- Introdução.
Ao longo dos últimos textos, vimos que a conduta propriamente humana se identifica pelo fato de ser a busca deliberada de um fim que é identificado pela vontade como um bem, e que a busca deliberada desse fim caracteriza os atos humanos como tais. Vimos que a inteligência humana é capaz de identificar os fins, e a vontade é capaz de buscá-los, de se inclinar para eles deliberadamente como algo bom. Vimos que são justamente esses fins que dão inteligibilidade às ações humanas, de tal modo que as ações são desta ou daquela espécie na medida que buscam este ou aquele fim: um gesto de ajuda difere, em espécie, de um furto ou mesmo de uma troca comercial, justamente porque o fim buscado em cada um deles é diferente. Finalmente vimos que a própria vida humana adquire sentido e unidade por estar direcionada a uma só meta final, que é o fim último buscado e que torna significativa a vida propriamente humana – sendo a marca de aperfeiçoamento da humanidade nas pessoas.
Agora, o debate envolve mais um aspecto interessante dessa compreensão do agir humano, do agir deliberado na busca do fim que é reconhecido e escolhido como bem a ser buscado. Trata-se de saber se esse fim último, se essa meta suprema da vida, determina todas as escolhas concretas que o ser humano faz, e explica todas as suas eleições e seus comportamentos propriamente humanos. Vamos ao debate.
- A hipótese inicial.
A hipótese inicial, para provocar o debate, propõe que, ainda que possamos admitir que toda pessoa tenha uma meta final em sua vida, algo que ele colocou (conscientemente ou não) como fim último de sua existência – como ficar muito rico, ou ser muito poderoso ou famoso – essa meta final não determina todas as eleições concretas, todos os pequenos atos propriamente humanos que ele faz, de tal modo que há muita coisa, em nosso agir cotidiano, que simplesmente não se refere nem se encaminha a tal meta final suprema da vida. Há três argumentos iniciais que tentam rebater os que não aceitam esta hipótese e reforçar o seu fundamento. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Nada pode ser mais sério, mais solene, do que uma meta suprema para a vida de alguém, algo que ele escolheu e colocou como aquilo que é seu bem maior, o sentido de sua vida como um todo, a realização de sua humanidade. Ora, mas nem todo comportamento humano se reveste de tal solenidade, já que muitas coisas que fazemos – brincadeiras, piadas, gracejos, jogos de lazer, por exemplo – são simplesmente alegres e divertidas, sem compromisso, até desprovidas de consequências e de responsabilidades. Logo, aquilo que fazemos de modo alegre e divertido não está determinado pelo fim último da nossa vida. Portanto, nem tudo o que fazemos está determinado, ou adquire seu sentido, do fim último da vida de alguém, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Para Aristóteles, as ciências especulativas – aquelas que lidam com o próprio pensamento ou as estruturas da realidade, e não diretamente com a técnica ou a arte – não se justificam por alguma utilidade ou mesmo por alguma razão prática fora delas mesmas. Saberes como a filosofia e a teologia, por exemplo, ou a própria sabedoria das grandes culturas e tradições humanas são cultivadas e desenvolvidas por si mesmas, não por causa de algum “fim último” da vida daquelas pessoas que se dedicam, por atos livres e deliberados, a elas. Mas os seres humanos que se dedicam a adquirir essas ciências e saberes possuem algum fim último para a sua própria vida. Logo, não é por causa do fim último de sua vida que eles se dedicam a estas ciências já que elas não se prestam a outros fins senão o seu próprio desenvolvimento. Assim, conclui o argumento de modo pouco refletido, nem todas as ações deliberadas do ser humano são determinadas pelo fim último de suas próprias vidas.
O terceiro argumento objetor.
Quando um ser humano quer atingir um fim de modo livre e deliberado, ele toma consciência desse fim e elege os meios, os atos concretos, que possibilitarão atingi-lo, sempre consciente do fim buscado. Mas nem todos os nossos atos deliberados, ao longo de nossa vida, são eleitos como meio deliberado para um fim supremo da nossa existência. Aliás, na maioria das vezes, nem sequer pensamos em algum fim último, em alguma meta final de nossa existência, quando nos dedicamos a eleger os pequenos atos conscientes de nosso dia-a-dia. Logo, nem todos os atos humanos são eleitos em função da meta final, do fim último, conclui um tanto levianamente o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra, que, como sabemos, é aquele argumento que sempre apresenta um bom motivo para não aceitar a hipótese inicial, recorre, aqui, a Santo Agostinho. De fato, na obra “Cidade de Deus”, o grande Padre da Igreja romano nos diz que aquilo que temos como nosso bem final é o motivo para que amemos e elejamos todas as outras coisas; mas este fim não é amado por causa das outras coisas, senão por si mesmo. Logo, todas as coisas que elegemos e fazemos concretamente durante a vida têm sua explicação e fundamento naquilo que colocamos como nosso sumo bem, nossa meta final de vida, conclui este argumento.
- Encerrando por enquanto.
Podemos viver uma vida fragmentada, sem sentido, irrefletida e errática – podemos ser aquela metamorfose ambulante de que falava Raul Seixas em sua famosa canção popular. Mas isso não significa que não tenhamos uma meta final – ainda que essa meta final seja a autodestruição anárquica pela subversão de toda ordem social. O fato de tentarmos fundamentar nossa própria liberdade – ou nossa falsa ideia de um libertarianismo adolescente e irresponsável – na quebra deliberada de qualquer sentido em nossa própria vida, pela adoção de eleições aparentemente sem fundamento e sem qualquer sentido – não revela mais do que a ideia de termos como fim último a própria soberba de sermos deuses de nós mesmos. Daí a necessidade de refletir sobre os temas que Tomás nos está propondo – que são profundamente libertadores, porque nos fazem tomar consciência das nossas próprias limitações e do sentido de nossa liberdade.
No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás sobre este tema.
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