- Retomando para concluir.
A felicidade é, sem sombra de dúvida, um bem da alma, ou seja, é um júbilo espiritual. Isso explica, inclusive, o motivo pelo qual algumas pessoas cultivam tão esmeradamente o próprio corpo, dando-se alimentação de primeira qualidade, tendo todo o conforto e saúde possíveis e vestindo-se como um lírio do campo e mesmo assim são pessoas profundamente não realizadas e infelizes, ao tempo que muitos são castigados, privados de confortos e mesmo da própria saúde e, ainda assim, são pessoas felizes.
Mas, embora seja uma realidade espiritual em nós, a felicidade não consiste em cultivar a própria alma como um fim em si mesma. É preciso olhar para fora, para aquilo que está além de nós, que guarda nossa realização, nossa perfeição, e pode nos conduzir à plenitude. A felicidade, poderíamos dizer, é uma relação da nossa alma espiritual com o Espírito Santo de Deus.
Fortes nessa constatação, vamos voltar aos argumentos objetores iniciais, para estudar as respostas que Tomás dá a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que a felicidade é algo do próprio ser humano: cada um busca ser feliz em si mesmo, e não em outra coisa. Mas há apenas três dimensões em que podemos buscar, no ser humano, a felicidade: nos bens que nos são externos, mas atraem nossa vontade; nos bens do corpo e nos bens da alma. Mas já vimos, nos textos anteriores, que a felicidade não pode estar nem nos bens externos, nem nos bens do corpo. Logo, a felicidade consiste, necessariamente, em buscar a plenitude dos bens da alma, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De certo modo, esse argumento é válido, mas deve ser bem compreendido. De fato, tudo aquilo que pode atrair nossa vontade, que pode nos levar à perfeição e à felicidade, deve estar numa dessas três dimensões: aquilo que está fora de nós e atrai nossa vontade (riquezas, fama, prestígio, poder, etc.), aquilo que está em nosso corpo e atrai nossa vontade (saúde, beleza física, prazeres corpóreos, etc.), e finalmente aquilo que está em nossa alma e atrai nossa vontade (conhecimento, virtudes, contemplações, êxtases, etc.). Ora, mesmo aquilo que nos deleita em nossa própria alma, como as contemplações e os êxtases, na maioria das vezes tem seu objeto fora da alma (por exemplo, posso entrar num êxtase espiritual contemplando uma bela paisagem). Neste sentido, a felicidade é um bem da alma (e nesse sentido o argumento está correto) que tem seu objeto fora dela (e neste sentido o argumento é incompleto). .
O segundo argumento objetor.
Quando desejamos algo de bom a alguém, a quem amamos mais? à pessoa a quem desejamos o bem ou ao bem que desejamos a ela? A pergunta só pode ter uma resposta: amamos mais a pessoa a quem desejamos alguém bem do que aos bens que desejamos a ela. Assim, quando desejamos, por exemplo, que alguém tenha sucesso financeiro, amamos mais essa pessoa do que ao dinheiro que desejamos que ela obtenha.
Ora, todos nós desejamos para nós mesmos todos os bens: dinheiro, sucesso, prestígio, honra, poder, saúde, enfim, queremos sempre tudo o que consideramos bom para nós mesmos. MAs, seguindo a mesma lógica daquela pergunta inicial, isto significa que amamos mais a nós mesmos do que a todos os bens que podemos desejar para nós.
Ora, a felicidade é, sem dúvida, aquilo que amamos mais do que qualquer outra coisa, e que desejamos em primeiro lugar para nós mesmos, porque todas as outras coisas são desejadas porque podem nos deixar felizes. Logo, se a coisa que mais amamos é nossa própria pessoa, e a coisa que mais desejamos é a felicidade, ela tem que ser algo em nós mesmos. Mas não pode ser algo da nossa dimensão simplesmente corporal, como vimos nos textos anteriores. Então é, forçosamente, algo da nossa dimensão espiritual, ou seja, um bem da alma, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O argumento parece confundir um pouco as coisas: a felicidade que desejamos para nós e para os que amamos é desejada como um bem que se busca. Mas o amor que dirigimos a nós mesmos e aos nossos próximos é um amor de quem deseja o bem a eles. Portanto, a inclinação à felicidade, por um lado, e o amor a nós mesmos e aos nossos queridos, por outro, não são da mesma natureza, e por isso não podem ser comparados. Amamos a felicidade porque queremos possuí-la; amamos a nós mesmos e a nossos amigos porque queremos que possuam a felicidade.
A questão mais profunda que se coloca aqui é: é possível amar algo ou alguém fora de si mesmo mais do que amamos a nós mesmos? Sim, é possível, e isso se dá pelo amor ágape, ou seja, pelo amor de caridade, que vem de Deus como virtude infusa. Mas não debateremos isso agora, diz Tomás. Estudaremos adiante a virtude infusa do amor-caridade, em outro momento. Por enquanto, fica a ideia de que a felicidade consiste em dirigir a alma a algo que me supera em perfeição e amabilidade, e desfrutar esse amor em nossa própria alma.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento parece condensar os anteriores. Se a felicidade vem do amadurecimento, do aperfeiçoamento pessoal do ser humano, então ela é uma dimensão de nós mesmos, uma dimensão interna nossa. Mas não pode ser o aperfeiçoamento corporal, como vimos nos textos anteriores.Logo, é um bem da alma, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Sim, a felicidade é a plenitude da alma, e portanto é algo que se pode chamar de “bem da alma”. Mas aquilo que leva a alma à plenitude, fazendo-a feliz, é algo que está fora dela. Ou mais precisamente, está além dela.
- Concluindo.
A felicidade envolve uma busca: a busca por aquilo que completa, que aperfeiçoa, que sacia plenamente. Não é algo que já nos está dado, mas algo que precisa ser encontrado e desfrutado – espiritualmente. Eis o segredo da felicidade. Eis o critério de todo agir voluntário.
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