- Retomando.
É muito difícil responder à ideia de que o prazer é o fim último do ser humano. De fato, o prazer sensível que decorre de certas condutas parece ser justamente o que nos move a realizá-las, e não se pode negar, por exemplo, que comer com prazer é o que nos leva, em última instância, a comer bem. Quando somos forçados a comer alguma coisa que nos desagrada profundamente, por motivos de saúde ou qualquer outro, sabemos o quanto a atividade de comer se torna difícil. Mas não podemos negar que temos a capacidade de comer e somos capazes também de superar o desprazer sensível quando estamos em busca de algum bem mais elevado do que os prazeres gastronômicos; está aqui o fundamento para coisas como o jejum religioso ou as dietas hospitalares. Sabemos, então, que há outros bens, talvez mais elevados do que o prazer sensível, que nos motivam a agir, como a fé ou a saúde.
Vimos a hipótese inicial de que o ser humano tem, como meta final de sua vida, obter o prazer sensível, isto é, atingir o deleite, desfrutar dele. O primeiro argumento que tenta comprovar essa hipótese lembra que o fim último deve ser buscado por ele mesmo, e não como meio para outra coisa; ocorre que o prazer é algo que se busca por si mesmo, e não por causa de outra coisa e tem, portanto, o caráter de fim último. O segundo argumento lembra que nada é mais comum a todos os entes do que a busca do prazer – logo, deve ser o fim mais elevado, porque é o mais difundido. O terceiro argumento mostra que essa busca é incondicional, e independe da própria natureza do ser que o busca – todos buscam o prazer.
Por fim, o argumento contrário mostra que a busca incondicional do prazer leva a problemas sérios como os vícios, os crimes e a irracionalidade no gozo. Por isso, não pode ser o fim último.
Postos esses elementos, vamos estudar a resposta sintetizadora de Tomás a esses problemas.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás nos lembra que o prazer de natureza corporal é o mais difundido, é o mais conhecido por todos. Assim, a palavra “prazer” vem associada, em primeiro lugar, ao prazer corporal. Mas não podemos esquecer que há prazeres que não são estritamente corporais, e são ainda mais profundos do que os corporais. Pensemos no grande júbilo advindo, por exemplo, da meditação dos mistérios da vida de Jesus. Mas, mesmo sabendo que há prazeres corporais e espirituais, e que estes últimos podem ser ainda mais intensos do que os corporais, os prazeres não podem ser a meta final, o fim último do ser humano – pelo menos não de maneira direta e principal.
De fato, Tomás nos ensina que há aspectos das coisas que são diretamente delas, como parte da sua essência; por exemplo, é parte da essência humana o corpo biológico. Mas há determinados aspectos que, embora estejam sempre presentes, não são parte de sua essência, mas um acidente próprio seu. No caso dos seres humanos, é um acidente próprio a capacidade de rir de si mesmo. Assim, uma coisa é dizer que o ser humano é um animal racional, ou seja, é um ser essencialmente constituído por uma dimensão animal e biológica e uma dimensão espiritual inteligente. Mas dizer que o ser humano é a única criatura capaz de rir de si mesmo, de contemplar e emitir uma gostosa gargalhada por reconhecer uma falha que cometeu, trata-se, aqui, de descrever um processo que, embora propriamente e exclusivamente humano, não é algo da essência do ser humano, mas um acidente próprio da nossa espécie. Se alguém, algum ser humano, nunca viveu essa experiência na vida, isso não o torna menos humano, nem descaracteriza o fato de que apenas os seres humanos são capazes disso.
A relação do prazer, tanto o prazer físico quanto o propriamente espiritual, com a plenitude humana, é desse tipo: trata-se de uma relação acidental própria: o prazer está sempre relacionado a algum tipo de realização que implica algum tipo de completude, de perfeição atingida, ainda que seja de modo incompleto ou mesmo até enganoso. Atingir esse objetivo, seja de modo concreto (existencial), seja pela esperança de obtê-lo, seja mesmo o simples desejo de alcançá-lo, é algo que nos dá prazer. Quer dizer, o prazer, qualquer que seja a sua natureza (prazer físico, psicológico, espiritual) é sempre consequência do atingimento de algum bem, e nunca é (ou nunca deve ser) o resultado de uma busca direta pelo deleite. Quem sente prazer, quem se deleita, sempre se deleita por alguma coisa, nunca pelo próprio deleite. Trata-se de desfrutar de algum bem, que pode ser a própria completude humana (a realização de uma grande meta, o atingimento de algum objetivo elevadíssimo) ou até mesmo algo que imite imperfeitamente essa completude, mesmo que de modo injusto (o desfrute de algum bem injustamente possuído, por exemplo). Em qualquer caso, Tomás nos ensina que o deleite, o prazer, não é a própria felicidade, mas o gozo dela. Algo que procede dela, mas como decorrência acidental, não por essência. A busca pelo prazer é sempre uma busca indireta; buscar diretamente o prazer é um engano, consciente ou não, e que sempre resulta em destruir a si mesmo ou ao prazer buscado – sempre enganador, neste caso.
Não podemos ter dúvida, lembra Tomás, de que a felicidade será algo profundamente deleitável, que nos dará o maior prazer. Mas não será, simplesmente, um prazer corporal, porque já sabemos que a felicidade não pode ser, simplesmente, um estado relacionado ao aperfeiçoamento do corpo – vimos isso no último artigo, que debatemos ao longo de três textos. A felicidade não pode ser um bem do corpo, e portanto o seu desfrute não pode ser simplesmente um prazer corporal. De fato, tudo aquilo que se limita ao corpo é sempre particular, efêmero, temporário, concreto e passageiro, e não pode constituir um objetivo final. Mas a nossa alma, sendo espiritual, tem uma abertura ao infinito, porque é capaz de operações que independem do corpo e o transcendem. Se é assim, as operações da alma têm, ao menos potencialmente, a capacidade de abraçar realizações e perfeições que não são simplesmente passageiras, temporárias, concretas e efêmeras, mas que são permanentes e inesgotáveis. Por isso, se o prazer que resulta de alguma satisfação estritamente corporal é sempre limitado no tempo e no espaço, então podemos imaginar que a alma, não tendo em si esses limites, pode nos conduzir a algum tipo de prazer que é, em si mesmo, infindável e inesgotável.
Por isso, diz Tomás, nenhum prazer ou deleite corporal, por mais intenso e duradouro, pode ser nossa meta final, nosso fim último, aquilo que justifica nossa vida e unifica nossas escolhas. Primeiro, porque o prazer corporal é sempre um acidente, uma consequência, e não um fim em si mesmo. Segundo porque ele é a consequência de algo que, em si mesmo, é efêmero e limitado, e portanto não tem as características e fim último. é por isso, diz Tomás, que a Bíblia nos ensina (Livro da Sabedoria 7, 9), comparando a sabedoria espiritual aos bens materiais: “Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo o ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia, e porque a prata diante dela será tida como lama”.
O prazer corporal não pode, portanto, ser o fim último do ser humano.
- Encerrando por enquanto.
Essa resposta de Tomás nos deixa com a intuição de que o prazer está relacionado à felicidade, mas nunca como objetivo direto, senão sempre por consequência. E que o prazer corporal também tem relação com ela. No entanto, a pista é que somente a felicidade, somente atingindo aquele bem espiritual que nos aperfeiçoa em nossa dimensão mais elevada, é que sentiremos verdadeiro e completo prazer.
No próximo texto examinaremos, a partir daquilo que aprendemos aqui, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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