1. Introdução.

Fama, sucesso, prestígio, ser aclamado, glorificado, conhecido… ter os pés impressos na Calçada da Fama, ou na capa dos livros, ou ainda no último reality show. Dar entrevistas, pisar no tapete vermelho, ser recebido por reis e presidentes, ser parado na rua para dar autógrafos, ter milhões de seguidores nas redes sociais. tudo isso parece ser, nos dias de hoje, a meta suprema que move as pessoas. No entanto, não são incomuns os suicídios ou os processos autodestrutivos que atingem justamente as pessoas que conseguem realizar esse sonho. 

Será que a fama, o sucesso, a glória da popularidade, são a meta suprema, que dá sentido à vida do ser humano e à sua conduta?

Vamos acompanhar esse debate. 

  1. A hipótese inicial.

A hipótese inicial, proposta para provocar o debate, é a de que a meta suprema, que dá sentido à vida do ser humano e direciona eticamente seu agir, é a fama, o sucesso, com toda a glória que daí decorre. Ver um ser humano realizado, propõe esta hipótese, é contemplar alguém muito famoso e conhecido, que usufrui do prestígio de sê-lo. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. 

  1. Os argumentos iniciais que tentam comprovar a hipótese.

O primeiro argumento.

A felicidade, lembra o argumento, é justamente aquilo que Jesus promete aos santos, ou seja, àqueles que, pela graça e pelas virtudes, suportaram uma vida de lágrimas, tribulações, perseguições e injustiça. Estes, diz a Bíblia, receberão no futuro toda a glória, muito além da proporção dos sofrimentos que suportaram nesta vida (Romanos 8, 18). Assim, diz o argumento de forma um tanto absurda, a vida é uma espécie de reality show, do qual a meta final consiste em receber a glória da fama e do sucesso em pagamento pelas dificuldades vencidas, diz o argumento. 

O segundo argumento.

O bem tende a se difundir, ensina-nos o Pseudo-Dionísio. Ora, é justamente a fama e o sucesso, com a glória que os acompanham, que consistem na realização final do ser humano, pois são a prova de que o bem que fiz e sou difundiu-se pelo mundo – já que a glória, no sentido de tornar-se famoso e reconhecido, consiste justamente, segundo Santo Agostinho, numa popularidade gloriosa acompanhada de louvação e aclamação. logo, a meta final do ser humano consiste justamente em ser publicamente glorificado, isto é, na fama e no sucesso, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

A felicidade que decorre da plenitude da vida, e que resulta de uma vida que atinge seu fim último, é algo duradouro, estável e permanente. Ora, também a glória que vem da fama é assim: sabemos, por exemplo, que grandes escritores, escultores e pintores, bem como determinados estadistas e políticos, permanecem célebres e famosos por séculos, mesmo depois de morrerem. É por isso que Boécio, grande pensador cristão dos primeiros séculos, costumava dizer: aqueles que buscam ser célebres para a posteridade estão trabalhando para perpetuar sua imortalidade. Assim, tornar-se célebre, chegar à glória da fama, é a meta última da vida do ser humano, conclui o argumento, de modo apressado.

  1. O argumento contrário.

Sabemos que, depois de apresentar os argumentos que tentam comprovar a hipótese inicial, Tomás sempre apresenta algum argumento que nos impediria de aceitá-la.

O argumento sed contra, no presente artigo, nos diz que o verdadeiro objetivo do ser humano, aquilo que faz a vida ter sentido, que faz de alguém uma pessoa realizada e feliz, deve ser algo consistente, verdadeiro, certo, permanente e estável. Ora, muitas pessoas íntegras e virtuosas tiveram sua imagem publicamente manipulada de modo a atrair contra si a opinião pública por ataques levianos à sua boa fama. Em outros casos, pessoas medíocres atingiram a celebridade, a fama, o sucesso perante a opinião pública por motivos falsos ou levianos, de tal modo que elas próprias, em certos casos, tiveram vergonha da fama injusta que obtiveram. Portanto, a realização do ser humano, seu fim último, não pode ser a fama, a glória, o sucesso, conclui este argumento, contrariando a hipótese inicial. 

  1. Encerrando por enquanto.

Estamos numa era que valoriza muito a fama e o sucesso; muitos crêem realmente que a imortalidade vem do prestígio obtido em razão da fama. Não é à toa que os membros das Academias de Letras, por exemplo, chamam-se de imortais, sob a presunção de que sua fama, sua obra, seus pensamentos, jamais desaparecerão. No entanto, muitos foram simplesmente enterrados e esquecidos pelo público, ou mesmo tornaram-se irrelevantes depois de algum tempo. Será que podemos dizer que eles são realmente exemplos de seres humanos realizados, felizes e plenos?

Debateremos mais sobre isto no próximo texto.