- Retomando.
Precisamos, para acompanhar o pensamento de Santo Tomás, perder nossa visão normativa a respeito da conduta humana. Tomás não está falando normativamente, não está dizendo, aqui, que “devemos” ter apenas um fim último para nossa vontade, ou que ter mais de um fim último seria algo imoral ou ilegal. Ele está dizendo algo muito mais profundo: no interior de uma visão que pressupõe que os seres humanos estão, deliberadamente e de boa-fé, buscando o melhor para si mesmos e para os demais, ter mais de um fim último é irracional, porque não é razoável que alguém possua essa “fratura’ nos seus objetivos. Ninguém pode se desenvolver como ser humano, ninguém pode se tornar uma pessoa mais plena, mais completa, se tiver diversos fins últimos, desconexos entre si, simultaneamente propostos à sua vontade.
Mas estamos nos adiantando. Vimos, no texto anterior, a hipótese proposta no sentido justamente contrário a este: a hipótese inicial propunha que, de fato, é possível, é admissível e é até esperado que o ser humano tenha, como metas últimas de sua vontade, mais de um fim supremo simultaneamente, mesmo que eles não tenham nenhuma relação entre si. Alguém poderia, por exemplo, querer, como fim último, ser simultaneamente campeão olímpico em alguma modalidade esportiva individual e ser um enólogo mundialmente famoso; isso não impediria em nada a sua caminhada para a sua plenitude, nem desorientaria suas escolhas concretas, suas eleições. Vimos três argumentos iniciais que tentam comprovar essa hipótese: o primeiro lembra que o próprio Santo Agostinho, na obra “Cidade de Deus”, diz que os fins últimos do ser humano consistem em quatro coisas: o prazer, o repouso, os bens da natureza e a virtude.Vê-se que são quatro fins últimos diferentes e não necessariamente conexos entre si, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor diz que apenas fins últimos que fossem mutuamente excludentes, porque opostos, é que se excluiriam. Por exemplo, alguém não poderia desejar, ao mesmo tempo, ser santo e ser um líder do crime organizado. Mas nada impediria que fins não excludentes, mesmo desconexos entre si, fossem simultaneamente escolhidos por alguém, propõe o argumento. Finalmente, o último argumento lembra que sempre há a possibilidade de desistir de um fim último e escolher outro, de modo a ter vários fins últimos sucessivamente – e por isso nada impediria, também, de mantê-los simultaneamente.
O argumento que procura refutar a hipótese inicial (sed contra) lembra que esse objetivo final, que essa meta suprema, deve dominar de tal modo a vida de alguém que a própria Bíblia nos lembra do perigo de “servir a dois senhores” (Mt 6, 24). Deste modo, deve-se ter apenas uma meta final para dirigir a vida, conclui o argumento.
Postos os termos do debate, vamos estudar a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta de Tomás.
Não existe a possibilidade de que um ser humano que é dotado de inteligência e a usa de fato, e que está em busca de uma realização pessoal plena, venha a adotar diversas metas finais para a sua própria vida. Isso é irrazoável – e mesmo irracional. E Tomás vai nos dar três razões para isso:
- A primeira razão é a constatação de que cada ser persegue, em sua atividade, a busca de sua plenificação existencial. Essa plenificação é alcançada quando se alcança – ou ao menos se tende – à perfeição própria. Ora, a perfeição não é aquilo que consome o bem até que ele não exista mais (como seria o caso, por exemplo, de alguém que se dedicasse aos vícios até esgotar a própria saúde e, no limite, a própria vida). A busca da plenitude, a tendência ao aperfeiçoamento, significa tender ao bem que realiza, que satisfaz, que aperfeiçoa e completa sem jamais se esgotar, mas que satisfaz a aspiração ao próprio aperfeiçoamento. Isso só ocorre se o fim escolhido é capaz de indicar uma completude, uma perfeição, uma integridade que não dá lugar a divisões, a separações, a fraturas existenciais. Isso só ocorre se aquilo que escolhemos como fim, como meta que realiza, não se apresentar como dividido nem divisivo, mas como uno e unificador da pessoa, capaz de desenvolvê-la sob todos os aspectos. Por isso, não seria possível que o ser humano tendesse simultaneamente a dois fins desconexos como completivos, unificadores, aperfeiçoadores. Apenas a fixação de uma única meta final, apenas uma perfeição visada, que sacie a vontade sob todos os aspectos, é capaz de realizar integralmente o ser humano.
