1. Retomando.

Vimos, no último texto, a hipótese inicial, bastante problemática, de que a meta final, o bem supremo, o fim último do ser humano, que pauta suas ações e escolhas e dá sentido à sua vida, seria a de ser honrado, ou seja, de ser publicamente louvado e reconhecido por seus méritos e virtudes. Vimos os três argumentos que tentavam provar essa hipótese. o primeiro argumento diz que, uma vez que a plenitude e felicidade perfeita é o prémio da virtude, ter essa virtude ou mérito reconhecida publicamente, ou seja, ser honrado de modo público, é o fim da vida humana. O segundo argumento diz que Deus é feliz e pleno por completo, e a ele cabe a honra e a glória pelos séculos dos séculos (1 Timóteo 1, 17). Logo, ser honrado é o objetivo do ser humano, se quer ser divinamente feliz. Por fim, o terceiro argumento diz que aquilo que os seres humanos mais desejam é aquilo que é mais importante para eles; ora, ninguém pode temer algo mais do que perder publicamente sua honra. Assim, ser honrado publicamente, diz o argumento, é o maior fim do ser humano. 

O argumento contrário lembra que, quando se é honrado publicamente, aquele que concede a honraria é sempre maior do que aquele que a recebe – basta lembrar que é o superior hierárquico quem concede, por exemplo, medalhas e promoções na vida militar. Logo, receber honrarias está abaixo de concedê-las, e portanto receber honrarias não pode ser a coisa mais elevada da vida humana. 

Postos estes termos do debate, estudemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás. 

Ser honrado, receber homenagens públicas, reconhecimento e honrarias, não pode ser o fim último da vida humana. De fato, as honrarias e o reconhecimento são concedidos a quem demonstra se destacar em algum aspecto da vida, ou seja, em quem demonstra alguma perfeição ou mérito notável em algum aspecto de sua vida. portanto, a honraria não é, ela própria, uma perfeição ou plenitude de virtude, caráter ou mérito, mas apenas o reconhecimento público de uma perfeição ou plenitude desse tipo.

Ora, uma pessoa se torna notável ou honorífico por ostentar algum tipo de mérito, perfeição ou plenitude, seja no conjunto de sua vida, seja em algum aspecto dela, como na guerra ou no serviço público ou de caridade, por exemplo. ou seja, num daqueles aspectos que tornam o ser humano pleno e feliz. 

Assim, conclui Tomás, as honrarias têm por base a plenitude e a felicidade do ser humano, são decorrência, e não causa, delas. 

Por isso, as honrarias não podem ser a causa da plenitude, mas, ao contrário, são consequência dela. Por isso, elas não podem ser o fim último do ser humano: é preciso ser pleno, feliz, realizado, para ser honrado, e não o contrário. Quem busca as honrarias por si mesmas, e não como consequência de ter méritos, não encontrará felicidade. 

  1. Encerrando.

As honrarias não podem ser objetivo da vida. Sabemos o que acontece com aqueles que buscam as honrarias, as homenagens, o reconhecimento como um fim em si mesmo: são pessoas frágeis, dadas a serem bajuladas, vaidosas e superficiais. Portanto, receber honra e reconhecimento público é bom, mas não como objetivo final da vida. 

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.