- Retomando.
Jesus trata com muita dureza os ricos. De fato, afirma textualmente: “é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” (Mt 19, 24). De fato, vimos que o fim último do ser humano é aquele estado de plenitude, de repouso na saciedade de todas as inclinações, de todo desejo, de descanso da vontade no preenchimento de tudo que ela pode desejar. E a riqueza parece ser capaz de comprar tudo o que é necessário para isso. Ou não?
Vimos no texto anterior a hipótese inicial de que a riqueza seria a própria felicidade, isto é, ela seria a meta final, o objetivo último capaz de saciar o ser humano na plenitude. Vimos três argumentos em favor desta hipótese: Eclesiastes 10, 19, que ensina que “todas as coisas obedecem ao dinheiro”, a ideia de Aristóteles de que o dinheiro foi inventado para que o ser humano pudesse adquirir qualquer coisa que desejasse, e por fim, o argumento de que, sendo a felicidade inesgotável, também o desejo por mais dinheiro o é: que “aquele que ama o dinheiro nunca se fartará dele”’, (Eclesiastes 5, 9). Por fim, o argumento contrário, retirado de Boécio, lembra que o fim último deve ser a própria satisfação, a própria plenitude, e que o simples acúmulo de dinheiro não é capaz de gerar essa satisfação, sendo certo que o dinheiro é sempre um meio para adquirir aquilo que se faz necessário, e não o fim mesmo da vontade humana.
Veremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás a este debate.
- A resposta de Tomás.
Definitivamente, diz Tomás, a felicidade não pode consistir em se tornar muito rico, pleno de bens materiais e dinheiro.
De fato, diz Tomás, Aristóteles nos ensina que há duas espécies de bens que podem ser chamados de “riquezas”, e que podem tornar alguém materialmente bem afortunado:
- O primeiro tipo de riqueza é aquilo que chamamos de “riquezas naturais”, aqueles bens materiais que são capazes de atender diretamente a alguma necessidade humana. Estão nesta categoria as comidas, as bebidas, as roupas, os meios de transporte, as casas, as medicações e outras coisas similares.
- O segundo tipo de riqueza é aquilo que chamamos de moeda, ou seja, aqueles meios de pagamento que são próprias para ser trocadas pelos bens materiais que atendem às nossas necessidades diretas, porque são medida do valor delas, para a aquisição.
Ora, os bens naturais que atendem às nossas necessidades fundamentais não podem ser o fim último do ser humano; na verdade, elas são aquilo que nos permite ter as condições de força, saúde, segurança e conforto para que possamos atingir nossos fins. É óbvio que aquilo que existe para um fim não pode ser o fim. Ninguém, por exemplo, vive para se alimentar, ou para beber. Ao contrário, nos alimentamos e nos hidratamos para viver. Logo, essas coisas, ainda que possam ser acumuladas como riquezas, não podem ser o fim último do ser humano. São coisas feitas para o ser humano, úteis e necessárias a ele, mas estão submetidas aos fins humanos, e não o contrário; como diz o Salmo 8, 7, que ensina que Deus nos deu poder sobre as obras de suas mãos, submetendo a nós todo o universo.
E as chamadas “riquezas artificiais”, como o dinheiro, o ouro e outros meios de compra como títulos e ações?
Não há dúvida de que muita gente coloca essas coisas como fim último de sua própria vida. Mas o fazem de modo equivocado: o simples acúmulo de riquezas deste tipo, de muito dinheiro, não representa a plenitude humana. o dinheiro só tem sentido porque é capaz de comprar as coisas de que necessitamos, que desejamos, que sonhamos. Ora, se ele é um meio para a aquisição de outras coisas, então não pode ser, ele mesmo, a meta final, o fim último do ser humano. engana-se, pois, quem coloca como objetivo final de sua vida o acúmulo exagerado de bens ou de dinheiro – a plenitude não pode estar nisso.
3. Encerrando por enquanto.
Há um velho ditado que diz: “dinheiro não traz felicidade: mas manda buscá-la”. Ele é falso. O dinheiro, assim como os bens materiais, são importantes e necessários. Mas não são, nem podem ser, a própria plenitude humana. A felicidade não pode estar no acúmulo, no enriquecimento como um fim em si mesmo. Quem quer que imagine que será pleno, feliz, satisfeito e completo apenas por ser rico está muito enganado. Portanto, o acúmulo de riqueza, quer de bens primários, quer de bens secundários, não pode ser aquele fim último que representa a plenitude humana – embora tais bens sejam, de fato, necessários ao ser humano.
Neles não está a plenitude.
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