1. Introdução.

Vivemos num mundo plural – e não somente plural como uma constatação de fato – mas um mundo que se quer plural em sua essência. Cada um quer ter sua própria meta, cada um quer buscar seu próprio fim último, e parece inaceitável sequer propor que haja algum fim comum a todos os seres humanos. Mas se um tal fim existe, e se não podemos, a rigor, escolher qual fim deve ser buscado como meta final da nossa existência, então há um sério problema em nossa cultura: a maioria de nós simplesmente viverá uma vida falhada, porque está enganado quanto a aquilo que dá sentido ao nosso agir. 

Daí a importância de buscar a verdade, neste campo. Se houvesse um fim único para todos os seres humanos – e a morte é um fim desse tipo, já que atinge a todos – isso nos unificaria como seres do mesmo tipo. Mas a morte é algo que ocorre também a outros seres, a todos os seres vivos, e por isso não deve ser aquilo que nos unifica especificamente como seres humanos. Haverá um fim último comum a todos os seres humanos? Será que, no fundo, não podemos escolher o próprio fim, que é também nosso princípio radical e aquilo que nos motiva e move, mas temos um sentido dado, prévio a nós como indivíduos? Eis a profundidade do nosso debate agora. Vamos a ele.

  1. A hipótese inicial.

A hipótese inicial, que parece comprovada empiricamente pela nossa experiência cotidiana, é a de que não há um fim último comum a todos os seres humanos, mas cada um de nós elegerá sua própria meta final livremente, conforme seus próprios gostos e inclinações. Em seguida, veremos três argumentos que tentam comprovar essa hipótese que soa tão contemporânea para nós.

  1. os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Para que possamos falar de algo como bem final, ou bem completo, para a pessoa humana, seria preciso que fosse um bem completo, pleno, totalmente isento de qualquer mal, sofrimento, desvio ou incompletude. Mas sabemos que muitas pessoas escolhem deliberadamente caminhar por um caminho cheio de pecado, de mal, de sofrimento e de desvios. Logo, nem todos os seres humanos têm o mesmo fim último, conclui apressadamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Aquilo que alguém tem como fim último, como razão final, como bem supremo em sua própria vida, é o que dá sentido a todos os seus atos voluntários, todas as suas escolhas, todos os seus movimentos de vontade. Ora, sabemos que os seres humanos têm muitas e diversas razões de viver, que fundamentam estilos de vida muito diversos entre si – uns se movem pela fama, outros pelo sucesso, outros pelas riquezas, e assim por diante. Ora, se existisse apenas um único fim último para todos os seres humanos, essa diferença facilmente constatada por qualquer um não existiria. Assim, não existe apenas um fim último para todos os seres humanos, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Toda ação voluntária de um ser humano se dirige a um fim. Esse fim, portanto, é o termo da ação humana. Ora, embora todos nós pertençamos à mesma espécie (homo sapiens), cada um de nós é um indivíduo dotado de inteligência e vontade próprias, que pratica ações concretas e determinadas no tempo e no espaço. logo, o fim das nossas ações é concreto para cada indivíduo, e difere pelas circunstâncias históricas do tempo e do espaço. Portanto, não existe um único fim para todo e qualquer ser humano, conclui de modo radical este argumento. 

  1. O argumento sed contra.

Como argumento que se opõe a esta hipótese inicial, encontramos agora um argumento retirado de Santo Agostinho – que, no De Trinitate, afirma: todos os seres humanos são unânimes em desejar como meta final a mesma coisa – a felicidade. Assim, parece existir uma experiência compartilhada entre todos os seres humanos, que é a busca do repouso numa situação de plenitude do bem, de satisfação de todos os desejos e inclinações, que se chama felicidade.

  1. Encerrando por enquanto.

Parece que estamos num certo beco sem saída. Não temos dúvida de que todos nós estamos em busca de uma vida plena, no sentido de uma situação em que todos os nossos desejos, todas as nossas inclinações, todas as nossas aspirações, estejam atendidas, de tal modo que possamos usufruir de todas as coisas simultaneamente – seja por sermos estupidamente ricos, seja por sermos famosos e amados, seja por sermos sábios e inteligentes, reconhecidos assim por todos, seja por qualquer outra razão. Mas cada um parece buscar essa situação por um caminho completamente diferente. Como conciliar? Veremos pistas disso no próximo texto.