1. Introdução.

O que será esta plenitude, este aperfeiçoamento que nos faz repousar no bem e desfrutar, por consequência,  do maior prazer espiritual? Já vimos que isto não pode vir de algo externo ao próprio ser humano: não se trata de dinheiro, de honra, de fama ou poder. Muitos dos que atingem estas coisas fazem-nos fortuitamente, não em razão de algum tipo de amadurecimento ou plenitude, e não gozam de repouso ou desfrute da felicidade, mas de inquietude e falta de paz. Já vimos, também, que essa plenitude não pode estar no aperfeiçoamento do corpo, pela saúde ou pela beleza, nem nos prazeres corporais – embora a plenitude deva conduzir ao prazer, como acidente próprio dela. 

Com isso, resta-nos examinar essa dimensão espiritual do ser humano a que costumeiramente, na esteira da tradição filosófica e cristã, chamamos de “alma”. Será que a felicidade, a completude, a plenitude do ser humano está na alma? Eis o debate que passamos a examinar.

  1. A hipótese polêmica inicial. 

A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, procura a resposta na única dimensão pessoal do ser humano que ainda resta: a dimensão espiritual, ou seja, a alma. Parece que a nossa plenitude, a nossa felicidade, consiste em algum bem da alma, isto é, no desenvolvimento e aperfeiçoamento de alguma capacidade espiritual pessoal.  Há três argumentos iniciais que tentarão comprovar esta hipótese. 

  1. Os argumentos iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento procede, justamente, por exclusão. Estamos buscando, diz o argumento, descobrir em que consiste a felicidade humana. Ora, a felicidade humana deve ser buscada no ser humano, na pessoa humana, porque é um assunto humano. Assim, temos três possibilidades para buscar qual o bem que nos faz sumamente felizes: ou é algo que está fora do ser humano, como as riquezas e a fama, ou é algo do corpo humano, como a beleza, a saúde ou o prazer físico, ou é um bem da alma, como o conhecimento e o amor. MAs os textos anteriores, que acompanharam os debates desta questão 02, já demonstraram que a felicidade não pode estar nem nos bens exteriores ao ser humano, nem nos bens do corpo. Logo, a felicidade deve ser algum bem da alma, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento objetor nos lembra que, quando desejamos algum bem a alguém, amamos mais a pessoa a quem desejamos o bem do que o próprio bem que desejamos a ela. Assim, por exemplo, quando desejamos a alguém que seja próspero, amamos mais a pessoa do que ao dinheiro que, conforme nosso desejo, ela poderá vir a ter.  

Sabemos que desejamos para nós mesmos todos os bens possíveis – queremos a riqueza, a saúde, a prosperidade e assim por diante. Logo, usando o mesmo raciocínio que usamos há pouco, nós desejamos tudo de bom para nós mesmos porque amamos a nós mesmos mais do que a todos os bens que possamos desejar. E acima de tudo desejamos a felicidade, e a felicidade é aquele bem final, que não se deseja por causa de outra coisa. Logo, ela é aquilo que é amada ao grau máximo

Mas se aquilo que amamos ao grau máximo é a felicidade, e se sempre amamos mais à pessoa a quem queremos determinado bem do que ao bem que desejamos, então se deve concluir forçosamente que a felicidade não é algo externo ao ser humano, mas algo que está nele mesmo. E já descobrimos, nos textos anteriores, que, na pessoa, a felicidade plena não pode estar nem na saúde e beleza do corpo, nem nos prazeres físicos. Portanto a felicidade deve ser algum bem da alma, conclui este argumento. 

O terceiro argumento objetor. 

 Se a felicidade decorre de atingir a plenitude dos potenciais, então a felicidade tem que ser o aperfeiçoamento de alguma dimensão daquele que está sendo aperfeiçoado. A felicidade não pode ser, então, algo externo ao próprio sujeito que é feliz. Mas a felicidade plena não pode vir de algum bem da dimensão simplesmente corporal, como já vimos nos textos anteriores. então a felicidade, que é o fim último do ser humano, deve ser algo da dimensão espiritual, conclui o argumento.

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

O argumento sed contra, que nos impede de aceitar a hipótese inicial, é retirado de uma citação de Santo Agostinho. Na obra De Doctrina Christiana, ele nos ensina que aquilo que constitui a nossa felicidade é algo que deve ser amado por si mesmo. Mas nada do que há no ser humano deve ser amado por si mesmo: somos criaturas, e amamos o ser humano porque é expressão criada do amor incriado de Deus. Portanto, conclui o argumento contrário com certo exagero – que será corrigido em seguida por Tomás, na resposta sintetizadora – a felicidade, como objetivo último do ser humano, não consiste em nenhum bem da alma. 

5. Encerrando por enquanto.

O mistério da busca do fim último do ser humano vai se tornando progressivamente menos espesso, mas não menos misterioso. Trata-se de um bem pessoal (se há alguma felicidade, sou eu mesmo a ser feliz, e não outro) que decorre de atingir algum fim que é último para a pessoa, mas ao mesmo tempo não é algo que está simplesmente na própria estrutura de alguém, como parece apontar o argumento sed contra. Trata-se de algo que busco atingir, mas não é um objetivo em si mesmo, senão um acidente próprio daquilo que atingimos, como vimos em textos anteriores: a felicidade é sempre o resultado de ter alcançado a plenitude de alguma maneira, e portanto é algo que não pode ser alcançado diretamente, senão apenas como consequência de atingir a plenitude. 

Algo que é meu mas não se esgota em mim, algo que é um fim último mas não pode ser atingido diretamente, algo que me dá sentido mas não pode ser dominado. Eis o mistério que ainda precisamos desvendar.