1. Retomando para concluir. 

Não há dúvida, para Tomás, de que o prazer tem relação com a felicidade. Mas não como pensam os hedonistas: o prazer de que falamos aqui é principalmente aquele de natureza espiritual – como a alegria por uma conquista acadêmica de algum filho, por exemplo; mas não exclui o prazer corporal, sensível. Ocorre que o prazer não é o fim, mas simples consequência de atingir algum fim. O prazer é aquilo que os antigos chamavam de intentio obliqua, quer dizer, algo que não pode ser objeto de intenção direta. Quando busco diretamente o prazer, obtenho uma sensação similar, mas que não satisfaz nem substitui o verdadeiro prazer que decorre da atividade boa. Alguém pode descrever o prazer de ouvir uma boa música, mas certamente não trocaria sua capacidade de ouvir música por alguma pílula mágica capaz de dar o mesmo prazer, mas sem a música.Pode-se pagar por um ato sexual, mas isso nem se aproxima do imenso prazer de celebrar bodas de ouro com um cônjuge matrimonial sacramental com o qual se dividiu uma vida de lutas, dores e conquistas. Então o prazer não é o fim último, mas certamente é a consequência de atingi-lo. É neste sentido que Tomás o classifica como acidente próprio da felicidade.

E exatamente porque aqueles atos que não são ordenados, mas são profundamente desordenados, podem dar prazer corporal intenso (pensemos aqui, por exemplo, no consumo de drogas psicoativas ou numa vida sexual completamente desordenada, que envolve a violência contra terceiros, por exemplo), é que Aristóteles advertia (cotando Platão) que é de grande importância educar os jovens a sentir prazer no bem e repugnar o mal. Sentir prazer na atividade desordenada talvez seja uma das maiores ameaças à felicidade, entendida como alcançar a plenitude do desenvolvimento humano

Atentos a estes princípios, estabelecidos no texto anterior, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar a hipótese de que o prazer, o deleite físico, seria de fato o bem supremo, a meta final do ser humano. Estudaremos as respostas de Tomás a eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

Qualquer que seja o fim último do ser humano, diz este argumento, certamente ele não pode ser desejado por causa de outra coisa, mas deve ser almejado por causa dele mesmo. Isto é intuitivo: se desejo alguma coisa por causa de outra, não é aquela, mas esta, o meu objetivo final. Assim, quem quer juntar dinheiro não almeja reter uma pilha de cédulas na sala, mas quer comprar alguma coisa com esse dinheiro.

Ora, segundo Aristóteles (ética a Nicômaco, Livro X), seria uma tolice perguntar a alguém porque ele quer sentir prazer. Ora, sempre se quer sentir prazer por causa do próprio prazer, não por causa de alguma coisa a que o prazer se dirija. Logo, conclui este argumento, deleitar-se no prazer sensível é o fim último do ser humano. 

A resposta de Tomás. 

É pelo mesmo motivo que nós desejamos tanto o bem quanto o prazer. O bem é aquele objetivo que move a nossa vontade, o prazer é o repouso feliz de quem alcança o bem e repousa no seu deleite. São, pois, a mesma coisa vista de dois pontos de vista diferentes. Pensemos num trabalhador que juntou dinheiro para comprar um automóvel para passear com a sua família. Ele deseja o automóvel como fim de seus esforços, e deseja o prazer de reunir sua família e realizar com ela um passeio ao campo. A aquisição do automóvel é o bem que move sua vontade, e o prazer de passear com a sua família no campo é o prazer que advirá de desfrutar do bem alcançado. Ressalte-se, neste nosso exemplo, que adquirir um automóvel não é, nem de perto, o fim último de alguém, e desfrutar de um passeio com a família no novo automóvel nem de perto se compara ao desfrute do prazer resultante do desfrute do fim último. Mas isso é assunto para outro momento.

Ou, como diz Tomás, a mesma força gravitacional que atrai as coisas pesadas para a terra também as faz repousar no chão. 

Por isso, podemos dizer que o bem que atrai a vontade é a causa final do comportamento, assim como o prazer de desfrutar desse bem – são dois aspectos inseparáveis do mesmo movimento de vontade. Como causa final do movimento da vontade, alcançar o bem e deleitar-se alegremente nele são indistinguíveis.

