1. Introdução.

O que quer que seja a ética, ou seja, a arte do bem-viver, Tomás não a relaciona, como hoje nós fazemos, com a vida social e a maneira de se comportar em público, como se a meta do ser humano fosse agir convenientemente com os outros e fazer o que quiser com relação a si mesmo. ele está procurando algo muito mais profundo, capaz de direcionar nossa vida e dar a regra do bem-viver que, afinal, é o sentido da ética: o que é aquilo que faz do ser humano um ser pleno, realizado, consumado – ou seja, feliz? 

Notemos que, aqui, felicidade não se confunde com prazer ou gozo. Não se trata de viver uma vida de bem-estar hedonista, procurando as delícias e fugindo das dores. Não é isso, definitivamente. O hedonismo não leva à felicidade, mas, ao contrário, como sabemos hoje, à ruína da saúde física e mental. Quando ele fala de felicidade, ele está falando daquela situação em que o ser humano pode saber-se realizado, ainda que sob sofrimento físico e mental. Assim, um soldado ferido na guerra por realizar o seu dever militar de defender sua pátria e sua família é feliz, mesmo sob intensas dores e mesmo sofrimentos psicológicos e até torturas, enquanto um desertor, mesmo vivendo sob riquezas e delícias que aceitou do inimigo, será sempre infeliz. 

O que será isto que caracteriza a felicidade, essa felicidade da realização plena do sentido da vida humana, alcançando aquilo pelo qual existimos e pautando nossas eleições concretas, nossos gestos voluntários? 

Procuramos, nos últimos textos, a felicidade em algo externo ao ser humano, como o dinheiro, a fama, a honra pública, o poder político, e descobrimos que, embora essas coisas possam ser boas em algumas situações, elas não podem ser a realização do ser humano – elas falham no critério de determinar uma plenitude estável, duradoura e valorosa a ser alcançada pelas eleições voluntárias do ser humano, quer dizer, pelos atos propriamente humanos. Não podem ser a meta suprema, o fim último do ser humano. A felicidade deve, portanto, consistir em algo que está no próprio ser humano, não fora dele. Ora, nada pode ser mais próprio, mais pessoal, do que o nosso corpo

Será, então, que a realização do ser humano consiste, como pensam muitos em nosso século XXI, em ter um corpo belo, forte, musculoso, sarado, talvez à custa de exercícios e procedimentos médicos? A saúde, a perfeição física permanente, será esta a razão final de existir, pela qual se devem pautar todas as nossas ações propriamente humanas e nossas escolhas? Vamos ao debate.

  1. A hipótese controvertida inicial.

Será que ser feliz é ter um corpo perfeito, saudável, desenvolvido, musculoso, atlético? será que é esse o nosso objetivo final, será que devemos buscar a saúde e o desenvolvimento pleno do corpo como objetivo de vida, como aquilo que nos fará plenos, realizados, felizes

Há três argumentos iniciais que tentam comprovar essa hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento que tenta comprovar que a saúde do corpo é o bem supremo, a meta final do ser humano, que justifica todas as suas ações e deve pautar suas atitudes e escolhas, vai buscar na própria Bíblia o fundamento para esta posição. De fato, no Livro do Eclesiástico, 30, 16a, está dito: “Não há riqueza maior que a saúde do corpo”. Ora, aquilo que representa a maior riqueza deve ser também o nosso fim último, diz o argumento. Logo, a saúde e o desenvolvimento do corpo são a meta final do ser humano, aquilo em que consiste sua felicidade plena, diz o argumento, sem maiores reflexões.

 O segundo argumento.

O segundo argumento cita o Pseudo-Dionísio, com toda a autoridade que este escritor cristão gozava na época de Tomás. o Pseudo-Dionísio, em uma de suas obras, faz uma espécie de “hierarquia do ser”, afirmando que “ser”, quer dizer, “existir”, é mais fundamental do que “viver”, e “viver” é algo mais fundamental do que todas as outras coisas que se seguem. Ora, mas para que alguém continue existindo, e continue vivo, é fundamental que goze de saúde, porque a doença conduz à morte, que retira a vida e elimina a existência – e alguém que já não existe porque já não vive não pode ser, de nenhum modo, feliz. Logo, a saúde é pressuposto para a existência e para a vida, e, portanto, diz o argumento, ela é a coisa mais fundamental para o ser humano. Portanto, a saúde é o pressuposto mais fundamental para a felicidade, e assim é o bem mais elevado, o fim último da vida humana, diz o argumento, de modo irrefletido. 

