- Retomando.
Terminamos o texto anterior com um dilema: como poderíamos negar o fato de que vivemos num mundo plural, em que cada um parece escolher sua própria meta, seu próprio objetivo final, seu fim último, a partir de sua própria visão de mundo? Admitir outra coisa não seria, talvez, excluir a própria liberdade humana, pela imposição de uma uniformidade incompatível com a própria riqueza da criação?
Por outro lado, como negar que, no fundo, todos desejamos aquele estado de realização completa, em que todas as nossas necessidades, desejos, inclinações e aspirações estivessem plenamente saciadas e nossa vida fosse apenas desfrutar dessa plenitude maravilhosa? Não seria justamente isto que buscam aqueles que querem ficar muito ricos, muito poderosos ou muito famosos? Será que não seria justamente viver uma vida de plena satisfação, sem quaisquer carências, apenas para usufruir de tudo de bom que a vida pode dar? Não seria isso justamente a felicidade? Estaria, então, certo Santo Agostinho, quando diz que estamos todos apenas buscando esse estado de usufruto da plenitude a que chamamos de felicidade?
Foi exatamente neste ponto que terminamos o texto anterior. Ali, a partir da hipótese inicial de que não haveria um só fim último para todos os seres humanos, examinamos os três argumentos iniciais que defendem essa ideia, a saber: 1) O fato de que muitas pessoas parecem deliberadamente se desviar da busca por essa plenitude, entrando em caminhos autodestrutivos e claramente equivocados; 2) O fato de que há muitas formas de viver eleitas em concreto pelas pessoas, o que seria desmentido se todos tivessem o mesmo objetivo final e 3) Toda ação voluntária tem um termo final, que é justamente seu fim ou finalidade – que varia em função do fato de que cada ser humano é um indivíduo submetido a condições históricas de tempo e espaço diferentes – o que impede imaginar, segundo o argumento, que todos os seres humanos tenham o mesmo fim último. Por fim, examinamos o argumento sed contra, que citou Santo Agostinho para afirmar que todos nós buscamos o mesmo objetivo final – a felicidade.
A partir desse ponto, vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Mais uma vez Tomás vai fazer uma de suas distinções maravilhosas para superar um aparente paradoxo: aquele da constatação de que as pessoas têm objetivos diferentes na vida, mas no fundo procuram a mesma coisa – a felicidade.
Tomás diz que há duas maneiras pelas quais podemos entender a noção de “fim último” ou objetivo final, ou sumo bem:
- Quanto à sua essência, ou seja, quanto àquilo que o constitui em si mesmo, independentemente da opinião e dos gostos das pessoas.
- Quanto ao seu conteúdo ou expressão prática – que depende das condições históricas, das opiniões, dos gostos e das inclinações de cada sujeito humano.
Quanto à sua essência, o fim último é o mesmo para todos: alcançar, por seu modo de viver, a própria plenitude; aquela situação em que todas as necessidades fundamentais, todas as inclinações, todas as metas, estão satisfeitas, de tal modo que só reste ao sujeito usufruir da condição alcançada – o estado de desenvolvimento perfeito. Quanto a isto, todos os seres humanos buscam essencialmente a mesma coisa.
Quanto ao seu conteúdo ou expressão prática, existe uma pluralidade de caminhos e de escolhas: há os que vislumbram o caminho da acuymulação de riquezas como aquele capaz de levar à perfeição do desenvolvimento pessoal, há os que buscam a fama, ou o caminho do acúmulo de conhecimentos, ou ainda uma vida de prazeres sensoriais. Ou, como diz Tomás: todos estão buscando la dolce vita, mas há os que preferem a doçura do vinho, outros acham o mel mais agradável, outros preferem o açúcar. O fato é que, neste como em muitos assuntos, diz Tomás, é bom descobrir quem realmente é dotado de bom gosto, ou seja, quem tem o discernimento quanto ao melhor caminho para atingir aquilo que, por essência, todo ser humano deseja: descansar na perfeição da plenitude. Que se pode chamar simplesmente de felicidade.
- Encerrando este texto.
Há um só fim último para todos, portanto; obter a perfeição da plenitude para saciar-se de todo o bem, sem que nada fique excluído. A questão é saber quem foi que chegou a esse estágio: se foram os famosos de Hollywood, se foram os milionários do Vale do Silício ou se foram os déspotas de países poderosos. Ou se foram os grandes místicos que alcançaram uma proximidade real com Deus. Como ensina Aristóteles, nesta matéria é muito bom saber a quem seguir – quem é o ser humano perfeitamente prudente que pode apontar o verdadeiro caminho até a felicidade perfeita, para que possamos segui-lo até lá.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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