- Retomando para concluir.
O corpo é um bem, porque é uma dimensão existencial essencial do ser humano. A saúde é um bem de primeira grandeza. A estética corporal, o desenvolvimento muscular, a força, tudo isso é muito bom. Mas nada disso constitui o fim último do ser humano, e Tomás nos explicou as razões em nosso último texto. Ele nos ensinou que o corpo é a dimensão humana que serve às relações, porque não há meio de algum ser humano estabelecer qualquer relação sem o uso de alguma dimensão corporal. Ora, aquilo que é meio não pode ser fim, lembra-nos Tomás. Além disso, aquilo que é menos nobre serve àquilo que é mais nobre, e o nosso pobre corpo biológico é perecível, ao tempo que nossa alma espiritual é imperecível. Logo, se há algum bem último, ele não deve ser algo da esfera corporal, mas da esfera espiritual, que é a esfera mais elevada.
Munidos desses princípios, vamos examinar agora os argumentos objetores iniciais e as respostas que Tomás nos oferece quanto a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento cita o Livro do eclesiástico, 30, 16: não há riqueza maior do que a saúde do corpo. Ora, então a saúde do corpo é o fim último do ser humano, conclui apressadamente esse argumento.
A resposta de Tomás.
Quando a Bíblia diz que não há riqueza maior do que a saúde do corpo, ela está claramente comparando a saúde do corpo, que é um bem pessoal, com aquelas riquezas de natureza externa ao ser humano, como o dinheiro e as propriedades. Ora, as riquezas externas existem para o bem da pessoa, e portanto o bem da pessoa (como é o caso da saúde) é sempre maior do que qualquer riqueza externa à pessoa. Trata-se, portanto, de um caso de hierarquização de bens – as riquezas exteriores, quaisquer que sejam, são sempre menores do que a saúde, mas esta é sempre menor do que os bens da alma, já que o corpo existe como uma dimensão subordinada à alma, conclui Tomás. Por isso, quando dizemos que não há riqueza maior do que a saúde do corpo, não se pode entender dessa frase que a saúde do corpo é o fim último do ser humano.
O segundo argumento objetor.
Segundo o Pseudo-Dionísio, a existência é mais fundamental do que a vida, e a vida é mais fundamental do que todas as coisas que dela se seguem. Ora, ninguém pode seguir existindo, diz o argumento, nem vivendo, sem gozar de saúde. Logo, a saúde é o mais fundamental dos bens, e portanto ele é o fim último do ser humano, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Sem dúvida, diz Tomás, a existência é o bem mais difundido e mais completo que existe. Deus criou o universo chamando-o a existir a partir do nada, de tal modo que a existência é o dom mais primordial de Deus para nós, e inclui, em si mesmo, todas as coisas. Isto é algo tão profundo que, muito depois de Tomás, um grande filósofo e matemático chamado Leibniz se perguntava, contemplando o universo: “por que há algo, e não o nada?”. Assim, a existência é, a um só tempo, o fundamento e o maior mistério, no sentido de ser a interpelação mais profunda de Deus a nós.
Mas é claro que a noção de “existência”, nesse caso, inclui tudo o que existe. Nesse sentido, a existência é insuperável, porque nada pode se juntar a ela, a não ser aquilo que ela já contém.
Mas no caso das existências individuais as coisas não são assim. A existência daquela pedra, por exemplo, não contém a existência do oceano, e a existência do oceano não contém a existência de uma pessoa humana. Logo, a simples existência de um ente precisa ser especificada por outras perfeições, que a individualizam como “isto” ou “aquilo”. Um ser ao qual se soma a perfeição da vida é mais rico, existencialmente, do que um ser inanimado. Um ser vivo ao qual se acresce a inteligência é mais rico do que um ser irracional. É neste sentido que o simples existir é inferior ao ser vivo, e este, ao ser inteligente, diz o Pseudo-Dionísio. Assim, ter saúde, quer dizer, manter-se na existência por estar vivo e em equilíbrio biológico é certamente menos do que ser alguém realizado e feliz. Por isso, a saúde corporal não pode ser o fim último do ser humano.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento parte das noções de causa eficiente, ou seja, aquela causa que dá origem a todos os seres, empurrando-os à existência, e de causa final, como aquela causa que atrai todos os seres para si, encaminhando-os à perfeição.
O argumento propõe que quanto mais alguma coisa é universal, tanto mais alto é o princípio de que ela depende. É fácil entender esta ideia: um prefeito de uma cidadezinha do interior tem poder limitado a um pequeno território e subordinado a muitas instâncias superiores. Mas um grande imperador de um reino colonialista tem poder sobre grandes extensões de terra, povos e nações.
Ora, vimos no argumento anterior que a existência, considerada como aquela qualidade universal que faz com que haja entes e não o nada, é resultado da ação direta de Deus, que criou tudo a partir do nada. Portanto, a existência de todas as coisas é efeito da causa eficiente mais elevada que há.
Portanto, se estamos buscando a causa final mais elevada, temos que buscar aquilo que todos os entes desejam, porque, se a causa eficiente mais elevada é a que resulta no efeito mais extenso, então a causa final mais elevada é a que atrai o maior número de entes. Parece, então, que permanecer na existência é aquilo que atrai todos os seres, porque todos os seres, mesmo os inanimados, oferecem algum tipo de resistência à própria aniquilação.
No ser humano, a aniquilação se dá pela destruição da saúde, isto é, pela destruição do equilíbrio biológico que nos mantém vivos. Logo, conclui apressadamente o argumento, a saúde corporal é o bem mais elevado dos seres humanos.
A resposta de Tomás.
Há um velho princípio filosófico que diz que o fim corresponde ao princípio. Ora, se o princípio de tudo é Deus, que teve poder ilimitado para retirar algo do nada, então o fim de todas as coisas é Deus, que contém em si todas as perfeições que as coisas buscam, cada uma a seu modo. Assim, as coisas inanimadas oferecem resistência à sua aniquilação porque sua perfeição é simplesmente continuar a existir – e nisso buscam manter a semelhança que têm com Deus, como primeiro existente. As coisas vivas querem continuar a viver, e viver mais plenamente, buscando a semelhança com Deus, que é o Vivente mesmo. E os seres inteligentes querem buscar a plenitude da verdade, que é Deus, e a vontade da criatura inteligente quer a plenitude da bondade universal, deste modo alcançando a plenitude da sua própria perfeição, que ultrapassa a dos seres inanimados ou irracionais. Portanto, a simples existência, pela preservação da saúde, não pode ser o fim último do ser humano.
- Concluindo.
Se os corpos humanos, essa dimensão que nos insere no tempo e no espaço e nos permite a relação com o mundo, não fossem bons, então os mártires seriam incompreensíveis: ao morrer pela fé, eles estariam apenas concedendo ao carrasco uma dimensão ruim deles próprios, e o martírio não teria, no fundo, o valor de um sacrifício, mas apenas de uma libertação. Mas os corpos são bons, e constituem uma dimensão essencial da inteireza humana.Por outro lado, se o corpo, sua saúde e integridade, fosse o fim último dos seres humanos, os mártires também seriam incompreensíveis e, na verdade, pessoas desajustadas: eles, ao aceitar morrer para não renunciar a Deus, estariam abrindo mão daquilo que seria o fim último do ser humano, a integridade de seus corpos, por causa da fé, que, nesse caso seria um bem menos importante que a saúde. As duas posições, aquela que desvaloriza o corpo e a que o eleva a fim último, estão equivocadas – este é o testemunho dos mártires.
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