1. Introdução. 

Vimos, então, que dos bens internos à pessoa humana, a saúde corporal não pode ser o fim último do ser humano. O próximo candidato é o prazer, o deleite, o gozo que sentimos ao desfrutar alguma situação boa. Trata-se de um candidato forte: há um ramo inteiro da ética, a chamada ética utilitarista, que consiste em assumir que a ética nada mais é do que a busca do prazer e a fuga da dor. Nomes como Stuart Mill e Jeremy Bentham vêm à mente quando pensamos no utilitarismo como princípio da ética. Será que eles têm razão? Será que, no fundo, a busca da sensação de prazer, de deleite, justifica e guia toda a ética? 

Será que o prazer é realmente o fim último do ser humano, aquilo que dá sentido à sua vida e dirige suas escolhas conscientes? Eis o debate que nos é proposto agora.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial nos propõe que aquilo que, em última instância, move o ser humano e representa a meta final em sua vida é o prazer, o deleite sensível, de tal modo que todas as nossas escolhas e condutas voluntárias se justificam pela busca dessa sensação. Há três argumentos iniciais que tentam justificar esta hipótese.

Os argumentos iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor nos lembra que, qualquer que seja aquilo que é a meta última, o sentido final da vida humana, tem que ser alguma coisa que não seja buscada por causa de outra coisa, mas por causa de si mesma. Mas o prazer, a sensação de deleite, é algo que é buscado por si mesmo, como nos lembra Aristóteles no Livro X da Ética a Nicômaco: a ninguém se pergunta em vista do que é que sente prazer, porque o prazer é uma escolha absoluta por sua própria essência. Então, sendo uma escolha absoluta, que não visa nada além de si própria, a busca do prazer é o fim último da vida humana, propõe apressadamente este primeiro argumento.

O segundo argumento objetor.

O Livro das Causas, que é uma fonte muito respeitada no tempo de Tomás, ensina que a primeira causa atua muito mais fortemente que a segunda”, ou seja, quanto mais poderosa a causa, quanto mais elevada, mais forte é seu efeito.

Isso se aplica também, é claro, à causa final. A causa final mais elevada seria, portanto, aquela que exerce maior poder de atração sobre a vontade. Quanto mais um bem é desejado, quanto mais ele se coloca na posição de objetivo final, tanto mais ele será elevado. Ora, nada é mais desejado pelo ser humano do que o prazer, o deleite sensível, a ponto de se perceber que, por causa do prazer, deixamos de lado muitos outros bens, e aquele ser humano que goza de um prazer muito intenso chega a se tornar indiferente a outras coisas. Portanto, nada pode ser mais elevado do que a atração que o prazer exerce sobre nós, e por isso o argumento propõe que ele é o fim último do ser humano. 

O terceiro argumento objetor.

Sabemos que a vontade sempre se move pela busca do bem, mesmo que essa busca seja desordenada, e que aquilo que se apresenta como bem, num determinado momento, para uma determinada pessoa, seja, na verdade, um mal para ela. 

Mas, no caso do prazer, não se trata da busca de uma só pessoa, que sempre pode se enganar. Trata-se, aqui, do fato de que todos, sejam sábios, tolos, ou até mesmo os animais desprovidos de razão, inclinam-se para o prazer e fogem da dor. Portanto, podemos dizer que a busca pelo prazer não é um fenômeno individual de alguém que pode se enganar, mas é um fenômeno universal que arrasta todo e qualquer apetite. Logo, o prazer tem a natureza de bem incondicional e é, portanto, o fim último da vida humana, conclui este argumento. 

4. O argumento contrário.

Como já sabemos, após apresentar os argumentos favoráveis à hipótese inicial, o artigo sempre apresenta um argumento contrário, retirado de alguma fonte autoritativa, que nos impede de aceitar pura e simplesmente a hipótese inicial.  

Aqui, o argumento contrário é retirado do filósofo cristão Boécio, que, na sua obra sobre a Consolação da Filosofia, diz; “As consequências [da busca incondicional] dos prazeres são claras para todos os que têm consciência das próprias inclinações sensuais; de fato, se [os deleites sensuais] pudessem nos fazer felizes, não haveria motivo para não considerar que os irracionais são tão ou mais felizes do que nós”. Logo, o fim último do ser humano não pode estar na busca pelos prazeres e deleites sensíveis, conclui este argumento. 

5. Encerrando por enquanto.

A busca do prazer e do deleite sensível por si mesmos é um grande problema ético que vem sendo debatido filosoficamente há milênios. Aristóteles, citando Platão, lembra que “é por causa do prazer que incorremos, por um lado, em ações vergonhosas. E, do mesmo modo, é por causa do medo que podemos nos afastar de ações gloriosas”. Assim, Aristóteles, no Livro II da Ética a Nicômaco, cita Platão quanto à necessidade de educar as pessoas, desde cedo, a “sentir prazer no que deve dar prazer e sentir desgosto no que deve dar desgosto”, porque o prazer e a dor são grandes fatores na vida ética – e aqueles que sentem prazer no mal dificilmente serão reconduzidos ao bem. 

Mas estamos nos adiantando. No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás quanto a este grande debate.