- A razão sempre inicia por aquilo que é naturalmente conhecido; aquilo que se apresenta espontaneamente à nossa inteligência funciona como princípio de inteligibilidade para todo o nosso processo de conhecimento. De fato, por exemplo, quando nos damos conta do mundo, as primeiras coisas que percebemos é que as coisas são aquilo que são, ou seja, são iguais a si mesmas e diferentes das outras coisas, e entram em relação conosco. Esta percepção, que é nosso princípio de inteligibilidade, se oferece naturalmente à nossa inteligência e funciona como aquele princípio que permite que conheçamos todas as outras coisas, pelos processos de dedução e indução. Ora, esse princípio, justamente por ser princípio, não pode ser deduzido de nada mais – não se chega ao princípio por meio de raciocínios, mas por um processo natural de percepção; por sua vez, é o princípio que permite todos os outros raciocínios. Neste ponto, Tomás nos lembra que a vontade é o apetite da razão, e por isso, ela também deve partir de algum princípio que é naturalmente desejado, como a razão conhece por um princípio que é naturalmente conhecido (princípio da identidade). A razão e a vontade, diz Tomás, são parte da natureza humana também. E a noção de natureza significa, justamente, aquilo que é determinado a um só fim. Tudo que é natural tende a um só fim: a semente de milho tende a ser naturalmente pé de milho, como o ovo de galinha tende a ser galinha e não, digamos, avestruz, e assim por diante. Portanto, também nossa vontade deve ser movida por apenas um princípio, que é aquilo que é desejado naturalmente. E esse desejo natural, que se impõe a nossa vontade espontaneamente, é necessariamente também nossa meta última, a qual não podemos renunciar sem renunciar à nossa própria humanidade. E ele é necessariamente uno, porque é natural.
- Já vimos, nos debates anteriores, que as nossas ações voluntárias são caracterizadas justamente pelo fim a que visam. A diferença entre as ações voluntárias surgem exatamente do fim a que o agente visa: por exemplo, alguém que dirige com excesso de velocidade para salvar uma vida é um herói, mas aquele que o faz porque quer chegar mais cedo numa festa é apenas um irresponsável. Ora, filosoficamente sabemos que tudo que tem uma espécie tem também um gênero, que as reúne num só conjunto. E o gênero das ações voluntárias é sempre o gênero das ações humanas. Mas o gênero se estabelece, filosoficamente, como o conjunto daquilo que tem a mesma razão de ser, em comum. E a razão de ser de algum ato voluntário é sempre seu fim. É preciso, portanto, que todas as ações voluntárias, para pertencerem ao conjunto das ações propriamente humanas, devem ser movidas pelo mesmo fim genérico; esse fim genérico, que faz com que uma ação seja propriamente humana, deve ser o critério que unifica todos os elementos do conjunto atos voluntários humanos. Deste modo, esse fim deve ter duas características: deve ser um único critério capaz de reunir todos os atos voluntários humanos, de todos os seres humanos, num mesmo conjunto, num mesmo gênero; e deve ser um único critério para que todas as ações voluntárias de um indivíduo da espécie humana possam pertencer ao conjunto das ações humanas. Deste modo, aquilo que é a suprema meta, que é o fim último do gênero humano, deve ser uma coisa só. Portanto, deve haver um só fim último, uma só meta suprema, que caracteriza todas as ações voluntárias humanas, de um indivíduo ou de todo o gênero humano, como propriamente humanas.
Portanto, a meta suprema, o fim último do ser humano, aquilo que o move naturalmente, antes de todo raciocínio, antes de toda deliberação, deve ser uno e comum a todo o gênero humano. esse fim último, que Tomás ainda não nos apresentou, deve ser o mesmo para todos os seres humanos e deve, também, ser o fim último de cada ser humano, que dá a razão de propriamente humanos a seus atos voluntários.
3. Encerrando por enquanto.
Em suma, deve haver um único e mesmo fim que se impõe ao ser humano como gênero humano, e a cada ser humano individualmente, e que nos permite considerar sua atividade voluntária como propriamente humana e propriamente razoável.
Mais uma vez, aqui, devemos lembrar que a possibilidade de agir de modo desumano, de modo não racional, não razoável, está sempre aberta ao ser humano. Mas certamente quem escolhe agir desse modo não somente está negando sua própria natureza humana, como também está renunciando à possibilidade de se aperfeiçoar, de ser pleno, de ser completo, de repousar sua vontade naquilo que é a única coisa capaz de deixá-la em paz, em repouso, satisfeita, feliz. Eis o preço por negar o fim último que se apresenta a nós como natural: condenar-se a nunca poder ser feliz.
No próximo texto examinaremos novamente os argumentos iniciais que tentavam provar a possibilidade de que haja mais de um fim último para o ser humano, a partir das respostas específicas que Tomás apresenta a eles.
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