- Retomando para concluir.
Na conclusão das considerações sintetizadoras que Tomás nos ofereceu, e que queremos deixar marcado em nossa lembrança, destacamos que a meta suprema, o fim último do ser humano, aquilo que o move naturalmente, antes de todo raciocínio, antes de toda deliberação, deve ser uno e comum a todo o gênero humano. esse fim último, que Tomás ainda não nos apresentou, deve ser o mesmo para todos os seres humanos e deve, também, ser o fim último de cada ser humano, que dá a razão de propriamente humanos a seus atos voluntários.
De posse dessa consideração, vamos revisitar os argumentos iniciais, que tentavam comprovar que o ser humano pode ter fins últimos múltiplos e não coordenados entre si, para ver a maneira pela qual Tomás responde a esses argumentos – que são argumentos, aliás, muito atuais, que nos interpelam ainda hoje. Examinemo-los.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que o próprio Santo Agostinho elencou, na “Cidade de Deus”, nada menos do que quatro fins últimos para os seres humanos: o prazer, o repouso, os bens da natureza e a virtude. Ora, quatro são uma pluralidade, e não uma unidade. Assim, o argumento nos propõe, apressadamente, que o ser humano pode fazer com que a sua vida se dirija a metas últimas plúrimas, sem unidade entre si.
A resposta de Tomás.
Se, por um lado, Agostinho fala em quatro aspectos, por outro isto não significa que sejam quatro aspectos desconexos entre si. Na verdade, eles podem ser lidos como quatro dimensões de uma plenitude humana verdadeiramente unificada por alguma meta mais elevada, una, indivisível, que se manifesta nessas quatro dimensões – unificados por essa meta unitária mais elevada. Em suma, não estamos tratando, aqui, de quatro fins últimos, mas de quatro dimensões da vida plenificada por uma meta única e consistente, capaz de dar direção à busca de uma vida plena.
O segundo argumento objetor.
Somente as coisas opostas se excluem; mas há muitas coisas que não são opostas, e podem ser colocadas lado a lado, simultaneamente. Por exemplo, não posso correr e ficar parado simultaneamente, mas posso correr e, digamos, ouvir música. Assim, nada impede que tenhamos mais de uma meta final, mais de um fim último dirigindo a nossa vida, mesmo que desconexos entre si, desde que não sejam opostos e mutuamente excludentes, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
de fato, existem várias coisas que não são mutuamente excludentes. Mas aquilo que o ser humano coloca como meta final, como fim último de sua vida, deve, para ser realmente algo que o encaminhe à plenitude humana, ser um fim que preencha inteiramente suas necessidades, desejos e ambições, de tal modo a poder dirigir toda a sua vida, todas as suas eleições, todos os seus atos propriamente humanos, ao resultado final de completa consumação de sua existência. ora, uma meta que deixasse lugar para a existência de outra meta desconexa a ela não satisfaria esses requisitos e, portanto, não poderia ser considerada realmente como o fim último da vida de alguém. Deste modo, pode haver apenas um único fim último, uma única meta final que orienta a vida de alguém. Embora, poderemos dizer hoje a Tomás, a maioria das pessoas nunca se detenha para refletir sobre isso, e acabe vivendo de modo insatisfatório, desorientado e fragmentado.
O terceiro argumento objetor.
O fato de colocar para si mesmo uma meta final, um fim último para orientar sua vida, não leva o ser humano a perder sua capacidade de escolher. Alguém, digamos, que assume como fim último de sua vida o acúmulo de dinheiro pode, num determinado momento, mudar de ideia e passar a viver em função do prazer sensual. ora, se ele pode eleger fins últimos sucessivos, nada o impediria de eleger também fins últimos simultâneos, ainda que desconexos entre si; ou seja, o ser humano pode manter vários fins últimos simultaneamente, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A vontade humana não tem o poder de fazer acontecer aquilo que é contraditório ou impossível, diz Tomás de modo sensato e realista. Alguém que escolhe para si diversos fins últimos sucessivos, ou que imagina manter simultaneamente diversas metas finais que dariam sentido à sua existência está, na verdade, se enganando, vivendo uma vida pouco humana, pouco significativa, fragmentária e dispersiva.
- Conclusão.
Adotar muitos fins últimos simultaneamente ou sucessivamente é renunciar a viver uma vida propriamente humana, capaz de se dirigir à plenitude e à perfeição. É ser um joguete nas mãos dos outros ou do destino, renunciando à razoabilidade, à responsabilidade e, no fim das contas, ao próprio sentido da liberdade. De certo modo, em nossos dias, esse niilismo prático se instalou de modo muito forte, e explica, em grande medida, o fato de estarmos vivendo uma era de pouca saúde mental, de depressões e burnouts, de suicídios e abortos. Creio que esta questão da meta final, do sentido último da vida de alguém, que busca um fim que lhe plenifique, nem sequer se coloca de modo consciente para a imensa maioria da humanidade. Que Tomás nos ajude nessa missão!
Deixe um comentário