- Introdução.
Vimos, então, que uma vida orientada tem um fim último que lhe dá unidade e sentido, e que esse fim último é o mesmo para todo ser humano – e somente para o ser humano. E que esse fim último consiste em atingir a plenitude, repousar a vontade, chegar à perfeição, voluntariamente, de tal modo a não precisar desejar mais nada. Dito isto tudo, permanece uma pergunta muito prática: como chegar até aí?
A este ponto, deve parecer claro que isto que Tomás chama de plenitude, de felicidade, é algo que traz um grau de mistério: não é algo que se realize por si mesmo. É preciso, pois, imaginar o que é aquela meta que, na prática, vai nos permitir a felicidade.
Num primeiro exame, pareceria que essa meta, ser pleno, ser feliz, alcançar a satisfação de todos os desejos a ponto de não precisar de mais nada além do que se alcançou, somente estaria aberta para os muito, muito ricos. O dinheiro seria desejado, portanto, não porque o objetivo seja acumular dinheiro pelo próprio dinheiro, mas porque se acredita que, tendo dinheiro, poderemos enfim ser felizes, viver uma vida perfeita, alcançar a plenitude da satisfação. Mas será que as coisas são mesmo assim?
O debate, aqui, é muito simples: será que a felicidade consiste em ser muito, muito rico? Vamos ver.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese a ser debatida, neste primeiro artigo, é aquela que nos diz que a felicidade repousa em ser muito, muito rico, e portanto a meta a ser perseguida, para ser feliz, é a de ficar rico. Há três argumentos iniciais que tentam nos provar que esta hipótese é verdadeira.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento que tenta comprovar a hipótese de que ficar rico é a meta final da felicidade humana traz um argumento bíblico – que poderia facilmente ser utilizado, ainda hoje, por certas correntes da chamada “teologia da prosperidade”.
De fato, o argumento cita Eclesiastes 10, 19, que, no finalzinho do versículo ensina que “todas as coisas obedecem ao dinheiro”. Ora, ter muito dinheiro significa, portanto, controlar todas as coisas, e esta deve ser a verdadeira felicidade; portanto, a verdadeira felicidade consiste em tornar-se muito rico, acumular muito dinheiro, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Para Boécio, esse grande sábio da antiguidade cristã, a felicidade consiste num estado perfeito em que todos os bens estão reunidos. Ora, prossegue o argumento, o dinheiro é exatamente aquilo que pode reunir todos os bens, já que, segundo o próprio Aristóteles ensinava, a moeda foi inventada para garantir que o ser humano pudesse adquirir tudo aquilo que ele desejasse. Portanto, a felicidade humana consiste em tornar-se tão cheio de dinheiro quanto possível, para poder adquirir tudo o que desejar, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
As pessoas nunca deixam de desejar o bem supremo. Isto é algo que prossegue infinitamente, uma inclinação que nunca deixa de existir. Ora, essa é uma característica muito própria do desejo de dinheiro: o ambicioso nunca deixa de desejar o dinheiro, por mais que o possua. Esse também é o testemunho das Escrituras, que nos ensinam que “aquele que ama o dinheiro nunca se fartará dele”’, (Eclesiastes 5, 9). Está claro, portanto, que o dinheiro é o que move o desejo de infinito, e portanto no acúmulo de dinheiro é que está a felicidade, conclui levianamente o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento contrário à hipótese inicial é bem sofisticado, e é retirado do grande filósofo cristão da antiguidade, Boécio. Este pensador diz que é próprio da felicidade humana ser cumulativa, ou seja, ela tende a se acumular, a aumentar, a crescer progressivamente conforme se aumenta a felicidade. A felicidade verdadeira tende sempre a crescer, e não a desgastar-se.
Ora, o dinheiro não se junta para simplesmente ficar acumulado. Quem juntasse uma grande fortuna e a escondesse num cofre, por exemplo, recusando-se terminantemente a gastá-la, na opinião de que o simples ato de amontoar notas e moedas fosse representar a felicidade para ele, estaria muito enganado. O dinheiro, diz Boécio, existe para ser gasto naquilo que atende às necessidades, aos prazeres lícitos, à alegria, à partilha, e aquele que sabe gastar com sabedoria, inclusive para produzir mais riqueza, é muito mais feliz do que aquele que entesoura e ajunta apenas pelo prazer de reter o dinheiro acumulado. Portanto,se a felicidade é algo que não se gasta, e o dinheiro só nos faz feliz se for bem gasto, então a felicidade não pode estar no acúmulo de dinheiro, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
A felicidade pode ser comprada? Estaria ela na posse do dinheiro? Será que aquele que tem no acúmulo do dinheiro a meta única da sua vida acredita que é o dinheiro acumulado que lhe fará feliz, ou será que ele crê que, possuindo dinheiro em grandes proporções, será capaz de comprar aquilo que lhe for necessário para ser feliz? A felicidade seria inatingível por quem não dispusesse de largas somas de dinheiro?
São problemas grandes e muito interessantes. Nos próximos textos prosseguiremos este debate.
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