estaríamos satisfeitos. De fato, como diz a bela canção de Djavan, “nem que eu bebesse o mar encheria o que eu tenho de fundo”. De certo modo, essa é a expressão poética da famosa frase de Santo Agostinho no início das suas “Confissões”: fizeste-nos para vós, Senhor, e nosso coração permanece inquieto enquanto não repousa em vós”. 

Não estamos, ainda, no campo da religião. Estamos numa busca que envolve a exploração do ser humano, para chegar à conclusão de que, antropologicamente, estamos constituídos de tal modo que apenas o Absolutamente Bom e Absolutamente Inteligível poderia nos saciar a mente e o coração. Esta é uma conclusão a que chegamos apenas pelo exame do próprio ser humano. 

No próximo texto, veremos as respostas com as quais Tomás enfrenta os argumentos objetores iniciais.