1. Introdução.

Eis um artigo que trata de um assunto que, embora de interesse permanente, tornou-se ainda mais importante em nossos tempos do que nos tempos de Tomás. De fato, nossa época, majoritariamente, crê que a felicidade humana, a realização plena do ser humano, está aqui, no mundo imanente, no mundo criado, entre os bens criados (incluídos, aqui, os próprios bens imateriais criados, como o poder, a honra e a fama, ou até a relação com as criaturas puramente espirituais, que são, elas também, criaturas). Navegamos, em nossa contemporaneidade, entre duas posições: uma crença firme de que a felicidade é um assunto estritamente imanente, por um lado – e os que pensam assim podem até ser pessoas crentes em Deus, mas exercem, conscientemente ou não, alguma espécie de deísmo, ou seja, aquela crença de que Deus é bom, mas a relação entre ele e nós, entre ele e o mundo criado, é acidental – e os que, tomados de algum grau de niilismo, creem que o ser humano jamais alcançará algum tipo de completude, realização ou felicidade, e por isso devemos nos resignar à infelicidade cotidiana como um fardo, ou um fado, que devemos aceitar e festejar. Estes últimos parecem mesmo acreditar que a busca da felicidade é uma ilusão imatura, e que a sabedoria mais profunda consiste em aceitar a falta de sentido da vida humana. Nada poderia ser mais distante da teologia de Tomás.

Assim, após examinar os bens em geral, o artigo nos propõe debater justamente isto: será que o ser humano se satisfaz, será que ele pode se completar vivendo uma vida estritamente imanente, ainda que esta vida inclua algum tipo de espiritualidade genérica e vaga, visando apenas os bens que não ultrapassam o círculo da realidade criatural? Eis o debate agora colocado. Vamos a ele. 

  1. A hipótese controvertida inicial. 

A hipótese que é proposta ao debate, aqui, é a de que a plenitude do ser humano pode ser atingida aqui mesmo, no plano das coisas criadas, pela busca de algum bem criado. De fato, já sabemos que o bem que satisfaz o ser humano, que o plenifica e o faz feliz completamente, embora seja alguma coisa que ele alcança e desfruta em sua alma espiritual, não é algo que está nele mesmo. Assim, a hipótese propõe que esse bem, a ser alcançado pelo ser humano, capaz de preenchê-lo completamente e satisfazer todas as suas inclinações, vontades e desejos, é algo que se encontra no terreno da imanência, no reino das criaturas. Existem três argumentos objetores iniciais que tentam justificar essa hipótese. 

  1. Os argumentos objetores iniciais. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra um velho ensinamento do Pseudo-Dionísio que foi central no pensamento medieval: o conceito rígido de “hierarquia do ser”. Por esse conceito, cada degrau da hierarquia do ser existe de tal modo que a parte superior do degrau anterior se toca com a parte inferior do degrau posterior. Vamos dar exemplos para que isso fique mais claro: as coisas inanimadas, como os minerais, organizam-se de tal modo que as coisas inanimadas mais complexas, como, por exemplo, uma bacia hidrográfica, seja organizada de tal maneira que se assemelha a um ser vivo: um rio “nasce”, é capaz de “correr”, tem “afluentes” e até “morre” quando chega à foz. Do mesmo modo, os vegetais mais complexos, como as plantas carnívoras, assemelham-se muito aos animais, e os animais superiores apresentam comportamentos quase similares aos dos seres inteligentes como nós. Essa hierarquia, como acreditavam os antigos, parece indicar que a perfeição dos seres inferiores consiste em se aproximar cada vez mais dos seres imediatamente superiores na escala hierárquica dos seres. 

Se é assim, o maior bem que pode ocorrer a um ser humano é se aproximar dos anjos, que são o degrau imediatamente superior ao dos humanos na escala dos seres. A busca de uma “espiritualidade’ que torne os humanos menos “materiais” e mais “angelicais” seria, pois, a verdadeira realização para os seres humanos, e portanto a felicidade seria assemelhar-se cada vez mais aos anjos, conclui o argumento.  

O segundo argumento objetor.

Qual o objetivo final pelo qual alguma coisa existe? Esse objetivo, que é o sentido pelo qual alguma coisa existe, é a sua perfeição, a sua consumação. Imaginemos um escultor: quando ele vê a pedra bruta e começa a esculpir, seu objetivo final, a meta, o sentido do seu trabalho é que a pedra inteira se transforme numa bela escultura, digamos, de Juscelino Kubitschek ou de Santos Dumont. Assim, cada parte desse trabalho, cada ferramenta, cada martelada na pedra, cada milímetro da pedra, tudo isso encontra sua perfeição em ser uma parte do trabalho concluído, em ser uma parte da estátua. Isto é, cada parte encontra seu sentido no todo.

Ora, prossegue o argumento, cada ser humano é uma parte do universo criado. A totalidade do universo pode ser chamada de “mundo maior”, e nesse mundo maior se insere cada ser humano, que pode ser chamado de “mundo menor”. Deste modo, a felicidade completa do ser humano consiste em ser absorvido pela totalidade dos seres, diluindo-se e tornando-se parte desse universo que é o todo. Nisso consiste, diz o argumento, a plenitude da felicidade humana.

O terceiro argumento objetor.

Diferentemente da fé em algum ser sobrenatural – que é algo que varia na espécie humana, sendo certo que algumas pessoas creem em Deus, outras creem em deuses, outras são ateias – o desejo de felicidade é algo inerentemente natural a todos os seres humanos. Assim, o desejo de felicidade não pode ter por objeto alguma realidade sobrenatural, porque as realidades sobrenaturais, por definição, superam a própria capacidade natural humana – e isso significa dizer que o desejo natural de felicidade não teria um objeto adequado. Portanto, o objeto do desejo de felicidade não pode ser uma realidade sobrenatural, mas deve ser algo dentro do mundo imanente das criaturas, conclui o argumento. 

  1. O argumento contrário.

O argumento que se opõe à hipótese inicial resgata o pensamento de Santo Agostinho. De fato, na obra “Cidade de Deus”, Agostinho nos ensina que a nossa vida está localizada em nossa alma, porque é ela que anima, que vivifica o corpo. De forma analógica, diz Agostinho, a nossa felicidade está localizada em Deus, porque é nele que se esconde nossa completa satisfação, nossa plenitude. Isto se confirma nas Escrituras: feliz o povo cujo Deus é o Senhor. Assim, nossa felicidade não está na esfera do universo criaturas, mas apenas em Deus, conclui o argumento.

  1. Encerrando por enquanto.

Dois comentários: 1. O debate aqui não se coloca ainda no campo da fé; de fato, há argumentos filosóficos suficientes para perceber que o ser humano não conseguiria plena satisfação e repouso, mesmo que dominasse todo o universo e se elevasse às alturas angelicais, porque apenas o bem absoluto nos satisfaria completamente. 2. O tema é atualíssimo. De fato, na contemporaneidade, o fato de que a filosofia pode perceber que apenas Deus poderia nos satisfazer, e fechada por princípio ao reconhecimento de Deus, acabou nos conduzindo ao niilismo: nada há que nos possa satisfazer, então – creem os niilistas – somos condenados à insatisfação e à infelicidade… eis porque esse debate é necessário!