- Retomando.
Nosso debate, no fundo, é sobre o sentido da vida, que determina, em última instância, nossas escolhas de vontade. A vontade busca sempre, ainda que não de modo refletido, um fim em suas escolhas, e é esse fim que determina a moralidade do que fazemos. Esse fim, aquilo que dá sentido ao ser humano, não pode ser criado nem inventado por cada um, mas é algo que é reconhecido, assumido e buscado deliberadamente. O fim é sempre dado, nunca construído – embora a reflexão e a busca sejam, sempre, inseridos no contexto histórico e cultural de cada um.
Nesse processo de reflexão, já debatemos, com Tomás, a idéia de que o fim é algo fora de nós mesmos, como a riqueza, o prestígio, a fama ou o poder, e já descobrimos que nenhum desses bens tem as características de um fim último – de algo que dá sentido à vida como um todo e fundamenta as decisões concretas que temos que tomar no caminho. Agora, examinamos os bens que não são externos ao ser humano, mas nos constituem como indivíduos, ou melhor, como pessoas. O primeiro candidato é o corpo: será que o sentido da vida, o fim último que nos orienta e nos guia à realização, é o desenvolvimento de um corpo belo, saudável, forte e bem proporcionado?
Vimos, no texto anterior, a hipótese de que a saúde corporal – com tudo que ela implica, como a força, a beleza, o vigor físico – seria, de fato, o fim último do ser humano. Vimos os três argumentos iniciais que tentavam comprovar esta hipótese: o primeiro argumento citava Eclesiástico 30, 16a: “Não há riqueza maior que a saúde do corpo”. O segundo traz uma citação do Pseudo-Dionísio, para concluir que a saúde do corpo é mais fundamental do que existir, estar vivo e tudo o mais que se segue daí. O terceiro argumento vai na mesma linha, afirmando que aquilo que é o fim mais amplamente desejado é também o fim mais fundamental, e que nada pode ser mais desejado do que ter saúde corporal para continuar existindo e vivo.
O argumento contrário alega que, se o desenvolvimento do corpo e de suas aptidões e habilidades fosse o fim último do ser humano, então os animais irracionais seriam mais felizes do que nós, porque muitos deles nos superam em vigor, em longevidade, em sensibilidade, em velocidade e outras habilidades corporais. Logo, a felicidade plena do ser humano não pode estar no desenvolvimento da dimensão corporal.
Postos deste modo os termos do debate, vamos examinar agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás não despreza o corpo. Sabe que ele é parte do que somos, e sabe que a nossa integridade, a nossa constituição em corpo e alma, não é um acidente, mas é substancial em nós. Tanto que esperamos não simplesmente algum tipo de “iluminação espiritual”, mas a ressurreição da carne – a nossa completude final, com uma existência formada de alma espiritual glorificada num corpo glorioso. Seremos ressuscitados em corpo e alma, como lembra o chamado “Símbolo Apostólico”. Assim, o corpo é uma importante dimensão do nosso ser, boa e digna, que jamais pode ser ignorada ou desprezada. Mas o cultivo do corpo, a busca pela saúde perfeita, pela beleza física, pelo desenvolvimento corporal, não pode ser o objetivo final, não pode ser o sentido da vida do ser humano. E Tomás nos dará duas razões pelas quais as coisas são assim, ou seja, duas razões pelas quais o fim último do ser humano não é o corpo:
- A primeira razão pela qual o corpo, seu desenvolvimento, sua preservação e saúde, não pode ser a meta suprema, o fim último da vida do ser humano é que o corpo é sempre aquela dimensão do ser humano que funciona como meio de relação, ou seja, a dimensão corporal é justamente aquela que permite que o ser humano se relacione com os outros, com o ambiente, com Deus. Não há relação possível sem a mediação corporal. Logo, a preservação e desenvolvimento da dimensão corporal não pode ser o fim último, dado que o corpo é meio para as relações. Fazendo uma analogia, Tomás nos diz que o fim último de um capitão de navio não é a conservação do navio que está sob sua responsabilidade, porque o navio é apenas o meio para as navegações que ele deve empreender. Do mesmo modo, a preservação e desenvolvimento do corpo não é fim, mas meio das ações que o ser humano deve empreender, das relações que deve estabelecer, dos objetivos que deve conquistar. Logo, a preservação do corpo, de sua saúde, de seu equilíbrio, é certamente algo muito bom, mas não tem valor de fim supremo para nós.
- A segunda razão é a seguinte: ainda que imaginássemos que a conservação da existência fosse o fim último do ser humano, temos que lembrar que a alma é a dimensão indestrutível da nossa existência, como já estudamos na primeira parte aqui da Suma Teológica. Sabemos que a alma humana, justamente por sua capacidade de conhecer abstratamente e guardar em si as ideias, não está sujeita à destruição pelo tempo. A passagem do tempo tende a fazer a alma crescer e se desenvolver, mas tende também a fazer o corpo mortal entrar em decadência e perecer. Ora, sabemos que o corpo existe para que a alma possa se relacionar com o mundo, com os outros e com Deus, e portanto a alma tem, para o corpo, a razão de fim. Portanto, o bem do corpo se ordena ao bem da alma, e por isso o corpo, sua saúde, seu desenvolvimento, não pode ter razão de fim último para o ser humano.
Assim, o corpo é importante, é uma dimensão constitutiva e essencial do ser humano, mas não pode ser o sentido da vida, sua preservação e desenvolvimento não pode ser a meta suprema do ser humano.
- Encerrando por enquanto.
Devemos, com Tomás, distinguir entre aquilo que é um bem para o ser humano e aquilo que representa o bem final, o fim último de nossa vida. O mal consiste, justamente, na desordem entre os bens, quando elevamos à condição de bem último aquilo que é apenas um bem subordinado. Isto ocorre quando elegemos a conservação do corpo, seu desenvolvimento, sua saúde, seus músculos, sua beleza, como meta final do nosso viver: desordenamos nossa vida e já não seremos felizes.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos iniciais.
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