- Introdução.
Aquilo que é o bem último, a meta final do ser humano, é também aquilo que define seu modo de agir. Toda a ética, para Tomás – como para Aristóteles – é o caminho para chegar à completude, à perfeição, à felicidade completa. Portanto, a ética inicia pela busca daquilo em que consiste a felicidade. Vimos nos textos anteriores que, embora o dinheiro seja necessário e os bens materiais sejam importantes, eles são sempre meios, e não fins, e por isso a felicidade final não pode consistir em acumulá-los – e portanto a ética não se confunde com a ciência econômica. Agora, a questão é outra: será que a felicidade consiste na honra, entendida como o reconhecimento público da excelência moral e virtude de uma pessoa, especialmente da sua retidão e dignidade? Eis o debate que se seguirá.
- A hipótese controvertida inicial e seus argumentos de suporte.
A hipótese inicial, para provocar o debate, consiste justamente em propor que, aparentemente, a felicidade do ser humano consiste justamente nesse reconhecimento público de sua excelência moral e virtude, de sua retidão e dignidade. Ao ser publicamente reconhecido como alguém admirável, o ser humano teria alcançado a felicidade, propõe a hipótese inicial. Há três argumentos que tentam confirmar essa hipótese, que chamados de argumentos objetores, pois visam justamente refutar quaisquer objeções à hipótese inicial. Vamos examiná-los.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que o próprio Aristóteles, no Livro I da Ética a Nicômaco, ensinava que a felicidade, ou completude, é o prêmio da virtude. Ora, prossegue o argumento. Ora, ser reconhecido publicamente como virtuoso é o prêmio maior do virtuoso, diz o mesmo Aristóteles no Livro IV da mesma obra – ou seja, ser publicamente honrado é exatamente alcançar a felicidade. Logo, a felicidade, como fim último do ser humano, consiste em ser honrado publicamente, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Não podemos ter dúvida de que, se alguém é plenamente feliz, esse é Deus – junto com seus santos e anjos no céu. Ora, essa felicidade plena de Deus e de seus bem-aventurados anjos e santos no céu consiste justamente em ser honrado publicamente, pois assim diz a Bíblia (1 Timóteo 1, 17): “Ao Rei dos séculos, Deus único, invisível e imortal, honra e glória pelos séculos dos séculos! Amém”. Portanto, receber honra publicamente é o fim último do ser humano e sua felicidade, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Por fim, para tentar comprovar a hipótese inicial, o terceiro argumento objetor lembra que a felicidade plena é aquilo que os seres humanos mais desejam. Mas nada é mais ofensivo e grave para um ser humano do que ser desonrado publicamente, ser ferido em sua honra; de tal modo que os seres humanos costumam suportar grandes provações, contanto que sua honra não seja publicamente manchada. Assim, conclui o argumento de modo um tanto ilógico, a coisa mais importante, o bem completo, a meta final do ser humano consiste na honra pública.
O argumento contrário à hipótese inicial.
O argumento contrário, que impediria a aceitação da hipótese inicial, é também chamado de argumento sed contra, e normalmente é retirado de alguma fonte com muita autoridade. No presente caso, é do próprio Aristóteles, que, falando sobre ser publicamente reconhecido e honrado, diz que a meta final, o fim último do ser humano não pode consistir em ser publicamente honrado. E isso, diz Aristóteles, por um motivo muito simples: quando recebo alguma honraria pública, como uma medalha, um diploma ou um prêmio, essa honraria tem valor porque aquele que a confere tem alto grau de credibilidade pública. Assim, no fundo, quem presta a honraria é muito mais honrado e reconhecido do que quem a recebe, porque de outro modo a honraria não seria importante. Ora, se é assim, receber uma honraria revela muito mais honra em quem presta a honraria do que em quem recebe. Portanto, o mais alto grau de felicidade não pode consistir em receber honrarias, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Continuamos em busca daquilo que de mais elevado, de mais relevante um ser humano pode alcançar para ser feliz. Ser honrado, homenageado, parece uma boa pista; mas, pelo debate, talvez já possamos intuir que, mesmo alcançando homenagens e honrarias, o ser humano ainda não atingiu seu fim último e ainda não pode ser considerado pleno e feliz. Mas veremos mais sobre isto no próximo texto.
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