1. Para finalizar.

Ser honrado, ser reconhecido por sua própria excelência, ser louvado por seus méritos e realização, tudo isso é bom, e pode ser buscado – embora seja muito difícil fazê-lo sem caIr no orgulho e na autopromoção. Ainda assim, diz Tomás, a busca da honra e do reconhecimento não pode ser o fim último do ser humano – e o motivo é simples. De fato, uma honraria vale tanto quanto vale a honra de quem a concede – que deve ser mais notável do que aquela de quem a recebe. Isto é, para que uma honraria seja desejável, é preciso que aquele que a concede seja mais honorável do que quem a recebe. Ninguém almeja uma medalha de honra concedida por um líder do crime organizado, ou uma medalha de bravura concedida por um general de exército derrotado por ser covarde em batalha. 

Assim, como lembramos, Tomás nos diz que a honraria não pode ser o fim último, a meta final do ser humano, simplesmente porque receber honrarias, ainda que merecidas e devidas, não é a posição mais elevada sequer no processo de recebê-la. De onde se conclui que ser publicamente homenageado não pode ser o fim supremo dos seres humanos. 

De posse destes princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, estudando as respostas de Tomás a eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o próprio Aristóteles nos ensina que a felicidade, estendida como o gozo da plenitude, é a recompensa de viver uma vida virtuosa. Mas o próprio Aristóteles nos ensina, também na Ética a Nicômaco, que é, em primeiro lugar, por meio de receber honrarias que a vida virtuosa é recompensada. Logo, conclui o argumento, as honras são o fim último do ser humano, e equivale a desfrutar da plenitude de uma vida completa. 

A resposta de Tomás.

Na mesma obra, o próprio Aristóteles nos ensina que as honrarias que são oferecidas às pessoas virtuosas não podem ser consideradas como o fim último da busca de viver uma vida de desenvolvimento árduo das virtudes – em suma, as pessoas virtuosas não estão desenvolvendo arduamente suas virtudes para receber honrarias, mas para obter felicidade, entendida como o gozo da plenitude de uma vida completa. De fato, se os virtuosos Às vezes recebem honrarias, isto se dá porque aqueles que concedem honrarias aos virtuosos fazem-no porque julgam que não haveria nada mais elevado para dar a eles do que honrá-los publicamente. Mas se o objetivo final dos virtuosos fosse receber tais honrarias, já não seriam virtuosos, mas, na verdade, vaidosos e ambiciosos.  

O segundo argumento objetor.

Se alguém é pleno, perfeito e completamente satisfeito com isso, esse é Deus. Sendo perfeito, ele deve necessariamente desfrutar da felicidade que vem da situação de quem atingiu o bem completo. Assim como seus Santos Anjos e todos os que morreram em amizade com ele, que desfrutam da mesma felicidade por estarem associados àquele que é feliz por essência. Ora, aquilo que é próprio de Deus, que cabe a ele acima de tudo, é ser honrado, como diz São Paulo em 1 Timóteo 1, 17: a Deus toda a honra e a glória. Portanto, a honra é justamente aquilo que representa a felicidade plena, que é, no fim das contas, o fim último do ser humano, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

O fato de que devemos honrar a Deus e a seus santos não é a causa de sua felicidade plena e eterna, mas é consequência de que Ele é perfeito, livre, completo e feliz em si mesmo. Não devemos, pois, tomar a consequência como causa.

O terceiro argumento objetor.

A felicidade consiste naquilo que o ser humano deseja mais ardentemente. Ora, prossegue o argumento, a coisa que as pessoas mais protegem, e mais se ferem quando é destruída, é a honra, quer dizer, a boa imagem pública – e mesmo subjetiva – que as pessoas cultivam. Tanto é assim que, muitas vezes, as pessoas suportam pacientemente mesmo agressões físicas, mas não toleram a menor agressão à sua honra. Logo, a honra é o que há de mais importante, mantê-la, fazê-la crescer e vê-la reconhecida deve ser, então, a meta suprema do ser humano, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Vimos, na resposta à primeira objeção, que as pessoas costumam dar honra a quem é virtuoso, pleno e, portanto, feliz. Logo, é natural que as pessoas desejem manter a boa fama e a boa opinião  junto às pessoas que elas consideram como sábias. honradas e felizes, já que essas pessoas são exemplares quanto à felicidade, e, portanto, aqueles que buscam ter a boa opinião dos sábios e felizes a seu favor no fundo desejam se manter no caminho que leva à sabedoria e à felicidade – por isso, a honra e a boa fama são consequência, e não causa, da virtude e da felicidade. 

  1. Concluindo.

Muitas vezes, pessoas virtuosas passam por problemas seríssimos quanto à sua honra e boa fama, enquanto pessoas viciosas gozam da consideração da comunidade. Pensemos, aqui, na posição dos alemães que defenderam judeus e outras minorias durante o regime nazista, ou mesmo dos mártires cristãos no Imperio Romano. De fato, ser virtuoso e pleno não pode coincidir simplesmente com ser honrado por outras pessoas. Ao contrário, como ensina São Francisco, a perfeita alegria está em conservar a paz, mesmo sob injustiças.