Mas, se pensarmos em termos de causa formal, isto é, naquela causa que conforma, que dá identidade ao próprio movimento da vontade, então há uma distinção: o prazer não é desejado por si mesmo, mas por ser consequência da posse do bem. Se desejo um momento de intimidade com a minha família, certamente não trocaria minha família por bonecos semelhantes a eles que fossem programados por inteligência artificial para simular afetos por mim. O prazer, neste sentido, é desejado por decorrer do bem, e não por si mesmo. 

O segundo argumento objetor.

É claro que a causa mais alta produz mais efeitos do que a causa mais baixa. O general do exército tem muito mais poder do que um simples soldado. Ora, quanto mais importante um fim, tanto maior deve ser sua capacidade de atrair nossa vontade, ou seja, de nos provocar desejo.. Mas, como sabemos, aquilo que nos causa mais desejo é aquilo que nos provoca prazeres mais intensos. Quanto mais intenso o prazer resultante de uma conduta, tanto maior é o desejo que provoca em nós. A prova disso é que os prazeres físicos mais intensos nos absorvem de tal modo que nos cegam a outros estímulos ou necessidades. Assim, o argumento conclui que o apelo mais forte, que é sem dúvida aquilo que representa a meta suprema do ser humano, está no desfrute dos prazeres sensoriais.

A resposta de Tomás.

Todo o nosso conhecimento, ou seja, tudo aquilo que aprendemos, que chegamos a conhecer, passa pelos nossos sentidos. É por isso que os prazeres que atraem nossos sentidos são estímulos tão fortes para nós – eles são mais facilmente perceptíveis e desfrutáveis do que, por exemplo, os prazeres espirituais, que demandam operações de reflexão e uma certa maturidade da pessoa. É por isso que os prazeres sensíveis são tão desejados pela maioria das pessoas, e não pelo fato de serem os melhores, os mais perfeitos, ou mesmo por serem fins últimos para nós – que, como vimos, não são.  

O terceiro argumento objetor.

A inclinação da nossa vontade é sempre por alguma coisa que é boa sob algum aspecto. É um fato muito bem documentado cientificamente que ninguém se inclina por alguma coisa verdadeiramente má. Mesmo aquilo que é, verdadeiramente, mau, só pode atrair a vontade porque tem alguma dimensão boa – como é o caso, por exemplo, de determinadas drogas muito destrutivas que são capazes de viciar porque causam sensações muito fortes e inicialmente muito agradáveis em seus usuários. 

Assim, para saber o que é a melhor coisa, é preciso buscar aquilo que atrai o maior número de apetites. O argumento diz, então, que o prazer físico, o deleite corpóreo, é certamente aquilo que atrai o maior número de apetites, tanto no mundo humano quanto no mundo animal. Não há dúvida de que a inclinação mais difundida no mundo, pelos seres vivos e dotados de sensibilidade corporal, é o prazer corpóreo. Portanto, ele é o maior bem, e portanto é o fim último da vida humana, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Já vimos, na resposta ao primeiro argumento, que o prazer relativo a determinado bem é buscado juntamente com esse bem – e assim é em todo o reino animal. Os animais não podem apresentar comportamentos como a busca hedonista de alimentos apenas para sentir o prazer de comer, ou a atividade sexual apenas pelo prazer de copular. Há sempre a busca do bem da nutrição ou da reprodução, com os respectivos prazeres de comer ou do ato sexual como consequência. O mesmo ocorre – salvo alguns casos de puro hedonismo ou de desequilíbrio ou imaturidade – com os seres humanos. Por isso, não é a busca do prazer que marca a inclinação mais difundida, mas a busca do bem, com o consequente prazer de alcançá-lo, de tal modo que o prazer é um acidente resultante da busca do bem, e não o contrário

  1. Concluindo.

O prazer é consequência da busca do bem e não o contrário. Tomás não é um hedonista, mas também não é um kantiano que considera que qualquer prazer envolvido na busca do bem torna imoral a conduta do ser humano. A busca do bem é algo que traz prazer, deleite, felicidade, e muitas vezes um deleite não simplesmente corporal, mas espiritual também. Isso não torna o agente imoral, como quer uma parte da filosofia moral pós-kantiana, porque felicidade, prazer e alegria são indissociáveis. Tomás nos propõe, portanto, não uma ética da felicidade (no sentido hedonista), mas uma ética feliz.