- Retomando.
Já sabemos que, conscientemente ou não, temos uma meta final, um fim último, um bem supremo que guia nosso existir deliberado, nosso agir ético. E esse bem pode ser, simplesmente, a ideia de que a minha vontade, a minha autonomia, é a coisa mais importante neste mundo, e por isso não me submeto a ninguém, nem a Deus – muita gente, de fato, vive assim, de modo claro e deliberado. Isso se pode ver, por exemplo, na letra em inglês do sucesso “My Way”, imortalizado por Frank Sinatra: eis o espelho de alguém que tem, como meta final e explícita da vida, ser o deus de si mesmo. A maioria de nós, porém, não tem uma meta tão refletida, tão explícita: até crê em Deus, no deus de alguma religião, mas não reflete sobre o princípio da própria vida, sobre aquilo que dá sentido a cada um de seus atos deliberados, a cada um de seus comportamentos propriamente humanos.
A questão agora em debate é esta: será que este princípio fundamental de nossa existência, que é também nosso bem supremo e nosso fim último, de fato explica e determina cada um de nossos comportamentos deliberados, cada um dos nossos atos humanos, cada uma de nossas escolhas morais? A hipótese inicial é a de que isto não é verdade, e que muitos dos nossos atos deliberados, propriamente voluntários, humanos mesmo, não estão determinados por nosso fim último. Vimos três argumentos neste sentido: o primeiro diz que a meta suprema, o fim último, é algo muito sério e solene, e alguns dos nossos comportamentos são simples gracejos, brincadeiras, sem consequência e sem responsabilidade – simples lazer e diversão. Logo, estes comportamentos não estão vinculados nem podem ser explicados por alguma determinação ao fim último da nossa vida. O segundo argumento lembra que o conhecimento sapiencial, especulativo, existe e se justifica por si mesmo, e portanto quem se dedica a ele não o tem como algo vinculado ao fim último individual de quem o cultiva. e o terceiro argumento lembra que a maioria das nossas condutas, mesmo voluntárias, não envolve nenhuma reflexão, nenhum cálculo, quanto à nossa busca do fim último, mas são apenas pequenos atos quase casuais do cotidiano. Por fim, o argumento contrário reafirma Santo Agostinho, que já intuíra, na Cidade de Deus, que esse bem reconhecido como supremo em nossa vida é que explica e determina cada comportamento deliberado nosso, por menor e mais despretensioso que pareça.
Colocados assim os termos do debate, vamos acompanhar agora a resposta sintetizadora de Tomás sobre este assunto.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás não hesita em afirmar que todo nosso comportamento voluntário, todas as nossas escolhas conscientes, todos os nossos atos propriamente humanos, ou seja, toda a nossa conduta que cai sob o campo da ética, está determinado por aquilo que está colocado como bem supremo, como meta final, como fim último de nossa vida. Mesmo que nem sempre percebamos isto – na verdade muito raramente o fazemos. Ele dará duas razões pelas quais as coisas são forçosamente assim:
- A primeira razão, para Tomás, é a clareza que ele tem – e que nós, hoje, perdemos – quanto à noção de bem. De fato, para Tomás, bem, do ponto de vista moral, é simplesmente aquilo que atrai a vontade como inclinação para a conduta. Assim, digamos, o bem, para Tomás, não é um carro, ou uma casa, mas o fato de que, quando essas coisas atraem a vontade, escolhemos a conduta mais adequada com relação a eles: comprá-los, admirá-los, furtá-los, vendê-los e assim por diante. Ora, todas as nossas condutas, durante nossa vida, são adotadas porque nos atraímos para algum bem que queremos alcançar por meio de nossas ações. Portanto, se há alguma coisa que é, para nós, o bem final, a meta suprema de nossa vida, ela deve conter, necessariamente, todos os bens parciais que nos atraem no nosso cotidiano, e que são concretamente alcançáveis por nossas ações. Tudo o que é parcial, incompleto, só adquire razão de ser, sentido racional, quando aponta para o bem completo, total, consumado, que explica e dá consistência ao que é parcial. Portanto, tudo aquilo que fazemos, todas as pequenas metas que desenvolvemos em nossa ação concreta cotidiana, acha seu sentido no bem final, no fim último de nossa vida.
- A segunda razão, diz Tomás, é que o fim último, o bem final, aquilo que adotamos como meta suprema em nossa vida, está para as pequenas ações que movem nossa vontade cotidianamente, como a locomotiva está para o comboio de vagões: é ele que dá o movimento para todos as ações concretas do cotidiano. Se, digamos, o objetivo final de alguém é ficar muito rico, acumular uma enorme fortuna, então seu cotidiano será de economia de recursos, e seus gastos e despesas serão sempre vistos como investimentos no caminho da riqueza pessoal. esta pessoa não será movida, por exemplo, para fazer pequenos atos de filantropia, ou grandes festas para celebrar seu aniversário, senão quando perceber que estes gestos podem trazer grandes lucros depois, por exemplo atraindo investidores ou conquistando clientes. Portanto, é o fim último que move a pessoa a fazer as eleições cotidianas de suas ações concretas.
Deste modo, diz Tomás, todas as nossas pequenas ações voluntárias, por mais desconexas ou insignificantes que pareçam, estão determinadas pelo nosso fim último, seja ele qual for.
3. Encerrando por enquanto.
Quer saber qual é o deus da sua vida? Quer saber de fato a quem você serve, quem ou o que é o fundamento de seu existir? Basta ter a coragem de refletir sobre aquilo que, no fim das contas, te move em cada pequeno gesto aparentemente casual, em cada pequena brincadeira aparentemente descompromissada, assim como em cada grande decisão e gesto importante. Será que estamos buscando a fama infinita nos meios de comunicação, a riqueza inesgotável de bens econômicos, a autonomia completa de um ego que quer ser deus para si mesmo? Há algo que te vincula, que determina suas decisões, que explica cada comportamento voluntário seu. Se você nunca refletiu sobre isto, agora é hora de começar.
No próximo texto, já munidos destas reflexões, veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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