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que as coisas mais difundidas, mais universalmente estendidas, são aquelas que dependem dos princípios mais fundamentais, das causas mais poderosas, porque uma causa é tão mais elevada quanto maior for o alcance de seus resultados. Um exemplo pode tornar as coisas mais claras: um pequeno comerciante, por exemplo, é capaz de comandar seu pequeno negócio, mas um imperador de um país rico é capaz de influenciar o mundo inteiro.

Por outro lado, o fim, ou causa final, é aquilo que atrai a vontade, como algo desejável, como bem a ser perseguido. 

Ora, se a causa eficiente mais elevada é aquela que se estende ao maior número de coisas, de modo a influenciar sobre todas elas, então o fim mais elevado deve ser aquele que atrai um maior número de vontades, de modo mais estendido e intenso, de tal modo a influenciar o maior número de seres.

Mas com certeza o que todos os seres querem, em primeiro lugar, é continuar existindo. Mesmo os seres que não são dotados de vontade, como os animais e até os vegetais, desenvolvem instintivamente estratégias de defesa para continuar existindo. Dentre aqueles dotados de vontade, com certeza a vontade mais comum, mais difundida, é aquela que se inclina sempre e em primeiro lugar à própria preservação da existência

Mas, como já vimos no argumento anterior, a saúde é fundamental para conservar a existência. Assim, o argumento conclui, um tanto apressadamente, que a saúde é o bem supremo do ser humano

  1. O argumento contrário à hipótese inicial.

Após termos examinado os argumentos que defendem a hipótese inicial, devemos examinar aquele argumento que impede a sua aceitação pura e simples.

O argumento contrário à hipótese inicial nos lembra que a completude, a plenitude humana, deve ser algo que supera a plenitude dos animais irracionais. 

Ocorre que a maioria dos animais possui atributos corporais que superam as capacidades do corpo humano. As onças correm mais e são mais fortes do que o ser humano, que dificilmente a venceriam num confronto direto. Os elefantes são muito maiores, mais musculosos e mais impressionantes corporalmente do que qualquer ser humano. Qualquer gazela pode vencer qualquer ser humano, mesmo o maior velocista, numa corrida. Uma tartaruga é capaz de viver mais tempo do que qualquer um de nós. 

Assim, não somente a saúde e o desenvolvimento corporal não seriam suficientes para plenificar o ser humano, como sequer poderiam propiciar-lhe a capacidade de superar os animais irracionais. Em suma, se a saúde e o desenvolvimento corpóreo fossem o fim último do ser humano, muitos animais seriam mais felizes do que nós, e teríamos razões até para invejá-los. Logo, o argumento sed contra conclui que a saúde corporal não pode ser o fim último do ser humano. 

  1. Encerrando por enquanto.

O filósofo inglês Stuart Mill, defensor incansável do utilitarismo, afirmava que “é melhor ser um homem infeliz do que um porco feliz”. Ela reflete a ideia de que a felicidade humana, embora possa envolver sofrimento e insatisfação, deve ser superior à felicidade animal, devido à capacidade de raciocínio e apreciação de experiências mais complexas. É por isso que muitas ditaduras, mesmo fornecendo à população alimento e assistência integral à saúde, foram odiadas e sucumbiram, porque falharam em fornecer a possibilidade de florescimento das aptidões propriamente humanas a seus súditos.

Isto indica que ser fisicamente belo, musculoso, saudável, não pode ser o fim último do ser humano. Sem que se possa negar que tudo isso é, sem dúvida, muito bom. Mas não é a meta suprema.

Mas estamos nos adiantando. No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.