Retomando.
Tudo o que existe, existe por causa de Deus. este é o sentido da expressão “causa primeira”, que estudamos na questão 2 da primeira parte da Suma. Ora, também o que vai existir, e mesmo o aperfeiçoamento das potências daquilo que existe, existe primeiro em Deus. Isto significa que as coisas se desenvolvem, se aperfeiçoam, para concretizar os planos de Deus a respeito delas – e é neste sentido que dizemos que Deus é o fim de tudo o que existe. Um leão que caça e captura sua presa, uma planta que floresce, tudo dá glória a Deus justamente por vir a ser o que é. Mas será que isto significa que o ser humano tem o mesmo fim de todas as criaturas? É o que começamos a debater no último texto.
Vimos, ali, a hipótese inicial de que o ser humano tem o mesmo fim último que todas as criaturas, no sentido de que todas as criaturas têm seu princípio em Deus e, portanto, existem e se desenvolvem para dar glória a Deus, assim como o ser humano. Mas vimos também o argumento contrário, que registra o ensinamento de Santo Agostinho de que somente o ser humano tem como fim último a felicidade – ou seja, tem a possibilidade de tomar consciência de que busca a felicidade. Somente o ser humano conhece seu fim, os meios para atingi-lo e o busca deliberadamente. Assim, o fim último do ser humano é a felicidade – o estado de repouso na plenitude do bem universal, que satisfaz a vontade sob todos os aspectos. Mas os seres dotados de capacidade sensorial e desprovidos de inteligência não são capazes de felicidade, segundo Agostinho. Logo, o fim último do ser humano não é o mesmo daquele fim último das outras criaturas, defende o argumento sed contra.
Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás, mais uma vez, vai nos provar que o problema e a polêmica, neste assunto, decorrem do fato de que não prestamos atenção para as diversas acepções em que o termo “fim” é utilizado por nós. Na verdade, essa observação de Tomás ainda é atual mesmo hoje em dia. Temos muita dificuldade em perceber por qual razão os seres humanos têm um fim último que é diferente daquele das outras criaturas, porque tem uma dignidade diferente: é um ser intelectual, como os anjos (embora sem o poder intelectual pleno dos anjos), e é um ser material como os animais, plantas e inanimados). Isto faz com que nosso objetivo, nossa plenitude, nossa felicidade específica não esteja no mesmo fim que aquele próprio às outras criaturas.
De fato, Aristóteles nos ensina que a palavra fim pode ser empregada em suas acepções:
1) Como aquela coisa que buscamos como fim de nossos esforços (o dinheiro, a fama, a honra, a vitória numa competição, por exemplo);
2) O uso ou o modo de alcançar essa coisa.
Deste modo, podemos dizer que alguém muito avarento tem como fim, no sentido (1), o dinheiro, e, no sentido (2), a aquisição de muito dinheiro e seu uso para acumular mais dinheiro. Ou podemos dizer que uma criatura inanimada que seja muito pesada tem como fim (1) ficar o mais próximo possível do chão, e como fim (2) cair para lá ou permanecer lá.
Assim, diz Tomás, se olharmos o fim no sentido (1), vemos que todas as potencialidades de todas as criaturas estão antes na mente de Deus. Logo, Deus mesmo é o fim último de todas as criaturas, porque é realizando os fins que ele preparou para cada uma que elas dão glória a Deus e podem desfrutar de sua própria perfeição – assemelhando-se à perfeição que foi pensada para elas por Deus, e que está Nele em primeiro lugar.. Assim, no sentido (1), Deus mesmo é o fim de todas as criaturas (e também dos seres humanos). Não temos, nesta acepção, um fim diferente do fim de todas as criaturas, portanto. Deus é o mesmo fim para nós e para todas as criaturas.
Mas, se tomamos a noção de fim a partir da acepção (2), ou seja, o fim como uso ou como modo de alcançar a plenitude em Deus, então vemos que o fim das criaturas inteligentes (nós e os anjos) é diferente daquele das criaturas não dotadas de inteligência – e mesmo o nosso fim, como seres humanos, é diferente do fim último dos anjos. De fato, as criaturas inanimadas, como as criaturas vivas irracionais, atingem seu fim por um desenvolvimento de potencialidades que não envolve a possibilidade de conhecer reflexivamente seu Criador, nem de buscá-lo intencionalmente para dar-lhe graças. Por exemplo, uma roseira dá glória a Deus fazendo florir suas rosas e tornando o mundo mais belo e perfumado; uma cachoeira dá glória a Deus com o esplendor de suas águas turbulentas. Mas nem a roseira nem a cachoeira conhecem reflexivamente o criador, nem buscam deliberadamente amá-lo e estabelecer uma relação de amizade com ele. Apenas o fato de que suas potencialidades desabrocham, atualizam-se, já faz com que alcancem seu fim último, exibindo as semelhanças de suas perfeições com a perfeição absoluta de Deus.
No entanto, a perfeição do ser humano consiste em tornar-se cada vez mais uma imagem e semelhança ativa de Deus, crescendo em seu conhecimento de que Deus é amor e dirigindo sua vontade deliberadamente a amá-lo cada vez mais. Portanto, o fim último do ser humano envolve uma instância processual de reflexão, de busca ativa, de amor deliberado, que as outras criaturas não têm.
Encerrando por enquanto.
Portanto, mesmo admitindo que o fim de todas as criaturas é o próprio Deus – e ainda veremos melhor como é que isto se dá – vemos que o modo pelo qual atingimos este fim é próprio do ser humano, e não pode ser o mesmo, digamos, da roseira ou da cachoeira.
No próximo texto revisitaremos os argumentos iniciais a partir dos princípios agora estabelecidos por Tomás.
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