1. Retomando para finalizar.

Todas as coisas procuram a própria perfeição, e a perfeição de todas as coisas está em Deus. Neste sentido, é o mesmo o fim último de todas as criaturas: dar glória a Deus, chegando a ser aquilo que ele quer que sejam. 

Mas há algo que caracteriza as criaturas humanas: por um lado, estão sujeitas a um processo físico de maturação que não depende de suas escolhas; mas, por outro, são capazes de conhecer o fim, conhecer a meta, e buscá-la de modo ativo. Neste sentido, são diferentes tanto das criaturas simplesmente materiais, por um lado – já que estas, embora busquem o mesmo fim, não o fazem de maneira deliberada e consciente – quanto das criaturas angelicais, que são capazes de conhecer seu fim num instante e escolhê-lo em um só ato, de maneira irrevogável e permanente – sem sujeição ao desenvolvimento histórico progressivo pela passagem do tempo. É neste sentido que dizemos que o ser humano tem um fim último próprio; sua busca de perfeição, de plenitude, tem um modo próprio de ocorrer. 

E a consequência disso é que, dentre as criaturas materiais, somente o ser humano pode refletir sobre o fim, quando alcançado, e pode viver o repouso de toda inclinação e de todo desejo que os antigos chamavam de felicidade. Os animais, as plantas e – obviamente – os seres inanimados não podem experimentar a felicidade, porque ela é um estado de conhecimento do bem sob todos os aspectos  e de repouso voluntário de todas as inclinações nele. Somente o ser humano, no mundo material, é capaz de especular sobre o bem universal e de buscá-lo: os outros seres buscam bens particulares: talvez uma presa, um ato sexual, uma sombra como abrigo ou mesmo uma água fresca para a sede. Mas o prazer que sentem ao alcançar estes bens concretos não se compara ao deleite humano, se o bem universal é atingido. É a isto que chamamos de felicidade, e falaremos mais sobre isto em outros debates. 

No momento, importa dizer que há, sim, um fim último propriamente humano, e que pode ser discernido pelo mesmo caminho que nos faz alcançá-lo – pelo uso racional da inteligência. 

De posse desses princípios, vamos reexaminar brevemente os argumentos objetores iniciais. Lembramos que, neste artigo da Suma, Tomás não faz este exercício, porque ele julga – muito corretamente – que sua resposta sintetizadora já foi suficiente. Nós, porém, que não temos a profundidade com que os medievais estudavam a Suma, acreditamos que é um bom exercício para ser feito. Vamos a ele.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o fim, no sentido de meta, corresponde ao princípio de alguma coisa. Para dar um exemplo: se alguma coisa tem por princípio uma concepção militar, seu fim deve ser o uso militar; se alguma coisa tem sua origem no meio médico, seu fim deve ser o uso médico, e assim por diante. Ora, o princípio de todas as coisas, de todo o universo criado, é o próprio Deus. Ele deve ser, portanto, também o fim de todas as coisas. Deste modo, o argumento quer concluir, de maneira um tanto imprudente, que não há um fim específico para o ser humano, mas que todas as criaturas têm o mesmo fim, que é Deus. 

Respondendo.

Diremos que, de fato, o fim de todas as coisas, inclusive do ser humano, é Deus. Mas somente o ser humano busca Deus de modo deliberado, conhecendo o seu fim e elegendo os meios adequados para alcançá-lo. Somente para o ser humano essa busca se dá de modo histórico, isto é, num contexto de tempo e espaço determinados, e envolve aquilo que poderíamos chamar de ética – a busca deliberada e consciente do bem pleno. Assim, há um fim próprio para o ser humano, que, embora não seja materialmente diferente daquele fim próprio de toda a criação, é formalmente diferente. Logo, o ser humano possui, realmente, um fim último que lhe é específico.

O segundo argumento objetor. 

O segundo argumento vai no mesmo sentido, mas cita o Pseudo-Dionísio para lembrar que o Universo criado não é algo desprovido de sentido nem guiado por forças cegas; ele é dirigido por Deus, que, por Sua maravilhosa e infalível providência, conduz tudo para si mesmo como fim último. Ora, se o ser humano está no universo, e se somente Deus é o bem pleno, então o ser humano também é conduzido por Deus, por Sua providência, para o mesmo fim que todas as outras criaturas: ele mesmo. Logo, o ser humano não tem um fim diferente daquele de todas as criaturas, conclui o argumento de modo súbito. 

Respondendo.

Repetindo, sabemos que o fim último é sempre Deus. Mas, diferentemente das outras criaturas, o ser humano não é simplesmente movido de modo passivo por Deus, mas move-se voluntariamente para Ele, reconhecendo-o e buscando-o com sua inteligência e vontade. Logo, o fim último do ser humano é diferente, quanto ao modo de atingir-se, frente ao das demais criaturas. 

O terceiro argumento objetor. 

Já sabemos que o bem é aquilo que atrai a nossa vontade. Mas a nossa vontade tem uma abertura ao bem universal, como a nossa inteligência tem uma abertura à verdade universal. Neste ponto, o argumento diz que o bem universal inclui em si o bem particular de todas as criaturas, e portanto não é diferente dele. Logo, no fundo, todas as criaturas têm o mesmo fim, conclui de modo um tanto irrefletido este argumento. 

Respondendo.

O bem universal não é simplesmente a soma de todos os bens particulares. Na verdade, o bem universal é o próprio Deus. É claro que cada criatura que atinge seu próprio bem particular (como os seres vivos que se multiplicam, desenvolvem-se, alimentam-se, habitam os espaços vazios) dão glória a Deus na medida que exprimem, no mundo criado, um pouco da perfeição plena que é só Dele. Mas o ser humano não existe para alcançar apenas algum tipo de bem particular, senão o próprio bem universal que é Deus. Neste sentido, nosso fim último é diverso daquele de todas as outras criaturas.

  1. Concluindo.

Nosso fim último, aquilo que nos faz dar glória a Deus por atingir aquilo que ele espera que sejamos, representa nossa felicidade. Não porque a própria felicidade seja o objetivo que buscamos diretamente: ela é sempre consequência de atingir algum tipo de perfeição. Aquele que busca a felicidade diretamente pode ter a certeza de que não vai atingi-la. Como ser feliz? Torna-te o que Deus espera que tu sejas. Ao longo desta primeira seção desta segunda parte da Suma, estudaremos exatamente isto. Por enquanto, ao longo dos debates que fizemos nesta primeira questão, já sabemos que o ser humano tem algum fim último; que esse fim é o que dá sentido à sua vida, e que a busca desse fim especificamente humano é algo deliberado e consciente, e nos levará a saciar toda inquietude, numa situação de repouso que podemos chamar de felicidade. Em que consiste essa felicidade especificamente humana? É o que estudaremos ao longo da próxima questão.