1. Retomando para concluir.

Podemos, então, a essa altura, concluir que cada ser humano busca sua própria meta final, aquele fim último que, embora nem sempre conscientemente deliberado, dá unidade e sentido a uma vida. De fato, os bens finais individuais são múltiplos – alguns buscam a riqueza, outros o sucesso, outros ainda o conhecimento ou o poder. Mas o fim último comum, ou seja, aquilo que todos estão buscando, é um só – a felicidade, que se entende como aquele bem que satisfaz todas as inclinações, necessidades e desejos. Ou seja, no fundo aquele que busca a riqueza não crê que o dinheiro acumulado é seu fim, ou seja, não vê a felicidade no próprio dinheiro, mas naquilo que o dinheiro pode lhe proporcionar em termos de segurança, de atendimento de necessidades e desejos. Quem busca a fama e o sucesso crê, no fundo, que isso lhe trará a possibilidade de atender a todas as suas necessidades e desejos – de bens, de amigos, de afeto, etc. Portanto, diz Tomás, estamos todos buscando essa situação que nos completa, nos preenche – embora nem todos estejam procurando isso do jeito certo, e alguns, certamente, mesmo que alcancem o seu próprio sumo bem, descobrirão que ele não é capaz de conceder a plenitude desejada…. Mas isto é assunto para outro texto.

De posse desses princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás para eles. 

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento diz que, de fato, o bem último deve ser alguma coisa completa, plena, capaz de levar o ser humano à perfeição da saciedade. Mas há muitos que se desviam desse fim, buscando coisas que certamente não somente não trarão felicidade, como até os destruirão. Logo, não podemos dizer que todos os seres humanos possuem o mesmo fim último, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

H[a apenas um fim para todos os seres humanos, aquele que é capaz de saciar, de aperfeiçoar, de plenificar a vida. Mas nem todos os seres humanos escolhem aquilo que, de verdade, é capaz de torná-los plenos, preferindo caminhos de auto-engano e mesmo de autodestruição. Ora, quem busca aquilo que, de verdade, não é capaz de levar ao único fim que é digno de ser buscado não é alguém que simplesmente “pensa diferente”, mas alguém que está enganado e não alcançará o que almeja. Portanto, há apenas um fim, em sentido absoluto, para todo e qualquer ser humano, mas há muitos desvios que, embora sejam seguidos por muitos, não levam ao fim. 

O segundo argumento objetor.

Aquilo que alguém elege como sumo bem de sua vida é também aquilo que dá sentido a toda a sua existência, a todas as suas escolhas, a cada um de seus comportamentos. Ora, se houvesse apenas um fim para todos os seres humanos, não haveria tanta pluralidade de escolhas, de modos de vida, de valores diferentes, como sabemos que há. Logo, não pode haver apenas um fim para todos os seres humanos, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que as pessoas têm, para si mesmas, fins últimos diversos. Mas isto ocorre porque cada um espera encontrar, no fim último que elegeu para si, a própria essência do sumo bem – que é o mesmo para todos. 

O terceiro argumento objetor.

Cada atitude humana, cada ação voluntária, cada conduta, cada comportamento eleito, tende a um fim concreto, histórico, individual, próprio de cada indivíduo humano. Assim, embora sejamos todos da mesma espécie – a espécie humana – cada um de nós é uma pessoa diferente, com situação histórica diferente, com características diferentes, buscando fins concretos diferentes. Logo, não há um só e mesmo fim para todos os seres humanos, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não há como negar que cada um de nós é um indivíduo dotado de sua própria personalidade, inserido na história e nas suas condições individuais, e elegendo ações que têm fins concretos. MAs todos nós temos a mesma natureza – a natureza humana – e nós já sabemos que a natureza é aquilo que determina todos os indivíduos que a compartilham a um só e mesmo fim. Assim, todos os seres humanos, justamente por serem seres humanos, e terem a natureza humana, compartilham o mesmo fim substancial, igual em essência – a busca da plenitude, da satisfação completa de desejos e inclinações, do desenvolvimento pleno de capacidades e potencialidades. Embora, quanto à expressão prática dessa busca, o conteúdo do fim último de cada ser humano, que ele busca em razão daquilo que vai concretizar a essência do fim último comum, varie para cada indivíduo. 

3. Concluindo.

Somos seres humanos. Buscamos, como meta final, essencialmente a mesma coisa: o pleno desenvolvimento, a plena satisfação, a completude total. Mas, como somos indivíduos, materiais, históricos, situados, limitados, cada um de nós encontrará a expressão desse fim último conforme sua própria individualidade. Conscientes de que, ao final, nem todos os caminhos escolhidos levarão à plenitude desejada.