1. Introdução.

Não há dúvidas de que somos todos, antes de mais nada, criaturas de Deus – nós e tudo o que existe no universo. Ora, toda criatura existe como resultado de quatro causas: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a final. Ora, a causa final diz respeito àquilo que a criatura pode ser, mas ainda não é. Onde existe aquilo que a criatura ainda não é, mas ainda pode ser, senão como pensamento em Deus? 

Se a plenitude, a perfeição, a consumação de toda criatura é realizar o fim que Deus pensa para ela, então será que poderíamos dizer que o fim último de toda criatura é o mesmo? Eis o debate proposto aqui. Vamos a ele.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial, para provocar o debate, quer justamente propor que todas as criaturas têm o mesmo fim último que o ser humano. O artigo apresenta três argumentos iniciais para tentar comprovar esta hipótese.

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento propõe justamente que o fim de todos os seres, a consumação de sua perfeição, consiste justamente em transformar em ato aquilo que existe apenas como plano na mente de Deus para as suas criaturas – a atualização de suas potencialidades, portanto. Ora, todas as potencialidades de todas as criaturas têm sua atualização na mente de Deus antes de tê-las em si mesmas. Por exemplo, uma semente tende a se tornar uma árvore, mas não qualquer árvore, senão aquela árvore que existe na mente de Deus como associada àquela semente. Ora, isso é verdade para todas as criaturas – e não somente para os seres humanos. Portanto, o fim último de qualquer criatura é o mesmo do ser humano – chegar a ser aquilo que glorifica o plano de Deus para ela, conclui imprudentemente o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento vai num sentido semelhante: cita o pseudo-Dionisio, que ensina que Deus conduz sua criação, todo o universo, para si mesmo – para que, plenificados, possam dar glória a Deus usufruindo da totalidade do bem que é o próprio Deus. Ele conduz todas as criaturas para esse destino, e não somente o ser humano. Logo, todas as criaturas compartilham o mesmo fim último, conclui apressadamente o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento nos lembra que, do mesmo modo que a inteligência humana tem por objeto a verdade universal – já que o ser humano não se satisfaz com as verdades parciais e com a solução de problemas concretos, como os seres dotados de alguma capacidade de conhecimento prático – também a vontade humana tem como objeto o bem universal; ou seja, diferentemente dos seres dotados de inclinações e instintos sensoriais, que se satisfazem com o atingimento de bens concretos, a nossa vontade, tão logo atinge um determinado objetivo, já anseia por outros objetivos maiores. Enquanto, por exemplo, um leão se satisfaz ao abater sua presa, e cessa de perseguir o resto do rebanho ao qual ela pertence, a vontade humana já deseja algum modo de domesticar todo o rebanho para atender suas necessidades futuras. 

Portanto, a vontade humana se inclina ao bem universal, que inclui em si os bens particulares que são objeto das inclinações de todos os seres. Assim, o fim último do ser humano não é outro senão o mesmo fim de todas as criaturas, conclui de modo um tanto inconsistente o argumento.

  1. O argumento sed contra.

O argumento contrário à hipótese inicial é retirado de Santo Agostinho. Este grande santo nos ensina que o fim último do ser humano é a felicidade – o estado de repouso na plenitude do bem universal, que satisfaz a vontade sob todos os aspectos. Mas os seres dotados de capacidade sensorial e desprovidos de inteligência não são capazes de felicidade, segundo Agostinho. Logo, o fim último do ser humano não é o mesmo daquele fim último das outras criaturas, conclui este argumento.

  1. Encerrando por enquanto.

Deus é princípio e fim de tudo. É o único bom (Mc 10,18). Só ele poderia saciar integralmente o ser humano. Mas em que sentido? É em que sentido ele é o bem de tudo, e portanto das demais criaturas também? São perguntas profundas, que serão respondidas ao longo de toda a Suma. O que nos interessa agora é a medida da diferença entre os objetivos de uma vida humana plena, realizada, por um lado, e do desenvolvimento das outras criaturas – que certamente é diferente do nosso, porque não envolve condutas éticas e responsabilidade moral. Veremos mais sobre isso no próximo texto.