1. Retomando.

Na busca daquela dimensão humana que abriga a plenitude, a felicidade, chegamos finalmente à alma. Como vimos no texto anterior, a hipótese, agora, é a de que a felicidade é algo da dimensão espiritual do ser humano, não simplesmente da sua dimensão física. A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, é a de que a felicidade reside na alma, no desenvolvimento espiritual humano. 

Vimos, em seguida, três argumentos que tentavam comprovar que a felicidade estaria na alma humana, seria uma propriedade desta, e seria atingida com o seu desenvolvimento. O primeiro argumento lembra que já havíamos procurado a felicidade em dimensões externas à pessoa, como o dinheiro e a fama, e não encontramos. depois, procuramos nas dimensões corporais, na saúde e beleza e no prazer físico, e não encontramos. assim, por exclusão, restaria a dimensão espiritual, e a alma seria a dimensão que, devidamente desenvolvida, traria a felicidade ao ser humano. O segundo argumento lembra que sempre amamos mais a nós mesmos do que a qualquer bem que possa vir a nos acontecer. ora, se a felicidade é aquilo que deve ser mais amado e perseguido, então está em nós, e, uma vez que não é um bem externo nem um bem corporal, deve ser um bem da alma. Por fim, o terceiro argumento lembra que, se a felicidade é atingir a perfeição e repousar nela, então a perfeição deve ser uam dimensão da própria pessoa que se torna feliz. Mas não pode ser algo externo nem algo corporal, como vimos nos textos anteriores. Então necessariamente é um bem da alma, conclui.

Por fim, o argumento contrário lembra que Agostinho ensina que aquela dimensão que transforma uma vida em uma vida feliz é algo que deve ser amado por si mesmo, deve ser final, pleno, suficiente e bastante por si mesmo. Mas o ser humano, sendo uma criatura, é antes amado por Deus e chamado por ele à existência, do que amado por si mesmo – ele tem em Deus a fonte de sua bondade, e não em si mesmo. Logo a felicidade não pode se limitar a algum bem da alma humana, conclui este argumento. 

Estudemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Os dois sentidos da noção de fim ou finalidade.

Tomás vai esclarecer, logo no início de sua resposta, uma ambiguidade que muitas vezes passa despercebida e que dificulta muito a compreensão do tema da felicidade. Trata-se da noção de fim, de finalidade, de objetivo conscientemente buscado pelo ser humano por meio de seu comportamento voluntário. 

Há dois significados, dois modos de entender a noção de fim, ou finalidade, de uma ação. Em primeiro lugar, o fim de uma ação é aquela coisa que buscamos conseguir com aquela conduta. Em segundo lugar, o fim é aquilo que procuramos obter, o modo como iremos desfrutar, ao conseguir aquela coisa. 

Por exemplo, o fim do sujeito ganancioso é o dinheiro; isto é, a coisa que ele deseja obter por meio de sua conduta voluntária é o dinheiro. Mas o que ele quer obter com esse dinheiro também pode ser considerado como fim; ele quer ter uma grande fortuna para ser um operador financeiro poderoso e influir nos mercados, ou ele quer simplesmente poder comprar coisas luxuosas com o dinheiro acumulado. Essa finalidade, ou seja, o modo pelo qual ele desfruta da coisa que elegeu como fim, também é uma dimensão da finalidade. Então, quando falamos de fim ou finalidade, é preciso que tenhamos clareza: devemos estar atentos ao fato de que essa noção pode ter esses dois sentidos.

Tomemos um outro exemplo: alguém doente deseja ardentemente aquele remédio que o curará. A coisa que ele busca é o comprimido com a substância química, mas o resultado que ele quer, a finalidade perseguida, é ingerir o comprimido para obter a cura.

A finalidade e a alma humana.

Atento a esses dois sentidos, Tomás nos ensina logo que o fim do ser humano, quanto à coisa desejada, não pode ser nada no próprio ser humano. Nem mesmo a alma. 

