- De volta.
Vimos, no texto anterior, a hipótese inicial de que a meta final de vida do ser humano, que dá significado aos seus atos e dirige superiormente a sua vida é a fama, o sucesso, com toda a glória que dela decorre. Vimos os três argumentos iniciais que tentavam comprovar essa hipótese: o primeiro defendia que a felicidade que Jesus prometeu aos Santos, pelas dificuldades nesta vida (as chamadas “bem-aventuranças”) nada mais seriam do que um tipo de fama e sucesso após a morte.
O segundo argumento parte do Pseudo-Dionísio para defender que, se é verdade que o bem deve se difundir, então a fama e o sucesso consiste justamente em ser louvado e aclamado por todos por ser bom em alguma coisa, e portanto são a meta final da vida. Por fim, o terceiro argumento lembra que a fama e o sucesso tornam alguém, de certo modo, lembrado para sempre, e de certo modo imortal.
Por fim, o argumento contrário lembra que a fama pode ser falsa e injusta, e a má reputação é o desprezo popular podem atingir pessoas justas; logo, a fama e o sucesso não podem ser o fim último do ser humano.
Vamos examinar agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Já sabemos que, em sua resposta sintetizadora, Tomás vai considerar a hipótese inicial, os argumentos que a apoiam e o argumento contrário para estabelecer, dialeticamente, sua própria posição no debate.
Aqui, ele começa logo afirmando, com vigor, que o fim último do ser humano, aquilo que dá sentido à sua vida como um todo e a transforma numa vida digna e realizada, não pode ser algo como a fama ou a glória do sucesso humano.
Em primeiro lugar, Tomás define o que devemos entender por fama ou sucesso, a partir da definição de Santo Agostinho. A fama ou sucesso, diz Tomás, é algo como uma popularidade gloriosa, acompanhada de louvor público – citação que Tomás atribui a Ambrósio, mas na verdade é um texto de Santo Agostinho.
Aqui, Tomás vai fazer uma de suas distinções geniais. De fato, diz Tomás, ser popular entre os seres humanos, ser conhecido pelas massas, é diferente de ser popular nos céus, ou seja, ser conhecido por Deus mesmo.
de fato, para que sejamos célebres entre os seres humanos, é preciso fazer alguma coisa, é preciso se expor publicamente e apresentar alguma razão, alguma coisa que cause a celebridade, porque a celebridade entre os seres humanos, ficar conhecido pela população, ser amado pelas multidões, ficar famoso, é uma consequência de algo que se fez ou se é. Em suma, tornar-se uma celebridade, ser famoso, ser popular, não é causa, mas consequência de ser bom em alguma coisa.
Mas perante Deus as coisas não são assim. Na verdade, é por sermos conhecidos e amados por Deus que nos tornamos pessoas melhores, mais felizes, e quanto mais Deus nos conhece e nos ama, tanto mais nos tornamos felizes e completos. Isto é, o conhecimento e o amor de Deus por nós é causa da nossa felicidade, e não consequência dela. Deus não nos ama por sermos bons, mas ao contrário, somos bons porque, e na medida que, Deus nos conhece e ama. Devemos, portanto, almejar sempre a glória e o conhecimento de Deus, dos quais decorrem, por consequência, a glória que devemos almejar para nós mesmos. E, do fato de sermos amados por Deus, poderá advir o fato de sermos também amados pelas pessoas, mas como consequência da glória de Deus em nós, e não da nossa própria glória. Esta é a fama que os santos alcançam: pensemos, aqui, em alguém como São Francisco de Assis: uma vez que foi profundamente amado por Deus, e viveu sempre na graça uma vida de santidade, tornou-se uma celebridade também entre os povos, e hoje desfruta de uma enorme fama entre as pessoas – de tal modo que dificilmente algum artista, algum grande escritor, algum grande político, é tão conhecido mundialmente quanto São Francisco de Assis. É neste sentido, diz Tomás, que se aplica àqueles amados especialmente por Deus o salmo 90(91), 15b-16: Hei de livrá-lo, e de glória coroá-lo, hei de favorecê-lo com longos dias e lhe mostrarei a minha salvação. Esta é a fama, esta é a glória que os santos gozam, e a única capaz de realizar o ser humano.
Assim, devemos nos lembrar de que o conhecimento que as pessoas têm, uns dos outros, é sempre incerto, incompleto, capaz de erro. Por isso, a fama frente aos seres humanos, a popularidade do sucesso frente ao mundo, é sempre algo passageiro e muitas vezes equivocado. A experiência nos mostra que há tantos que recebem as glórias da fama (popularidade, dinheiro, marcas nas calçadas da fama, fãs, celebridade) de modo tão vazio e injusto, enquanto pessoas de bem, verdadeiros heróis da santidade e da fé, são muitas vezes perseguidos e desprezados pela população. Outros, ainda, são célebres num dia, para logo serem esquecidos no dia seguinte.
Mas fazer sucesso no céu é algo que não dá margem a enganos ou erros, não flutua ao sabor dos caprichos da multidão ou de “formadores de opinião” e não é ilusório. Faz sucesso no céu quem é lembrado por Deus, quem é amado por ele, e responde a esse amor com fidelidade e devoção constante e permanente. Porque, como diz São Paulo em 2 Coríntios 10, 18, quem merece aprovação não é aquele que promove a si mesmo, mas aquele a quem Deus promove.
- Encerrando por enquanto.
A fama, o sucesso, a popularidade, e o gozo de tudo isto, não podem ser a meta final do ser humano – ao menos a fama que decorre de motivos simplesmente humanos. Essa popularidade é muitas vezes fugidia, instável, injusta e tem um preço alto, e na maioria das vezes não decorre de razões reais, mas de orgulho, vanglória e manipulação. Se há algum tipo de fama desejável, é a de ter fama de santo, isto é, ser conhecido por Deus e amado por ele, e viver na fidelidade a este amor. Mas isto é algo muito diferente do sucesso mundano.
No próximo texto revisitaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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