- Retomando para concluir.
A felicidade é o fim; não se trata, aqui, do prazer ou das emoções, mas do atingimento da plenitude humana – o que, às vezes, envolve o desprazer e o desconforto para ser atingido. Um soldado que pratica o heroísmo na guerra com certeza é feliz, embora o covarde possa, eventualmente, sair mais ileso e viver uma vida mais longa e até prazerosa. Mas com certeza será uma vida vergonhosa, e portanto não plena nem satisfatória.
O acúmulo de riquezas materiais não pode ser um fim desse tipo. De fato, os bens materiais podem ser meios para o prazer, a satisfação e até para a fama e o prestígio, mas não é, em si mesmo, algo que traga esse tipo de resultado. Para que a fortuna material possa realizar esses objetivos, precisa ser gasta – o que é o contrário do fim último, que consiste em algo que deve ser retido, mantido e até aumentado.
De posse desses princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que aquilo que deve ser nosso objetivo final, nossa felicidade plena, deve ser aquilo que mais nos atrai, aquilo pelo que mais ansiamos. Ora, o que mais atrai a vontade humana em maior grau é o dinheiro, já que a própria Bíblia nos ensina: “todas as coisas obedecem ao dinheiro” (Eclesiastes 10, 19). Assim, ser muito rico é a felicidade, a meta suprema para o ser humano, conclui o argumento levianamente.
A resposta de Tomás.
De fato, quem tem muito dinheiro tem acesso a todas as coisas que estão no mercado, isto é, às riquezas materiais. A maioria das pessoas tolas realmente acredita que o desfrute das coisas que podem ser compradas e vendidas são a fonte mais elevada de felicidade, e realmente acham que os muito ricos, que podem comprar muitas coisas caras e raras, são os mais felizes. Ignoram que as pessoas muito ricas muitas vezes são muito infelizes, e mesmo quando são felizes, não o são por causa da riqueza acumulada, mas pela sabedoria em usá-la. Imaginar que a felicidade está no simples acúmulo de riqueza é falta de sabedoria, e não devemos tomar os tolos, mas os sábios, como exemplo de onde buscar a felicidade. Do mesmo jeito que, quando queremos alguém que nos guie pelo mundo dos sabores, não devemos buscar um glutão, mas um gastrônomo.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que o grande filósofo cristão Boécio dizia que a plenitude da felicidade é o estado de perfeição pela reunião de todos os bens. Mas se as coisas são assim, então o dinheiro é a felicidade, porque, como nos lembra o próprio Aristóteles, a moeda foi inventada para ser o meio universal de troca, com o qual o ser humano pode obter tudo o que quiser. Assim, a plenitude da felicidade consiste em ficar muito rico, conclui estultamente o argumento.
A resposta de Tomás.
É verdade que o dinheiro pode adquirir os bens que estão no comércio. Mas ele não adquire aquilo que não é passível de comercialização, como os bens espirituais – o amor, a confiança, a compreensão, a amizade verdadeira e especialmente a sabedoria e a amizade de Deus. É por isso que a Bíblia nos ensina: de que adianta muito dinheiro na mão do insensato, se ele não pode adquirir, com ele, a sabedoria? (Provérbios 17, 16).
O terceiro argumento objetor.
O anseio pela meta final, pelo sumo bem, que sacia plenamente o ser humano, tem uma dimensão inesgotável, porque nunca cessa. Ora, a Bíblia nos ensina que o desejo por dinheiro é desse tipo, do tipo que nunca se esgota. Diz o Eclesiastes (5, 9): Quem ama o dinheiro nunca se fartará. Portanto, alcançar o sucesso financeiro é o sumo bem do ser humano, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
O desejo dos bens materiais não é infinito. De fato, mesmo se eu estiver com muita fome, após consumir uma quantidade de alimento minha fome cessará, e a comida já não me apetecerá. Assim, diz Tomás, não são as chamadas “riquezas naturais (os bens como o alimento, o vestuário, a moradia, etc.), que despertam a cobiça inesgotável, mas são as chamadas “riquezas artificiais”, como o dinheiro e coisas similares – ativos financeiros, capital, etc.
Mas a ganância por riquezas artificiais é diferente do apetite pelo sumo bem, que realiza profundamente a minha vida e me torna um ser humano realmente feliz.
De fato, o apetite pelo sumo bem não se esgota porque não é possível se cansar da verdadeira felicidade. Quanto mais eu atinjo aquilo que me completa, que me aperfeiçoa, mais tenho vontade de me aperfeiçoar, de ser feliz, de ser pleno. Mais percebo que a verdadeira felicidade torna relativos os desejos pelas outras coisas, porque preenche de verdade minhas necessidades mais profundas e me dá a alegria de sempre querer ser mais feliz, mais pleno. É por isso que a Bíblia nos diz: “Aqueles que me comem terão ainda fome, e aqueles que me bebem terão ainda sede” (Eclesiástico 24, 29). Não se trata, aqui, de ganância, mas de alegria no bem.
No caso da ganância por riquezas e dinheiro, porém, acontece o contrário: quando os adquiro, rapidamente me entedio e desejo adquirir outras coisas maiores e melhores. Se compro um automóvel de luxo, logo há um novo modelo, mais moderno e potente, sendo anunciado. Se consigo entesourar um milhão de dólares, logo percebo que outros possuem dois milhões, e me sinto pobre com relação a eles e busco adquirir mais, já não encontrando satisfação na meta anterior. É por isso que o próprio Jesus, na conversa com a mulher samaritana, ensina: “Todo aquele que beber desta água” – referindo-se aqui aos bens materiais, naturais ou artificiais – “tornará a ter sede” (João 4, 13).
Adquirir bens materiais e fortuna financeira não é algo que faz saciar a vontade, mas, ao contrário, ao adquiri-los, a insuficiência dessas coisas para a felicidade plena fica ainda mais evidente. Em suma, são imperfeitos e a felicidade plena, o sumo bem do ser humano não pode consistir neles.
- Concluindo.
Tomás não condena a posse de riquezas, de dinheiro ou de bens materiais. Ele sabe que são, muitas vezes, necessários à vida ou úteis para as boas obras. Mas não são o objetivo final. E é bom que seja assim: se a riqueza material fosse o sumo bem, a ética também seria pautada na aquisição de fortuna, e coisas como enganar, furtar e se apropriar seriam lícitas, desde que bem-sucedidas. Há quem pense assim; enganam-se, porém, e não alcançarão o mais importante. Não serão felizes.
Deixe um comentário