- Retomando para concluir.
Aquilo que é bem final, que é fim último de nossa vida, determina e guia, explica e dá início a qualquer gesto voluntário em nossa vida, de tal modo que tudo aquilo que fazemos deliberadamente, tudo aquilo que fazemos como ato propriamente humano, está, afinal, movido e justificado por aquilo que é o fim último de nossa existência. Em primeiro lugar porque cada pequena ação concreta realiza um pequeno bem, que só se explica em consonância com o bem final. E também porque aquilo que é o bem final, o sumo bem em nossa vida, não pode excluir nenhum bem concreto expresso em nossas ações. Estes são, basicamente, os dois argumentos de Tomás para fundamentar o fato de que o fim último explica e move cada pequeno ato voluntário que fazemos. É claro que nem sempre estamos conscientes disso, mas assim continua sendo. E é claro, também, que nossos gestos voluntários falam muito mais dos nossos verdadeiros fins do que, muitas vezes, temos consciência ou dizemos: nosso fim último é aquilo que dizemos com nossos atos, mas nem sempre com nossas palavras.
De posse de tais princípios, vamos examinar agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar a hipótese inicial de que nem todas as nossas ações concretas são movidas e determinadas por nosso bem final. Já vimos que essa hipótese não se sustenta. Vejamos, agora, como Tomás responde diretamente àqueles argumentos.
- Os argumentos iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor tenta comprovar que nem todas as ações deliberadas são movidas ou determinadas pelo fim último alegando que o fim último é algo sério, solene, e que muitas vezes fazemos deliberadamente coisas jocosas, alegres e descompromissadas, como jogos e brincadeiras, apenas por deleite. Então nem todas as nossas ações seriam determinadas pelo fim último ou por ele movidas, alega o argumento.
A resposta de Tomás.
Num certo sentido, pode-se dizer que as ações que envolvem o deleite, como o lazer, o descanso, as brincadeiras, os ditos jocosos, não têm outro fim além de si mesmos, além de serem causa de descanso e descontração daquele que se diverte. Mas esse descanso, essa descontração, são para a recuperação de energia, de aptidão, de saúde, coisas necessárias ao atingimento do fim último daquele que descansa e se recupera. Portanto, mesmo essas ações, que, numa visão superficial, são descomprometidas, na verdade também se movem e se dirigem ao fim último, que é o bem supremo também daquele que brinca e se diverte. Por isso, poderíamos dizer que nem todo lazer, nem toda diversão, é conveniente para qualquer pessoa – e aquele que está atento ao seu próprio bem final sabe escolher o descanso, o repouso, o lazer mais conveniente para não desviá-lo do caminho.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que, quando cultivamos as ciências especulativas e sapienciais, aprendendo-as e desenvolvendo-as com nosso esforço mental, não fazemos isso por motivos utilitários, como meio calculado para atingir outros fins que buscamos, mas o fazemos por elas mesmas, pelo valor que elas têm como conhecimento e como crescimento para nós. Logo, nem tudo o que fazemos está movido e determinado pelo nosso fim último, conclui este argumento.
A resposta de Tomás.
Do mesmo modo que o repouso e o lazer, também a sabedoria e as ciências especulativas nos tornam pessoas melhores, mais intelectualmente ricas, e portanto também nos ajudam a ser mais perfeitos, mais próximos daquela plenitude que o fim último significa. Portanto, mesmo a aquisição de sabedoria e da ciência especulativa por nós estão relacionados com nosso fim último, movidos por ele e determinados a ele, conclui Tomás.Embora não de uma maneira utilitarista, senão muito mais por uma maneira relacionada com a plenitude humana que representa, justamente, nosso fim último.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor lembra que os atos voluntários do ser humano são aqueles devidamente ponderados em seus meios e em seus fins. Ora, prossegue o argumento, dificilmente nós estamos pensando em algo como nosso fim último quando elegemos os gestos concretos cotidianos, de tal modo que não podemos dizer que o fim último seja o motor e a determinação para todos os atos humanos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não é preciso que pensemos, a cada momento, no fim último, quando agimos voluntariamente em nosso cotidiano. Na verdade, aquilo que é o fim último de nossa vida está sempre colocado de modo subjacente em todas as nossas condutas, mesmo que nem sempre de modo plenamente refletido e consciente. E Tomás faz uma comparação: quando ando por uma estrada, todos os meus passos são atos voluntários, mas não é necessário que, a cada passo, eu reflita deliberadamente sobre o fim a que aquela estrada me conduz. O fato de que não fazemos conscientemente essa deliberação refletida em cada pequeno gesto que elegemos não significa que o fim último não esteja determinando e movendo cada um deles.
- Concluindo.
Mais do que pensamos, nossas pequenas ações falam – ou deveriam falar – sobre aquilo que consideramos realmente importante para nós. Mesmo quando aparentemente estamos desligados da seriedade da vida ou das grandes questões existenciais, alguém que tem como fim último de sua vida, digamos, a busca da santidade, agirá de modo muito diferente de alguém que tem como meta final o acúmulo de dinheiro. Para saber o que verdadeiramente move alguém, melhor examinar seus atos e gestos do que simplesmente suas palavras.
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