- Retomando para concluir .
Estamos, então, certos de que os chamados “quatro bens externos” do ser humano (riqueza, honrarias, fama e poder) não podem ser o fim último, aquilo que dá sentido ao ser humano, que unifica sua vida e a torna uma vida bem realizada. Vimos, ali, que estes bens não implicam nenhum aperfeiçoamento humano para quem eventualmente os adquire, uma vez que estão muito mais relacionados com o acaso e outros fatores sem controle do que com os méritos éticos de alguém. Outrossim, são existencialmente insatisfatórios, instáveis, fugidios e muitas vezes trazem consequências ruins para aqueles que os alcançam ou para os que estão à sua volta.
Munidos desses princípios, vamos examinar os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar que alcançar e exercer o poder seria esse fim último do ser humano, estudando, simultaneamente, as respostas que o próprio Tomás deu a tais argumentos.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento registra que tornar-se o mais semelhante possível a Deus deve ser o objetivo de qualquer vida humana bem-sucedida. Ocorre que, segundo a Bíblia, a maior semelhança de Deus ocorre quando alguém exerce o poder sobre um povo. De fato, em Êxodo 22, 27, as Escrituras chegam a equiparar as blasfêmias contra Deus às agressões contra os governantes. Logo, exercer o poder governamental deve ser a felicidade plena e o fim último do ser humano, afirma apressadamente este argumento.
A resposta de Tomás.
Em Deus, o poder de governo não se distingue realmente de sua bondade infinita, de tal modo que ele sempre governa na plenitude do amor e da bondade. Mas entre os seres humanos não é assim. A bondade humana é limitada e muitas vezes superada pela maldade – como, muitos anos depois de Tomás, o próprio Maquiavel nos ensinou. Assim, os seres humanos que governam somente se assemelha a Deus quando exercem o poder de modo virtuoso, bom e amoroso. Por isso, não é o próprio exercício do poder, mas fazê-lo de modo bom e virtuoso que aproxima o ser humano de Deus.
O segundo argumento objetor.
O ser humano virtuoso e maduro é capaz de se governar, e isso demonstra uma certa perfeição nele. Ora, se ele for, além disso, capaz de governar os outros, então será ainda mais perfeito. Logo, conclui o argumento de modo um tanto imprudente, governar os outros é o fim último do ser humano, que dá sentido à sua vida.
A resposta de Tomás.
Alcançar o poder, exercer o governo sobre os outros, é algo que se pode fazer bem ou fazer mal, como nos demonstra a história. Logo, o simples fato de alcançar e exercer o poder não revela, por si mesmo, nenhuma perfeição excepcional ou virtude desenvolvida no governante, assevera, com toda razão, Tomás. Logo, alcançar e exercer o poder não pode ser o fim último do ser humano.
O terceiro argumento objetor.
A felicidade é aquilo que é mais desejável. Portanto, uma boa pista para descobri-la é encontrar aquilo que é mais odiável – e isto será a coisa mais distante da felicidade. ora, nenhuma situação é mais odiosa, nada os seres humanos temem mais do que a perda da liberdade e a escravidão. Mas o contrário de ser escravo é ser governante, ser um poderoso exercente de poder sobre os outros. Logo, a felicidade consiste em exercer o poder, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, a servidão, ou escravidão, é um sério impedimento à felicidade, porque tolhe a liberdade e impede o pleno desenvolvimento humano. Mas isto não significa que deixar de ser servo, deixar de ser escravo, para ser um senhor de escravos ou de servos – ou mesmo de súditos – representa a felicidade para o ser humano.
- Concluindo.
A felicidade, a completude, a plenitude do ser humano não está nos bens externos. Nos próximos artigos examinaremos outros bens humanos, do corpo e da alma, para verificar qual deles pode nos trazer a verdadeira felicidade e dar significado à nossa vida.
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