E isso por um motivo muito simples: a felicidade vem sempre pela obtenção de algum tipo de completude, de plenitude. Ocorre que o ser humano é um ser sempre em construção, isto é, tudo o que nós somos – mesmo aquilo que de mais espiritual existe em nós, na nossa alma – sempre é algo que é imperfeito, incompleto, potencial. E assim jamais podemos ser, nós mesmos, nosso próprio fim: se o fim é atingir a plenitude, a completude, ele não pode consistir em algo que é incompleto, imperfeito. 

A nossa alma espiritual é capaz de conhecer. Mas está sempre em estado de ignorância com relação àquilo que pode vir a conhecer, mas ainda não conhece. Nossa vida espiritual pode ser virtuosa um dia, mas está sempre em construção quanto às virtudes que ainda podemos desenvolver. Ora, algo que estará sempre, em alguma medida, em ignorância e em construção, não pode ser o objetivo final de nossa vida. 

Mas não temos, ao lado de nossas ignorâncias e incompletudes, uma dimensão de conhecimento, de virtudes, de perfeições? Sim, é certo que nossa vida espiritual já possui algumas perfeições. Mas são sempre perfeições limitadas, individualizadas, participadas, concretas. Ocorre que nossa vontade sempre se inclina para o universal, para o pleno, para o infinito, de tal modo que mesmo as maiores perfeições de nossa alma ainda são muito pouco para satisfazer as inclinações de felicidade de nosso ser. Desejamos sempre tudo, sempre o completo, o universal, o total, de tal modo que estamos sempre insatisfeitos com tudo o que já alcançamos, temos e somos. Se nos contentamos apenas com o que há em nós, jamais seremos felizes. Somos pouco para satisfazer nossas próprias inclinações mais profundas. Por isso, nossa própria pessoa, mesmo suas dimensões espirituais, mesmo os bens mais notáveis de nossa alma, como a inteligência, as virtudes, a criatividade e mesmo o amor, são pouco para nos satisfazer. Em suma, não nos bastamos para sermos realmente felizes. A felicidade não pode estar apenas em gozar do bem que nós próprios somos! Como coisa desejada, portanto, ou seja, no primeiro sentido da noção de fim, certamente nossa finalidade não é a nossa própria alma, mas algo que está além dela!

A alma não é a coisa buscada, mas é o lugar de desfrute

Assim, a coisa que constitui nosso fim último não pode ser algo de nós mesmos, nem sequer a nossa alma espiritual – que é, sem dúvida, a nossa dimensão mais nobre e elevada. 

Mas o desfrute dessa coisa, ou seja, aquilo que procuramos obter, o repouso que queremos conseguir, isso se dará, com certeza, em nossa alma: a completude, a felicidade, a plenitude humana só pode se dar como algo espiritual, ou seja, como um bem da alma, como um júbilo do espírito, como uma perfeição espiritual atingida pela obtenção de uma coisa que, por sua vez, não é a própria alma, mas está além dela. Em suma: o fim último, a coisa que no fundo buscamos para a nossa plenificação, é algo que está além de nós mesmos; mas, ao alcançarmos, o desfrute, a felicidade, o gozo da plenitude, se dará naquela dimensão espiritual de nós que se chama “alma” – forma animada do corpo. 

  1. Encerrando por enquanto. 

O fato de que a felicidade é algo a ser desfrutado espiritualmente não exclui o corpo, como dimensão que desfrutar também da felicidade. Mas mesmo o bem-estar corporal que eventualmente acompanhará a felicidade como bem espiritual será algo subordinado ao bem da alma. em nós, alma e corpo são partes indispensáveis de nossa constituição humana, e por isso a morte é uma realidade realmente má – não uma simples passagem, mas uma verdadeira perda da inteireza humana. E por isso a plenitude será a ressurreição dos corpos – quando teremos corpos não mais biológicos, mas espirituais. 

Mas estamos nos adiantando de novo. Isto não é assunto para nosso debate aqui. Aqui, precisamos guardar que não nos bastamos, não somos suficientes para a nossa própria felicidade. Isso não é simplesmente uma visão entre outras, uma escolha de quem é cristão, válida ao lado de outras. Isto é um imperativo insuperável: sem encontrar isso que está fora da nossa alma, que nos satisfaz plenamente, que pode ser desfrutado apenas de modo espiritual, ninguém, nenhum ser humano, jamais será feliz.